quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Quarta- feira é dia de: Na Hora Neutra Da Madrugada, Rubem Braga


      Muitos homens, e até senhoras, já receberam a visita do Diabo, e conversaram com ele de um modo elegante e paradoxal. Centenas de escritores sem assunto inventaram uma palestra com o Diabo. Quanto a mim, o caso é diferente. Ele não entrou subitamente em meu quarto, não apareceu pelo buraco da fechadura, nem sob a luz vermelha do abajur. Passou um dia inteiro comigo. Descemos juntos o elevador, andamos pelas ruas, trabalhamos na Redação do Jornal e comemos juntos.
A principio confesso que estava um pouco inquieto. Quando fui comprar cigarros, receei que ele dirigisse algum galanteio baixo à moça da tabacaria. É uma senhorita de olhos cor de garapa e cabelos castanhos muito simples, porém muito bonitos que eu conheço e que me conhece, embora a gente não se cumprimente. Mas o Diabo se comportou honestamente. O dia todo – era um sábado – correu sem novidade. Ele esteve ao meu lado na mesa de trabalho na Redação, no restaurante, no engraxate, no barbeiro. Eu lhe paguei o cafezinho; ele me pagou o bonde.
À tarde, eu já não o chamava de Belzebu, mas apenas de Bebu e ele me chamava de Rubem. Nossa intimidade caminhava rapidamente, mesmo sem a gente esperar. Quando um cego nos pediu esmola, dei dois reais. É meu hábito, sempre dou duzentos réis. Ele deu uma prata de dois mil réis, não sei se por veneta ou porque não tinha mais miúdo. Conversamos pouco; não havia assunto.
À noite, depois do jantar, fomos ao cinema. Outra vez me voltou a inquietude que sentira pela manhã. Por coincidência, ele ficou sentado junto a duas mocinhas que eu conhecia vagamente, por serem amigas de uma prima que tenho no subúrbio. Temi que ele fosse inconveniente; eu ficaria constrangido. Vigiei-o durante a metade da fita, mas ele estava sossegado em sua cadeira; tranqüilizei-me. Foi então que reparei que ao meu lado esquerdo sentara-se uma moça que me pareceu bonita. Observei-a na penumbra. A sua pele era morena, e os cabelos quase crespos. Sentia a tepidez de seu corpo. Ela acompanhava o filme com muita atenção. Lentamente, toquei o seu braço com o meu; era fácil e natural; isto sempre acontece por acaso com  as pessoas que estão sentadas juntas no cinema. Mas aquela carícia banal me encheu as veias de desejo. Suavemente deslizei a minha mão para a esquerda. A moça continuava olhando para o filme. Achei-a linda e tive a impressão de que ela sentia como eu estava emocionado, e que isto lhe dava prazer.
Mas neste momento, ouço um pequeno riso e viro-me. Bebu está me olhando. Na verdade não está rindo; está sério. Mas em seus olhos há uma qualquer malicia. Envergonhei-me como uma criança. A fita acabou e não falamos no incidente. Eu fui para o jornal fazer o plantão da noite.
Só  conversamos à vontade pela madrugada. A madrugada tem uma hora neutra que há muito observo. Não sei situá-la bem no relógio. É quando passo a tarde toda trabalhando e depois ainda trabalho até a meia-noite na redação. Estou fatigado, mas não me agrada dormir. E aí que vem hora neutra.Eu e Bebu ficamos diante de uma garrafa de cerveja em um bar qualquer. Bebemos lentamente sem prazer e sem aborrecimento. Na minha cabeça havia uma vaga sensação de efervescência, alguma coisa morna, como um pequeno peso. Isto sempre me acontece; é a madrugada, depois de um dia de trabalheiras cacetes. Conversamos não me lembro sobre o quê. Pedimos outra cerveja.  Houve um momento em que olhei sua cara banal, seu ar de burocrata avariado, e disse:
- Bebu, você não parece o Diabo. É apenas, como se costuma dizer, um pobre-diabo. - Ele me fitou com seus olhos escuros  e respondeu: - Um pobre-diabo é um pobre DEUS que fracassou. - Disse isso sem solenidade nenhuma, como se não tivesse feito uma frase. De repente me perguntou se eu acreditava no Bem e no Mal. Não respondi; eu não acreditava.
Mas a nossa conversa estava ficando ridícula. Desagradava-me falar sobre esses assuntos vagos e solenes. Disse-lhe isto, mas ele não me deu a menor atenção. Grunhiu apenas: - Existem. - Depois afrouxou o laço da gravata e falou: - Há o Bem e o Mal, mas não é como você pensa. Afinal quem é você? Em que você pensa? Com certeza naquela moça que vende cigarros, de olhos de garapa, de cabelos castanhos...
Estas palavras de Bebu me desagradaram. Ele dissera exatamente como por acaso: aquela moça de olhos de garapa. . . Era assim que eu me exprimia mentalmente, era esta a imagem que me vinha à cabeça sempre que pensava nos olhos daquela senhorita.
Sei que não é uma comparação nova; há muitos olhos que tem aquela mesma cor meio verde, meio escura, de caldo de cana;olhos doces, muito doces; e muitas pessoas já notaram isso; e até eu pareceque já vi essa imagem em uma poesia, não lembro de quem. Mas a coincidência era alarmante; não podia ser coincidência. O Bebu lia o meu pensamento, e, o que era pior, lia sem nenhum interesse, como se lê um jornal de anteontem. Isso me irritou:
- Ora, Bebu, não se trata de mim. Você estava falando do Bem e do Mal. Uma conversa besta. . .
- Ele não ligou... – e disse: - Está bem, Rubem: o Bem e o Mal existem, fique sabendo. Você morou muito tempo em São José do Rio Branco, não morou? - Estive lá quase dois anos – respondi. Trabalhava com meu Tio. Um lugarzinho parado. . - Bem. Lá havia um Prefeito, um velho prefeito, o Coronel Barbirato. Mas o nome não tem importância. Imagine isto: uma cidade pequena onde há sempre um prefeito.Esse Prefeito nunca será deposto, nunca deixará de ser reeleito. Sempre será  o Prefeito. E há também um homem que lhe faz oposição. Esse homem uma vez quis depor o prefeito, mas foi derrotado e o será sempre. O povo da cidade teme, aborrece, estima, odeia o prefeito; não importa. Pois é isto.
- Bebu pôs mais um pouco de cerveja no copo e continuou falando:
- É isto: o Bem e o Mal. O Prefeito acha que os bancos do jardim devem ser colocados diante da Igreja: isto é o Bem. O homem da oposição acha que eles devem ficar em volta do coreto? Isto é o Mal. Entretanto. . . - Bebu – deixe de ser chato.
- Não amole. Você sabe a minha história. Fiz uma revolução contra Deus. Perdi, fui vencido, fui exilado; nunca tive e nem implorei anistia. Deus me venceu para todos os séculos, para a eternidade. É o Prefeito eterno, ninguém pode fazer nada. Agora, se tem coragem, imagine isto: eu saio de meu inferno uma bela tarde, junto todo o meu pessoal, faço uma campanha de radiodifusão, arranjo armamento, vou até o Paraíso e derroto aquele patife. Expulso de lá aquela canalhada toda,aquelas onze mil virgens, aquela santaria imunda. O que acontece?
- Eu não respondi. Irritava-me aquele modo de Bebu de falar.Bebu continuou com mais veemência: - Acontece isto – seu animal: não acontece nada! Você reparou quando uma revolução vence? Os homens se renderão diante do fato consumado. O Bem será o Mal, e o Mal será o Bem. Quem passou a vida adulando Deus irá para o inferno para deixar de ser imbecil. Eu farei a derrubada: em vez de anjinhos, os capetinhas; em vez de santos, os demônios. Tudo será a mesma coisa, mas exatamente o contrário. Não precisarei nem modificar as religiões. Só mudar umas palavras nos livros santos: onde estiver “não”, escrever “sim”, onde estiver “pecado”, escrever “virtude”. E o mundo tocará para frente. Vocês não seguirão a minha Lei, assim como nunca seguiram e não seguem a dele; não importa, será sempre a Lei. - Eu me sentia atordoado. Percebi que lá fora, na rua, as lâmpadas se apagavam e murmurei: "seis horas". Bebu falava com um ar de desconsolo: - Mas não pense nisso. Aquele patife está firme. É possível depô-lo.Impossível! Impossível.. - Olhei a sua cara. Dentro de seus olhos, no fundo deles, muito longe, havia um brilho. 
Era uma pequena, miserável esperança, muito distante, mas todavia irredutível. Senti pena do Bebu. É estranho, eu não posso olhar uma pessoa assim no fundo dos olhos, sem sentir pena. Fui consolando: - Enfim, meu caro, não adiantaria coisa alguma. Você como está, vai bem. Tem seu prestigio. . .
Ele estourou:
- Eu estou bem? Canalha! Pensa que quando me revoltei foi à toa? Conhece o meu programa de governo? sabe quais  foram os ideais que me levaram à luta? Pode explicar por que, através de todos os séculos , desde que o mundo não era mundo até hoje, até sempre, fui eu, Lúcifer, o único que teve peito pra se revoltar? Você sabe que, modéstia a parte, eu era o melhor da turma.Eu era o mais brilhante, o mais feliz, o mais puro, era feito de Luz. Por que é que me levantei contra ele, arriscando tudo? O governo atual diz que eu fui movido pela ambição e pela vaidade. Mas todos os governos dizem isto de todos os revolucionários fracassados! Olhe,Rubem, você é tão burro que eu vou lhe dizer. Esta joça não ficava assim não. Eu podia lhe contar o meu programa; não conto, não conto porque não sou nenhum desses políticos idiotas que vivem salvando a pátria com suas plataformas. Mas reflita um pouco, meu animal. Deus me derrotou, me esmagou, e nunca nenhum vencedor foi mais infame para com um vencido. Mas pelo amor que você tem a esse canalha, diga-me: o que é que ele fez até agora? A vida que ele organizou e que ele dirige não é uma miséria? – uma porca miséria? Você sabe perfeitamente disto. Os homens não sofrem, não se atrapalham,não se matam, não vivem fazendo burradas? É impossível esconder o fracasso. Deus fracassou, fracassou mi-se-ra-vel-men-te!  E agora, vamos,me diga: por pior que eu fosse, acha possível camarada, acha possível que eu organizasse um mundo tão ridículo, tão sujo?
- Não respondi nada a Bebu. Esvaziamos em silêncio o último copo de cerveja. Eu ia pedir outra, mas refleti amargamente que não tinha mais dinheiro no bolso. Ele, por sua vez, constatou o mesmo. Saímos. Lá fora já era dia:
- Puxa vida! Que sol claro, Bebu! Isto deve ser sete horas.
Andamos até a esquina da avenida.
Ele me perguntou?
- Onde é que você vai? 
– Vou dormir. E você? 
Bebu me olhou com seus olhos escuros e respondeu com um sorriso de anjo:
 - Vou à missa. . .
               ___________________________________________________


Nota: encontrei essa crônica com dois títulos:
Na Hora Neutra da Madrugada - em: A Palavra é... Mistério (org. por Ricardo Ramos)- E. Scipione
Eu e Bebu Na Hora Neutra da Madrugada - em 200 crônicas escolhidas,as melhores de Rubem Braga. (Ed.Record)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Segunda-feira poética: Para Acender a Luz

Para Acender a Luz
Laércio Lins


De que material é feito a beleza?
Qual o peso da leveza?
De que momento nasceu o tempo? Será que no mesmo lugar onde foi soprado o primeiro vento?
De que pedra preciosa nasceu a alegria? Das larvas de um vulcão? Da água limpa e fria?
Sentimentos bons têm brilho de metal, tem gosto de festa.
Pensamentos não pensados, palavras nunca ditas ou escritas. Será essa a origem da filosofia?
O bem contra o mal, o bom contra o ruim. 1x0 ou empate? Ou será que um alimenta o outro?
De que magia nasce o encanto. A paixão é uma miragem que faz o feio parecer bonito ou é ilusão de ótica?
Será que o medo é parente do grito?
De que é feito o pensamento? De saudade? De lembranças? De ansiedade? De depressão? De senso crítico? De bom senso? Ou de esquecimento?
O poder é forte? Ou se esconde em uma máscara pra não revelar a fraqueza?
Será que o desejo deseja?
Qual a lógica da lógica?
A morte vive de matar a vida.
A esperança que saiu da caixa de Pandora mora agora no ninho da Fênix e acorda todos os dias de manhã.
Eva comeu mesmo a maçã?
Em meio a isso tudo como fica o amor? Na sessão da tarde ou no filme de terror? No beijo de Hollywood ou na novela da TV Globo?
As mães da praça de maio sofrem e sentem saudade de janeiro a janeiro. Deveriam ser mães da praça do ano inteiro.

sábado, 26 de novembro de 2011

Crônica cantada:Chico César - Filme triste



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quarta-feira é dia de: Coisas da Vida Após a Vida

 Coisas da Vida Após a Vida
Rafael Pascoal (suburbanismos)
      Adelaide conheceu bem o que é o preconceito. Depois de morrer asfixiada pelo marido, passou três dias enterrada e voltou à vida como zumbi. No começo foi complicado: ela não se lembrava de muitas coisas e ficou perambulando pelas ruas até se ser reconhecida por uma vizinha. Houve muita resistência por parte de sua família em aceita-la de volta, já que fedia a carniça e soltava pedacinhos de si mesma por onde quer que fosse.
     Com o tempo, porém, a morta-viva foi voltando à rotina. Divorciou-se de Olavo depois de coloca-lo na cadeia, retomou os estudos, fez as unhas e até adotou um gatinho preto. Seus filhos ainda sentiam um certo nojinho de andar ao seu lado, já que volta e meia um dos olhos cismava em saltar da órbita. A ex-defunta até que achava graça, e começou a fazer mais vezes esse truque, só para pagar de descolada.
     Certa noite, Adelaide resolveu pegar um cineminha. Comprou um balde de pipoca, refrigerante light e drops de anis. Estava se acomodando em sua poltrona quando uma gorda reclamou do mau cheiro. Com receio de que as lágrimas corroessem ainda mais o seu rosto, Adelaide saiu de fininho e voltou para casa. Apesar de estar recobrando as memórias e apresentar um certo cuidado com o visual, a zumbi ainda temia a rejeição.
     Passava tantas noites em claro que não demorou muito para se viciar em salas de bate-papo na internet. A conversa fluía muito bem, até Adelaide confessar que já havia passado desta para uma melhor. Foram tantas decepções, que resolveu entrar num fórum de taras bizarras. Surpreendentemente, conheceu um necrofilo que morava no mesmo quarteirão e ambos apaixonaram-se perdidamente depois do segundo encontro.
     Daí foram domingos inteiros debaixo dos edredons, transas de outro mundo, horas e horas de telefonemas melosos e intermináveis e-mails com poesias apaixonadas. O necrófilo foi o primeira a dizer “eu te amo”, e Adelaide só ficou chateada por não ter mais como morrer de amores por ele, por motivos óbvios. Ambos viveram felizes até o dia em que ela, distraída, foi colocar um bolo no forno e acabou cremada. Coisas da vida após a vida.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Segunda-feira poética: A Ternura

















A TERNURA
Álvaro Pacheco.
Num domingo sobreposto,
ressuscitarei umas auroras
resistentes de minha carne
e qualquer sensação sobrevivente
da juventude anterior.
São outros tempos, ou apenas
outras circunstâncias, talvez
porque adormeci
e deixei que as pessoas se fossem
e não disse as palavras necessárias,
ou mesmo
porque estou muito cansado
e não sinta mais as coisas
como elas deviam ser, muito ternas
e inocentes — acho
que é terrível envelhecer,
muito ruim ser velho
ou apenas viver mais do que os outros,
esquecendo-me, dentro do tempo,
de como era lidar suavemente
com a ternura.

sábado, 19 de novembro de 2011

Crônica cantada: Tic Tic Nervoso, Kid Vinil


Tic tic Nervoso
Kid Vinil
Estou preso no trânsito
Com pouca gasolina
O calor tá de rachar
E lá fora é só buzina...
Perdi o meu emprego
Que já era mixaria
E ontem fui assaltado
Em plena luz do dia...
Isso me dá
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso...(2x)
E quando chego em casa
É aquela baixaria
As contas estão vencidas
E a geladeira tá vazia...
Encontro uma garota
Um tremendo avião
Pergunto o seu nome
Ela me diz que é João...
Isso me dá
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso...(2x)
Eu sempre me achei
Um rapaz normal
Que esse papo de analista
Fosse coisa pra boçal...
Agora me chamam de esquisito
E sujeito atrapalhado
Só por causa desse meu jeito
Todo torcido assim pro lado...
É que eu fiquei com
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso...(2x)
Estou preso no trânsito
Com pouca gasolina
O calor tá de rachar
E lá fora é só buzina...
Antigamente todos tinham
Esperança de vencer
E acontece que hoje em dia
Não dá mais prá se viver...
Viver sem ter
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso
Tic Tic! Nervoso..

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Palavra é ... Mistério - vários autores

Machado de Assis, Raimundo Magalhães, Inglês de Souza, Coelho Neto, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Orígenes Lessa, Rubem Braga e José J.Veiga são os autores  dos contos de mistério selecionados nesta coleção da Ed. Scipione. 
O  projeto que traz também contos de festa, amor e criança, é organização de Ricardo Ramos, filho de Graciliano Ramos.

A palavra é... mistério tem 10 contos antecedidos de pequena biografia de cada autor.

A coleção é de 1988, só pode ser encontrada em sebos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Vamos votar ??

Amigo, com sua participação o blog chegou à segunda etapa. Conto novamente com seu apoio para continuar entre os concorrentes.  É facil: basta  clicar no selo azul
do lado direito da tela e seguir o passo a passo.  Agradeço a sua colaboração. Abraço a todos.
Regina.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarta-feira é dia de: crônica de Raquel de Queiroz

O Santo Vicente

(Publicada na Rev.O Cruzeiro em 24.09.1960)

                        TREZENTOS anos atrás, em 27 de setembro de 1660, morria em Paris um ancião. Camponês de nascimento, pastor na sua infância, prisioneiro de piratas e cativo de um alquimista árabe nos seus vinte anos, padre, postulante em Roma, confidente de S. Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, discípulo do Cardeal de Bérulle, preceptor daquele que foi depois o demoníaco e aventureiro Cardeal de Retz, esmoler da Rainha Margot, confessor “in extremis” de Luíz XIII, diretor espiritual de Ana d’Áustria (diz-se que foi êle o celebrante do falado casamento secreto da Rainha com Mazarino), esmoler-geral das galeras do Rei, intermediário de paz nas lutas da Fronda, fundador das congregações dos Lazaristas e das Irmãs de Caridade - chamou-se em vida Vincent-de-Paul. É o nosso São Vicente de Paulo. Mas, nos altares onde subiu, não é representado junto a reis nem rainhas - mas como um padre velho que abriga sob a capa duas crianças desvalidas. Pois o que fêz um santo do camponês de-Paul, não foi a convivência dos grandes - foi a sua heróica virtude da caridade.

Naquela França terrivelmente convulsionada pela ambição dos príncipes e pelas guerras de religião, o jovem Vicente de Paulo achou o seu campo de batalha. Grandes eram a miséria, o sofrimento, a ignorância do povo. Essa ignorância, especialmente em matéria de fé, foi o que primeiro impressionou o Padre de-Paul. Era êle então preceptor na casa nobre de Gondi, quando iniciou uma espécie nova de missões - que se poderiam chamar de missões suburbanas. Nada de embarcar para terras de Ásia e África - bastava andar uma légua e encontraria gentes tão distantes de Deus quanto os pagãos amarelos ou negros. Ensino de catecismo, prédicas singelas - e dessas pequenas missões nasceu a grande congregação missionária dos Lazaristas, que se espalharam mais tarde pelo mundo todo.

Depois o cura de-Paul voltou os seus olhos para os problemas de mendicância e para os enfermos desamparados. Inventou então as sociedades das Senhoras de Caridade - damas da sociedade, fidalgas e burguesas (entre elas contou Maria de Gonzaga que depois foi Rainha da Polônia), que deveriam pessoalmente ir levar recursos e assistência aos necessitados. Quase tôdas as grandes damas do tempo formaram ao seu lado; mas apesar de tão altas protetoras, cujos recursos materiais e políticos garantiam a extensão e sobrevivência da obra, o santo verificou que a caridade das duquesas e princesas padecem de um vício básico: o próprio fato de continuarem as Senhoras de Caridade a serem grandes damas. Chocou-o profundamente saber, por exemplo, que as ilustres congregadas, nas suas visitas aos pobres, não se baixavam a levar pessoalmente as esmolas de virtualhas e roupas: mandavam em seu lugar as criadas. E S. Vicente não queria uma caridade por procuração, mas caridade direta, de mão para mão, uma caridade corpo-a-corpo, se o ouso dizer. A ferida que se lava e se cura, a cama suja que se troca, a fome a que se acode cozinhando na própria cabana do pobrezinho a sopa e o mingau. Foi dessa necessidade que nasceu a grande revolução vicentina. Um novo tipo de comunidade religiosa, cuja direção foi entregue à famosa “Mille Le Gras”, ou seja, a nossa Luiza de Marillac. Até então a vocação religiosa feminina só conhecia um caminho: a contemplação e o claustro. S. Vicente descobriu uma fórmula inédita: nada de freiras emparedadas em conventos, cuidando apenas da sua alma. As suas seriam militantes, praticando a caridade com as próprias mãos. "...que elas não tenham ordinàriamente por mosteiro senão as casas dos doentes; por cela, um quarto de aluguel; por capela, a igreja da paróquia; por claustro, as ruas da cidade e as salas dos hospitais; por clausura, a obediência; por grades, o temor de Deus; por véu, a santa modéstia." É essa a regra básica das Irmãs de Caridade, ou filhas de S.Vicente. Donzelas de virtude intocada, criadas na abastança, fidalgas, burguesas e filhas do povo - em tôda parte seriam recrutadas. S.Vicente lhes acenava com uma vocação diferente, que na época quase chegou a causar escândalo. Não as vestia de freiras, e o trajo que ainda hoje usam as Irmãs de Caridade, é a roupa comum às mulheres do povo naquele tempo: - por sôbre o camisolão de linho branco, saia e casaco de lã grosseira, um grande avental; à cabeça a touca engomada, como abrigo e como recato.

Há, na santidade de Vicente de Paulo um elemento que o aproxima especialmente de nós, no nosso século tumultuoso. É a sua condição de ativista, de homem atuante, de operário de Deus, que enfrenta o mal pegando-o pelos chifres, em vez de apenas o exorcizar. Com a sua energia de camponês, o seu bom senso popular, fêz da caridade uma tarefa do corpo, além de uma exaltação da alma. S. Vicente é um santo que a gente entende, e, como o entende, ama-o melhor que aos outros, os que sobem às altas esferas da doutrina e do misticismo. S. Vicente, contemporâneo de Richelieu e de Luiz XIV, soube ensinar a um mundo ofuscado por êsses dois que foram o alfa e o ômega do Grande Século, que além da grandeza política, além do orgulho nacional, além do poder e da pompa de Rei, existe uma glória maior, mais duradoura: a glória humilde de servir, de enxugar lágrimas e sarar dores.

Trezentos anos se passaram. De Richelieu e Luiz, o Sol, que resta? Pedras mortas, páginas de livros. Mas a obra de Vicente de Paulo está aí, viva, palpitante, eterna, maior ainda que em vida do santo, multiplicada muitas vêzes. Não há lugar perdido no Mundo, na Europa, na Ásia, na África, na América ou na Oceania, que não apareça nos mapas da caridade como parte de uma província Vicentina. Hospitais, orfanatos, escolas, asilos - qualquer forma de caridade elas revestem.

E já temos como certo, quando começarem as viagens interplanetárias, assim que se criarem as primeiras colônias terrestres em Marte, na Lua, na Alfa do Centauro - , onde quer que se fixe o homem pelos céus além, logo há de aparecer por lá uma corneta branca de Irmã de Caridade, a fundar um hospital para aborígines siderais, a alimentar e assistir orfãozinhos e desvalidos do planêta novo....

O blog manteve a grafia original

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Descobrindo os outros Ramos

Ricardo Ramos - imagem do Google
Em comunidade do Orkut, grupo de se reune para ler  livros dos descendentes de Graciliano Ramos. Ainda em formação,  os primeiros exemplares comprados e oferecidos são de Ricardo Ramos e Paulo Bullar  filho e bisneto do escritor alagoano e de D. Heloisa Ramos
 Ricardo Ramos nasceu em Palmeira dos Índios, em 1929, ano em que o pai Graciliano Ramos exercia a função de prefeito. Formado em Direito, destacou-se como homem da propaganda, professor de comunicação, jornalista e escritor em São Paulo. Faleceu em 1992.

Paullo Bular - imagem do Google

  
Paulo Bullar, pseudônimo de Fábio Amado Rozendo Pinto  é filho de Fernanda Amado que por sua vez é filha de Luiza de Medeiros Ramos Amado.(Filha de Graciliano Ramos e casada com James, irmão de Jorge Amado). Paulo Bullar nasceu em 1980.


Até o momento o grupo do Orkut dispõe dos livros:

As Fúrias Invisíveis, Ricardo Ramos (filho de Graciliano Ramos)- Tânia oferece
Os amantes Iluminados, Ricardo Ramos - Regina oferece 
Desculpe, falha nossa, Ricardo Ramos - Regina oferece 
Matar um homem, Ricardo Ramos - Regina oferece
A palavra é: mistério,org. por Ricardo Ramos - Regina oferece 
Humus, Paulo Bullar(bisneto de Graciliano) - Amanda oferece


Estação Primeira , Ricardo Ramos - Rosa oferece


Toada para surdos, Ricardo Ramos - Rosa oferece.


Memória de Setembro,Ricardo Ramos - Marli oferece.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Fliporto - terça-feira 15. Último dia

Congresso literário

10h – Painel 16: Vamireh Chacon, José Carlos Venâncio e Angel Espina, com mediação de João Cezar de Castro Rocha:“Lusotropicalismo é ciência ou literatura?”.
11h30 – Painel 17: Cyril Pedrosa, Walther Moreira Santos e Frederico Barbosa, com mediação de Manuel da Costa Pinto:“Imagem, palavra, impacto: poesia, prosa de ficção e HQ”.
14h – Painel 18: José Roberto Teixeira Leite, Jacinto Rego de Almeida e Manuel da Costa Pinto, com mediação de Samuel León:“Literatura, história e imaginação – o vivido, o fictício e suas fissões”.
16h – Painel 19: Sonia Sales, Alice Ruiz e Raimundo Gadelha, com mediação de Marcelo Pereira:“O Oriente é aqui: formas e inspirações do Japão e da China na poesia brasileira”.
17h30 - Painel 20: Raul Lody, Fátima Quintas e João Cezar de Castro Rocha, com mediação de Cristiano Ramos:“Gilberto Freyre lido com paixão: as raízes das admirações e rivalidades literárias”

20h - Encerramento: João Signorelli:“Gandhi – um líder servidor”
Fliporto criança
Tenda Principal
  • 9h – Programa ao Vivo da Rádio Comunitária do Amparo – Parlendas
  • 10h – Papo com Autor – Paulo Caldas e Rosângela Lima
  • 11h – “Histórias de Malba Tahan” - (FOCCA))
  • 14h – Se ilustra com… – Nanquim (Cleto Campos)
  • 15h – Para gostar de ler – Elita Ferreira (CCLF)
  • 16h – Contos Modernos – (CCLF)
  • 17h – Papo com o Autor – Lygia Boudoux e Carlos Mourão (lançamento de livro)
  • 18h – Diálogos Fliporto – Retrospectiva e avaliação sintética do conteúdo apresentado ao longo do dia e conclusões do evento.
  • 19h – Teatro e Literatura: Contação de Histórias (CPRH)
  • 20h – Ritmos do mundo – Brasil (Movimento Pró-Criança
Tenda Beremiz Samir – Oficinas
  • 9h – “Contos e Representações Matemáticas” – Profª Simone Melo – SEDO
  • 10h – “Jogos na Educação Matemática” – Profª Neilza Silva – SEDO
  • 11h – “Jogos na Educação Matemática” – Profª Neilza Silva – SEDO
  • 14h – “Jogando e Calculando com Material Dourado,Criando e Reciclando com Malba Tahan” – Profª Emanuelle Rêgo – SEDO
  • 15h – “Oficina de jogos” – Profª Geane Melo – SEDO
  • 16h – “Oficina de jogos” – Profª Geane Melo – SEDO
  • 17h – “Aprender Matemática Brincando”- Profª Maria Silva – SEDO
  • 18h – “Aprender Matemática Brincando” – Profª Maria Silva – SEDO
  • 19h – “Ensinando Matemática com Jogos em Sucata” – Profª Inajá Moura – SEDO
  • 20h – “Ensinando Matemática com Jogos em Sucata” – Profª Inajá Moura – SEDO
Tenda Scheherazade – Contação de histórias
  • 9h às 12h – Biblioteca Municipal de Tamandaré Profª Rivalda Necir do Nascimento – Tamandaré
  • 14h às 21h – Biblioteca Municipal de Tamandaré Profª Rivalda Necir do Nascimento – Tamandaré
Espaço interativo – Jogos
  • 16h às 19h – Jogos gigantes baseados no livro “O homem que calculava”
A carroça itinerante
  • 9h às 12h e 18h às 20h – “Uma linda carroça que circula por todo o parque e que, a cada parada, onde houver concentrações de público, realiza contação de histórias”
Lançamentos – Tenda Principal
17h – Carlos Mourão
Título: João, o menino do olhão
Prêmio Rachel de Queiroz de Literatura Infantil (CE)



Cine Fliporto

10h – Mostra Oriente
  • O Mahabharata – Parte I – O jogo dos dados – Direção: Peter Brook
12h – Mostra Oriente
  • O Mahabharata – Parte II – Exílio na floresta -Direção: Peter Brook
14h – Mostra Oriente
  • O Mahabharata – Parte III – Guerra – Direção: Peter Brook
16h – Mostra Tizuka Yamazaki
  • Gaijin, os Caminhos da Liberdade – Direção: Tizuka Yamazaki
18h – Mostra Gilberto Freyre
  • Guia Histórico, Prático e Sentimental da Cidade do Recife – Direção: Léo Falcão
19h30 – Audiovisual Gilberto Freyre e o Oriente
20h – Mostra Guel Arraes
  • Lisbela e o Prisioneiro – Direção: Guel Arraes