sábado, 25 de fevereiro de 2012

Por causa da Revista Veja

 Pequena antologia online: contos brasileiros de carnaval       (Postagem de março de 2011)
Folião cerebral, do tipo que sempre valorizou mais uma virada de enredo que uma virada de bateria, fiz um garimpo na grande rede instigado pela aposta de que seria possível montar uma boa antologia de contos de carnaval só com textos disponíveis online, de preferência na íntegra. Deu certo.
A meia dúzia de contos abaixo – todos acessíveis a quem clicar sobre os títulos, sem necessidade de baixar arquivos – deixa claro que as relações entre a folia momesca e a literatura brasileira, com perdão do clichê, sempre deram samba.
Destaque absoluto para o aterrorizante O bebê de tarlatana rosa, obra-prima de João do Rio, imbatível na captação do lado negro de uma festa solar. De resto, tons sombrios se fazem presentes – o que, pensando bem, não chega a ser surpresa – em praticamente todas as histórias.
Pena que o conto Caprichosos da Tijuca, de Marques Rebelo, e a crônica A batalha do Largo do Machado, de Rubem Braga, não estejam online. Presenças obrigatórias em qualquer antologia analógica sobre o tema, espero que esta menção compense de alguma forma sua ausência. O conto de Rubem Fonseca tem apenas um trechinho disponível, mas sua qualidade me levou a incluí-lo na lista mesmo assim.
Por fim, peço desculpas ao leitor pelo atrevimento de me meter em tão ilustre companhia, mas, caramba, é carnaval. Não há quem se fantasie de Napoleão?




Um folião chamado Rubem Braga   (Postagem de fevereiro de 2012)
Recebi há poucos dias da leitora Regina Porto uma mensagem em que ela informava ter preenchido por conta própria uma grave lacuna na literatura carnavalesca digital: depois de ler um post – publicado no Todoprosa no carnaval passado – em que eu, listando bons itens de literatura momesca disponíveis na internet, lamentava a ausência da monumental crônica Batalha do Largo do Machado, de Rubem Braga, ela foi lá e, voluntariosa, publicou o texto. Ei-lo. É imperdível.
Braga, o maior dos nossos cronistas, descreve uma batalha de ranchos e blocos no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, no carnaval de 1935. Descrever é um verbo que soa pálido diante do desfile de palavras ofegantes que vemos passar na avenida, acotovelando-se, enquanto o sujeito das orações toca surdo e “a cuíca ronca, estomacal, horrível”:
É um profundo samba orfeônico para as amplas massas. As amplas massas imploram. As implorações não serão atendidas. As amplas massas amaram. As amplas massas hoje estão arrependidas. Mas amanhã outra vez as amplas massas amarão… As amplas massas agora batucam…Tudo avança batucando.
Situado num momento histórico anterior a todas a ideias de correção política, Braga não é paternalista, não bajula a tal “maior festa popular do mundo”, permite-se até enxergar uma “massa torpe e enorme” na multidão de “operários em construção civil, empregados em padarias, engraxates, jornaleiros, lavadeiras, cozinheiras, mulatas, pretas, caboclas”. Fala em “meninas mulatas, e mulatinhas impúberes e púberes, e moças mulatas e mulatas maduras, e maduronas, e estragadas mulatas gordas”. Racismo?
Pelo contrário. Naquele momento, meados dos sinistros anos 1930, o racismo começava a arrastar a Europa para o inferno, mas aqui tal molde era partido pelo próprio batuque, feito em mil estilhaços – como a gramática – pelo cronista que, na vertigem da folia, inventava um impensável superlativo de verbo para bradar, embriagado de tanta mulatice:
Morram as raças puras, morríssimam elas!
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Nota: Este blog publicou o segundo conto que o jornalista da Veja lamenta não ter encontrado: Caprichosos da Tijuca de Marques Rebêlo.