quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Espera, Richardson Nochelli


Estátua de Brigitte Bardot - Búzios, RJ
Dizem, e quem sou eu para desdizer, que há tempos ela está ali, imóvel, os pés tocando o mar, os olhos perdidos no horizonte e um breve sorriso misterioso nos lábios. Dizem, como eu disse, que faz mais tempo que o próprio tempo, de uma época em que o mundo fazia sentido, e os sentimentos eram verdadeiros e quem seria eu, novamente, para negar? Tudo não passou de um caso de amor, é o que falam, e, eu me pergunto, há nesta vida algum caso que não seja de amor?
            Conta a lenda que a pobrezinha que ali está se condenou pelo amor de um marinheiro valente e belo guerreiro, mas desses sem rumo nem dinheiro, desses que, como tantos outros, lhe prometeu o mundo, mas que só lhe deu o mar, salgado e profundo, a banhar-lhe os pés descalços, pela ação do tempo, sempre a esperar.
            Ali, onde a vê, ela se sentou esperando por seu dragão marinho, e há boatos ainda hoje de que de lá não se moveu por sete dias inteiros, sete sois e sete luas! Vindo apenas após estes sete cabalísticos dias a esboçar o primeiro movimento, o movimento de pequenas e continuas gotas de tristeza que brotavam de seus olhos, e seguindo com esse único e solitário movimento por um tempo infinito, tanto tempo que não se pode mais contar. Pouco se sabe como se manteve viva por este tempo, tem quem afirme que ela fez um acordo com o mar, ela o alimentava de lágrimas e ele a alimentava de carícias, uma troca de afeto entre prisioneiros condenados por amar demais.
            Os dias viraram semanas, meses, anos, as lágrimas viraram sal, formando estalactites duras como aço e puras como almas, que pendiam de todo o seu corpo, dando-lhe a aparência de uma amazona marítima encouraçada de sal pelo próprio mar, a personificação de uma deusa qualquer sofrendo do sentimento que a tornou mortal.
            Houve, enfim, um dia em que dela nada mais se via, engolida por seu pranto condenável em um esquife sólido, branco e abandonado, um destes blocos onde os amantes traçam corações e juras de eterno amor, crendo seguro algo tão mutável como rochas, ou sentimentos. Seu último movimento, uma lágrima solitária, veio desprender numa suave manhã de primavera, selando, e secando, a fonte feia e misteriosa onde pássaros faziam ninho, onde as flores subiam aos nós, e onde, naquele momento, se apoiava aflito um jovem senhor recém desembarcado, de cabelos esvoaçantes, corpo marcado e um sofrido olhar de promessa não cumprida, nas mãos, um maço de cartas apertadas contra um coração apertado ainda mais.
            Poderia, por horas a fio, contar sobre com que agonia este jovem percorreu trôpego, ruas e estradas, vielas e becos, buscando em casas e casebres, bares e pousadas, informações sobre sua amada, alguém com o sol nos cabelos e a lua nos olhos, alguém com o fogo nos lábios e o gelo na alva pele, perderíamos horas falando de suas histórias rapidamente espalhadas, sobre a prisão inesperada, sobre a peste superada ou sobre as guerras vencidas, mas não, não havia viva alma por toda a redondeza que, dentro dos seis meses a que se seguiram, soubessem de tal donzela, prometida ao guerreiro corajoso que a viria desposar, ao marinheiro que prometeu-lhe céus, mas deu-lhe apenas mar.
            Louco, desatinado, ele já não sabe o que fazer, sequer sabe bem o que ser uma vez que seu ser se perdeu para sempre, sua busca infrutífera e seus passos desconexos o levam até o duro bloco calcário, marcado por tantos casais, onde um dia aportou. Tantas frases românticas, tantas juras de amor que o pobre perde o juízo, rasgando envelopes e cartas que, amassados, trazia consigo, frases, poemas e elegias à sua rainha da beleza, eternamente perdida, palavras há tanto escritas e agora inúteis. Atira papeis ao vento que os prende, ao acaso, em dobras irregulares do repugnante bloco cinzento e, num último lampejo de insanidade, lança-se ao mar como se aos braços do amor. Como um beijo roubado abre a boca e suga a água fria e salgada e sente seu corpo liquefazer-se, aos poucos torna-se mar, aos poucos torna-se onda, aos poucos deixa de tornar-se e passa a ser e foi, a mais bela onda que já se formou por estas costas, dizem ainda que não foi com violência mas com ternura que a onda bateu no bloco espantando pássaros, arrancando flores e destruindo as cartas. Foi com amor que a onda traçou contornos tão belos em bloco tão feio, foi com carinho que, da couraça, surgiu a mais bela princesa de pedra, branca como o brilho lunar, forte como a mais dura rocha, em seu colo jazia o corpo do jovem marinheiro com seus cabelos ao vento, ambos entrelaçados de maneira mágica, com leves sorrisos brincando em suas faces e com os corpos tatuados das mais belas frases, poemas e elegias, pela força do mar ou do amor, sobras gravadas na pele das cartas que cumpriam seus destinos.
            Parece-me, se bem me lembro, que passado algum tempo o corpo do jovem simplesmente desapareceu, foi como que por magia, uns afirmam que ele se fundiu à pedra, outros que ele se transformou num belo e pequeno peixe dourado, mas o que importa qual é a verdade? Nada verdadeiramente importa quando em jogo está todo o sentimento que você pode carregar e algo tão forte quanto o que eles tiveram, ainda será contado e reavivado por muitos e muitos outros anos.
            Por fim, e se é verdade já não se sabe, mas nas primaveras em noites bonitas como essa, ainda é possível ouvir, carregado pelo vento, seus risos de donzela apaixonada e há quem jure que nestes momentos, enquanto o brilho prateado da lua a reverencia, todo um cardume de peixinhos dourados se aproximam para beijar seus pés.