segunda-feira, 11 de junho de 2012

Segunda-feira poética: A Serra do Rola-Moça, Mário de andrade

Parque da serra do Rola Moça - MG
A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não...
eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
O noivo com a noiva dele,
Cada qual no seu cavalo.
Antes que chegasse a noite,
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus para todos
E se puseram de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.

A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome, não.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E, apressadas se escondiam,
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam,
Cada qual no seu cavalo
E riam! Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos
Que, pulando levianinhos,
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.

Ah, fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto,
Precipitados no abismo:
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte.

Na altura tudo era paz...
Chicoteando seu cavalo,
No vão do despenhadeiro,
O noivo se despenhou.
E a serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

(Noturno de Belo Horizonte)