segunda-feira, 12 de março de 2012

Segunda-feira poética: A Órfã na Costura, Junqueira Freire

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Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era todo o meu amor
Seu cabelo era tão louro,
Que nem fita de ouro
Tinha tamanho esplendor

Suas madeixas luzidas
Lhe caiam tão compridas
Que vinham aos pés beijar
Quando ouvia as minhas queixas,
Em suas áureas madeixas,
Ela vinha me embrulhar

Também quando toda fria
A minha alma estremecida,
Quando ausente estava o sol,
Os cabelos compridos
como fios aquecidos
Serviam-me de lençol.

Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era todo o meu amor,
Seus olhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Sobre a choça do pastor

Minha mãe era mui bela
Eu me lembro muto dela,
De tudo quanto era seu!
Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era tudo e tudo meu!

Os meus passos vacilantes
Foram por longos instantes
Ensinados pelos seus,
Os meus lábios mudos, quedos,
Abertos  pelos seus dedos
Pronunciaram-me: - Deus

Mais tarde quando acordava,
Quando a aurora despontava,
Erguia-me sua mão
Falando pela voz dela,
Eu repetia singela
Uma formosa oração.

Minha mãe era mui bela.
- eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas,
Suas palavras sagradas,
Cos risos que ela me deu.

Estes pontos que eu imprimo,
Estas quadrinhas que eu rimo,
foi ela que me ensinou:
As vozes que eu pronuncio,
Os contos que eu balbucio
foi ela que mos formou.

Minha mãe! diz-me esta vida,
Diz-me esta lida,
Este retrós, esta lã:
Minha mãe! diz-me este canto;
Minha mãe! diz-me este pranto; 
Tudo me diz: - Minha mãe -

Minha mãe era mui bela,
- Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era tudo e tudo meu!