segunda-feira, 16 de abril de 2012

Segunda-feira poética: As Minhas Asas, Almeida Garrett



Eu tinha umas asas brancas
asas que um anjo me deu,
que, em me cansando da terra,
batia-as,voava ao céu

-Eram brancas, brancas, brancas,
como as do anjo que mas deu.
Eu incente como elas,
por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,
vinha para me tentar;
por meus montes de tesouros
minhas asas não quis dar

- Veio a ambição coas grandezas,
vinham para mas cortar,
davam-me poder e glória;
por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas
asas que um anjo me deu,
em me eu cansando daa terra,
batia-as voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
que eu contemplava as estrêlas,
e já suspenso da terra
ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrêlas...
Vi, entre a névoa da terra,
outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas
asas que um anjo me deu,
para a terra me pesavam,
já não me erguiam ao céu.

Cegou-me esta luz funesta
de enfeitiçados amôres...
Fatal amor, negra hora.
Foi aquela hora de dores!
-Tudo perdi nessa hora
que provei nos meus amôres,
o doce fel do deleite
o acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas
asas que unm anjo me deu,
pena a pena me caíram...
nunca mais voei ao céu.

(Flores sem fruto, 1845)

(Nota: o blog manteve a grafia original)