segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Drummond é grande e cabe...

O Mundo é Grande
Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(No livro: Amar se aprende amando)

Dia D.

 
Neste blog tem Carlos Drummond de Andrade: Aqui, aqui, pode ser nessa lasanha também, ou no conto Solange, a namorada, e outras postagens anteriores.


Aniversariante do dia: Carlos Drumond de Andrade

Caricatura:www.william.com.br
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto 
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra:
A guerra come
A safra
de sua prória fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro
lado do sol.
8
Quem papa
 a pílula
poupa parto,papinhas
porém perde perúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a amazônia será povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
ser for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro vocativo
a Nossa senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana.
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No Festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O Censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!

Leia também: http://livroerrante.blogspot.com/2011/10/segunda-feira-poeticacarlos-drummond-de.html

Carlos Drummond de Andrade faria hoje 109 anos.

Segunda-feira poética:Carlos Drummond de Andrade

O Tempo passa? Não passa
Carlos Drummond de Andrade
 
O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz

Não há tempo consumido 
nem tempo de economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada
trancendem qualquer medida
além do  amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Outros Ramos....

Caricatura de Mendez, que eu rabisquei.
Irmã,Filhos, netos e bisnetos de Graciliano também são ou foram escritores, 


Marili Ramos(Irmã) (Nome verdadeiro: Maria Ramos de Oliveira)
Livros de contos:Histórias mal-arranjadas,Ficção e realidade.
Biografia:Graciliano Ramos


Ricardo Ramos (filho)
Livros de contos: Tempo de espera, Terno de Reis, Os Caminhos de Sta. Luzia,Os desertos, Rua Desfeita, Matar Um homem,Toada para Surdos,Circuito Fechado,Toada Para Surdos,Os Inventores Estão Vivos,O Sobrevivente,Os amantes Iluminados.

Romances:Memória de Setembro,As Férias Invisíveis

Ensaios:Do Reclame à comunicação,Contato Imediato com a Propaganda 
Juvenis:Desculpem a Nossa Falha, Pelo amor de Adriana,O Rapto de Sabino  
Memória:Graciliano: Retrato Fragmentado.

Clara de Medeiros Ramos(filha)
Livros:
Memória:Mestre Graciliano:confirmação humana de uma obra 
Infantis:A estrela pisca pisca,Zé da Verdade, A formigarra,Cadeia,Memórias da cachorra Baleia 
Elizabeth Ramos(Neta)
Livro: A Nave de Noé (infantil) com:Ricardo, Rogério,Beatriz e Fernanda (netos) Janaina e Inai (sobrinhas de Jorge Amado e primas de Elizabeth)Paloma e João Jorge (filhas de J.Amado) e Dora (neta de J.Amado)

Ricardo de Medeiros Ramos Filho (neto)
Livros Infantis:O computador sentimental,Sonho entre amigos,A Nave de Noé, Sobre o telhado das árvores,Vovô é um cometa, O Gato que Cantava de Galo.
Beatriz Ramos de Araujo Mesquita(Neta) A Nave de Noé

Fábio Amado Rozendo Pinto (bisneto) Escreveu sob pseudônimo:
Paulo Bullar o livro de contos: Homus

Graciliano Ramos, político como gostaríamos de ver.

O aniversário de Graciliano Ramos, coicidindo com mudanças em um ministério motivadas por suspeitas de desvios de verbas, me levam a publicar os relatórios administrativos enviados ao governo do  estado de Alagoas pelo autor, quando de sua gestão na prefeitura da cidade de Palmeira dos Índios.



Primeiro Relatório 

Graciliano Ramos
Relatório ao sr. governador Álvaro Paes

Receita – 96:924$985

No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68:850$000, atingiu 96:924$985.

E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores. (...)

Administração – 22:667$748

Figuram 7:034$558 despendidos com a cobrança das rendas, 3:518$000 com a fiscalização e 2:400$000 pagos a um funcionário aposentado. Tenho seis cobradores, dois fiscais e um secretário.

Todos são mal remunerados. (...)

Cemitério – 243$000

Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam.

Iluminação – 7:800$000

A prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá. (...)

Instrução – 2:886$180

Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. (...) Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.

Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. (...)

Miudezas

Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microscópio.

Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo município. (...)

Projetos

Tenho vários, de execução duvidosa. Poderei concorrer para o aumento da produção e, conseqüentemente, da arrecadação. (...) Iniciarei, se houver recursos, trabalhos urbanos. (...)

Empedrarei, se puder, algumas ruas.

Tenho também a idéia de iniciar a construção de açudes na zona sertaneja.

Mas para que semear promessas que não sei se darão frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me referia quando eles estiverem executados, se isto acontecer.

Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não realizar, o prejuízo não será grande.

O município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.

Hoje é dia de Ramos: Graciliano, o aniversariante (2)

  Pessimismo e romantismo em dois poemas de Graciliano Ramos:
G.R: caricatura de: Marcos Guilherme.



Céptico
Céptico
Quanto mais para o céu ergo o olhar compugido,
De tristeza repleto e de esperança vazio,
Mais encontro impiedoso,agitado e sombrio
Sempre o céu que me abte e me torna descrido.

É em vão que a crença busco,embalde fantasio
Meu passado sem névoa, um passado perdido...
Só sinto o coração pulsando colorido
Ao peso glacial de um cepticismo frio.


Tenho a cabeça em brasa e o pensamento enfermo.
A alma se me compunge e tudo é triste e ermo,
Nos arcanos sem fim de um peito esquelético.

Pesada treva envolve o meu olhar ardente,
E mais fico agitado e mais fico descrente
quanto mais para o céu ergo oe olhos céptico.

(Publicado em O Malho 1901)
Fonte:Coleção de Escritores Brasileiros.Antologia&estudos.
de: José Carlos Garbuglio,Alfredo Bosi,Valentim Facioli(e participações.Ed.Ática 1987

 Velhas Páginas - I

Maio varria o campo,enfeitava as florestasas,
Engrinaldava a serra e os montes perfumando,
Quando eu senti no peito as agudas arestas,
Deste amor insensato a minh'alma rasgando.

Em volta a Primavera, a sacudir o pando
Véu das ramagens, doida, a celebrar as festas
Doamor, descolorava o odorífico bando
De violetas grácis, de dálias e de giestas.

Eu te amei, tu me amaste, ambos nós loucamente:
-Eu mostrando o fervor de uma alma rude e austera,
-Tu, a ardência febril de um coração ardente.

E o nosso amor cresceu ao perpassar da calma
Estação, a caçar à luz da Primavera
o róseo despontar da Primavera d'alma.

(Publicado em O Malho entre 1901 e 1915)
Fonte:Coleção de Escritores Brasileiros.Antologia&estudos.
de: José Carlos Garbuglio,Alfredo Bosi,Valentim Facioli(e participações.Ed.Ática 1987

Hoje é dia de Ramos: Graciliano, o aniversariante(1)

G.R: caricatura de Borges
Dia de Ramos!  o aniversariante deste 27 de outubro é Graciliano de quem podemos encontrar facilmente incontáveis informações na internet. Por essa razão, o blog celebrará o escritor alagoano tentando postar   apenas materiais que levem a um Graciliano Ramos um pouco menos comum.  Correções, bem como sugestões, serão sempre muito bem vindas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quarta-feira é dia de: conto de Graciliano Ramos

Dois dedosGraciliano Ramos

                                                         Parte I

Dr. Silveira atravessou a ante-câmara e aproximou-se do reposteiro.O contínuo velho barrou-lhe a passagem, quis exigir cartão de visita, mas vendo-lhe o rosto, a mão que se agitava como afastando uma coisa importuna,curvou-se,entreabriu o pano verde e foi encolher-se num vão de janela:
    - Deve ser troço na política.
    Dr. Silveira entrou no gabinete do governador. Entrou de coração leve, como se pisasse em terreno conhecido, os braços alongados para um abraço. Um abraço, perfeitamente. O homem que ali estava fora vizinho dele, colega de escola primária, colega de liceu, amigo íntimo, unha e carne. A mulher de dr. Silveira tinha dito:
     - Visita sem jeito. Esqueça-se disso. Política!
     E ele respondera:
     - Que política! Eu me importo com política? É que fomos criados juntos. Assim, olhe.
     Juntava o médio e o indicador da mão direita, de modo que se conservassem em posição horizontal, movia-os ligeiramente. Nenhum dos dedos ultrapassava o outro.
     - Assim.
     Estirava o indicador e contraia o médio, para que ficassem do mesmo tamanho. Infelizmente não tinham ficado. Um deles estudara Direito, entrara em combinações, trepara,saíra governador; o outro, mais curto, era médico de arrabalde, com diminuta clientela e sem automóvel. Por isso a mulher dissera:
     - Não gosto de misturas. Visita sem jeito. Cada macaco no seu galho.
     - Que galho! retrucara dr. Silveira. Éramos dois irmãos. Estudávamos juntos, vivíamos juntos.Vou. Se não fosse, o homem havia de reparar. Um irmão.
     Escovara e vestira a roupa menos batida. Isso de roupa era tolice, mas afinal fazia uma eternidade que não via o amigo, o irmão, unha com carne.
     - Assim.
     Tomara um automóvel. Chegara ao palácio, onde nunca havia posto os pés, atravessara o hall, hesitando. O gabinete do governador seria à direita ou à esquerda? Perguntas cochichadas a funcionários carrancudos.
     O amigo, o irmão, havia sido reprovado em química vinte anos antes, enganchara-se no átomo. Agora dominava aquilo tudo, e o átomo era inútil.
     Informado por um guarda, dr. Silveira transpusera uns metros de corredor sombrio, entrara em antecâmara, chegara-se ao reposteiro, afastara o contínuo velho, que se encolhera num vão da janela:
     Deve ser troço.
     Bem. Dr. Silveira estava no gabinete, livre de incertezas e das informações daquelas caras antipáticas. Avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho lustroso e parou. Veio-lhe então a idéia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar. Pisando no paralelepípedo, caminhava direito. Mas ali, na madeira envernizada, a segurança desaparecia. Cócegas nas solas dos pés. Suor nas solas dos pés. Um escorrego - confissão de inferioridade.
     Aprumou-se, estendeu os olhos ao redor, e foi aí que notou o lugar onde se achava. No salão, fechado, o que lhe provocou a atenção foi a mesa de tamanho absurdo, entre cadeiras de altura absurda. Teve a impressão extravagante de que a mesa era maior que o salão. Nunca havia  entrado em gabinetes, mas acostumara-se a julgá-los pequenos. E o salão era enorme, cercado de vidros por um lado, de livros pelo outro. Aquilo tinha aparência de biblioteca pública.
     De relance percebeu uma fileira de volumes taludos, bem encadernados, e entristeceu. Devia ser um dicionário monstruoso, uma enciclopédia, qualquer coisa assim, para contos de réis. Engano: era simplesmente uma coleção de Diário Oficial. Mas isto produzia efeito extraordinário, e dr. Silveira imaginou ali grande soma de ciência. Deu um passo tímido no soalho, temendo escorregar de novo. Nenhuma segurança. Os braços, que se arqueavam para um abraço, caíram desajeitados ao longo do corpo meio corcunda.
     Desviando-se das prateleiras onde se enfileiravam as dezenas de volumes grossos, os olhos pregaram-se no chão e assustaram-se com o brilho excessivo das tábuas. Insensatez fazer o pavimento das casas assim lustroso e escorregadio. Arriscou algumas passadas, convencido de que o observavam e censuravam. Certamente havia ali pessoas, talvez pessoas conhecidas que ele se esquecera de cumprimentar. Notara apenas a mesa enorme,as cadeiras altas demais, as vidraças e os livros, especialmente a coleção encadernada a couro, com letras douradas nos lombos. Teve raiva da timidez que o amarrara, ergueu a cabeça e quis pisar firme. Um criança, um matuto, encabulado.
     Examinou a sala. Na extremidade da mesa, um homenzinho escrevendo. No momento em que dr.Silveira se certificava disto, a personagem soltou a pena, mostrou uns olhos empapuçados e deixou escapar um gesto de repugnância.Contrariado, sem dúvida,interrompido no trabalho maçador.
     Dr. Silveira arrependeu-se de não ter ouvido o conselho da mulher. Que entendia ela de política? Devia ter ido visitar os doentes do arrabalde.Estupidez aproximar-se de figurões.
     O movimento de repugnância do homem que escrevia na cabeça da mesa durara um segundo, transformara-se num sorriso de resignação. O antigo camarada tinha aquele sorriso, mas não tinha o gesto de aborrecimento nem os olhos empapuçados. Que mudança! E em pouco tempo.
     Na verdade fazia pouco tempo que eles estudavam juntos no quintal de Silveira pai, debaixo das mangueiras, deitados nas folhas secas. As meninas dançavam e cantavam. Uma tia do outro vinha vigiá-los, com óculos e um romance. Não vigiava nada, mas a presença dela, dos óculos e do romance era um hábito necessário. Parecia que aquilo tinha sido na véspera. A tia idosa, com o nariz em cima do livro; as meninas dançando e cantando; eles deitados nas folhas secas, decorando pontos.
     O companheiro fora reprovado em química. Rapaz inteligente, mas perturbara-se, atrapalhara-se no átomo. Chorara, jurara vingar-se do dr. Guedes, inimigo do pai dele. Injustiça, não valia pena estudar. Perseguição a um excelente aluno,bem-comportado, avesso a badernas. Dr.Guedes tinha feito canalhice. Para que servia o átomo a quem ia ser bacharel? Vinte anos. Em vinte anos o mundo dá muitas voltas, mas realmente parecia que aquilo acontecera na véspera.
     - Como a gente muda depressa!

                                               Dois dedos - conto de Graciliano Ramos
                                                                Parte II
     O antigo colega não tinha os olhos empapuçados nem o gesto de aborrecimento. Era um menino amável e risonho. Por isso ele o animara, consolara, citara exemplos de homens importantes que haviam sido reprovados. Tolice amofinar-se por causa de uma safadeza do Dr.Guedes.
     Vinte anos. Agora tudo era diferente. O salão enorme, a mesa enorme. Dr.Silveira estava numa extremidade da mesa e via na outra os olhos empapuçados que se fixavam nele, tranqüilos. O gesto de impaciência desaparecera, o sorriso desaparecera. O  que havia eram olhos cansados que não o reconheciam. Estaria transformado a ponto de não ser reconhecido? Devia estar. A calva, a corcunda, a palidez. Era outro, certamente. Moço ainda. Mas aquela vida agarrada aos defuntos e aos doentes inutilizava um homem. Velho. Ambos velhos.A calva,a corcunda, a palidez; os olhos empapuçados,frios,indiferentes. Se encontrasse o amigo na rua, passaria distraído, com o pensamento no hospital, no necrotério, na mesa de operações.Passaria distraído,lembrando-se de uma artéria que havia sido cortada. Essas coisas tinham grande importância para ele e nada significavam para o homem que escrevia, alí a alguns metros.Que estaria escrevendo? Telegrama ao ministro do Interior, ao ministro da Agricultura.Dr.Silveira não saberia redigir telegramas a esses ministros. Podia ser que aquilo fosse apenas um desses cartões vagabundos.
     Avançou um passo para contornar a mesa e chegar-se ao homem pelo lado direito; recuou, avançou pelo lado esquerdo - e permaneceu no mesmo lugar. Uma indecisão estúpida. Suor nas mãos, suor nas solas dos pés.Felizmente a mesa estava sobre um tapete e não havia o receio de escorregar. Podia aproximar-se andando com segurança, mas  os olhos empapuçados, a mão esmorecida no papel, uma interrogação no rosto parado, davam-lhe vergonha e tremuras.     Quis retroceder, abandonar a sala triste e silenciosa; olhou para trás, encontrou os volumes do Diário Oficial, terríveis,com letras douradas nos lombos de couro. Não conseguiria adquirir uma coleção assim rica, mesmo a prestações. Que fazia num salão que tinha livros tão ricos? Queria voltar, atravessar o espaço que separava a porta, levantar o reposteiro,fugir do contínuo,do guarda, alcançar a rua. Mas ninguém entra numa sala para sair correndo como doido.Difícil escapulir-se,deixar os olhos empapuçados que tentavam reconhecê-lo. Estava cheio de constrangimento e notava que produzia constrangimento a um desconhecido perturbado no seu trabalho: telegrama a ministro ou cartão a prefeito do interior. Este trabalho estranho confundia-o.Difícil escrever o cartão ao prefeito.
     Compreendeu que havia procedido mal não dando cartão de visita ao contínuo.Cultivavam ali uma etiqueta, costumes bestas que ele ignorava e não procurara conhecer, porque do outro lado do reposteiro se achava um homem que fora para ele unha e carne. Dois dedos, assim, juntos movendo-se no mesmo nível e quase do mesmo comprimento. A mulher não  acreditara na história dos dedos e aconselhara-o a ficar em casa, de pijama, lendo revistas de medicina. Revistas, naturalmente: impossível obter volumes grossos e  como aqueles encadernados a couro, com letras douradas no dorso.
     Uma criatura inferior...Sem dúvida, inferior. Não avançava nem recuava. Iria aproximar-se pela direita ou pela esquerda?
     Os pontos do liceu eram cacetes. À noite Silveira pai interrogava-os em geografia e história, queria saber se eles aproveitavam o tempo. As meninas dançavam e cantavam, fazendo rodas. Onde estariam elas? Longe, casadas, mortas, diferentes, outras criaturas que não dançavam nem cantavam.
     O antigo companheiro também era outro, um dedo amputado. Dr.Silveira desejava apenas aproximar-se, dizer algumas palavras. As palavras, estudadas, sumiam-se. Como se chegaria? Pela direita ou pela esquerda? Era melhor fugir, sair do tapete, pisar no soalho lustroso, arriscar-se a escorregar novamente. Suava. Impossível evitar os olhos que não o reconheciam.
     Agora tinha medo de que o homem supusesse que ele ia chorar, pedir emprego. Não ia. Imaginava fazer o gesto de virar os bolsos ao avesso, mostrar que não precisava mendigar os cobres mesquinhos do imposto.Vivia satisfeito.Visitava doentes pobres, trabalhava no hospital, assinava as revistas indispensáveis. Tanqüilo. Não ia pedir. Nenhuma ambição, poucas necessidades.Queria abraçar o amigo, felicitá-lo, conversar uns minutos, lembrar dos tempos velhos, os pontos decorados sob as mangueiras, as meninas, a senhora idosa. Não ia pedir. A roupa estava realmente safada, os sapatos cambavam. E a corcunda, a palidez, a magreza, o modo encolhido. Mas tinha os doentes do arrabalde, que só acreditavam nele, o hospital, que dava ordenado magro e trabalho excessivo, a mulher econômica. Sentiria se o privassem do hospital. Muitos casos interessantes.
     Uma visita de cortesia. A roupa era de mendigo. Não tinha pensado na roupa antes de sair de casa. A gola suja, a gravata enrolada como corda. Desleixado. Nunca prestava atenção à mulher, que o importunava diariamente:
     - "Feche esse paletó".Não fechava. E arrependia-se, ali na ponta da mesa, mostrando a camisa, que entufava na barriga.
     O homem dos olhos empapuçados julgava-o um pulha, um pedinte de emprego, uma dessas criaturas que aparecem nas audiências públicas e levam cartas de recomendação. Por isso estava com o rosto parado, pronto a murmurar uma recusa seca,defendendo o osso roído. Dr.silveira não precisava do osso. Queria conversar uns minutos, lembrar o tempo do liceu, a senhora velha que lia o romance, as meninas, os pontos,o átomo, as amolações de Silveira pai. Impossível falar sobre essas coisas. Tinham sido dois dedos, assim, mas estavam separados. Como vencer a separação, a mesa enorme que se interpunha entre eles, rodeada de cadeiras altas? Iria pela direita ou pela esquerda? Dr.Silveira afastava-se para um lado, afastava-se para o outro lado,e permanecia no mesmo lugar. O homem dos olhos empapuçados não o reconhecia. Reconhecia-o.Talvez não reconhecesse. Um antigo condiscípulo, um sujeito encontrado em qualquer parte. Amigo, certamente desses que a gente saúda com indiferença: - Olá! "Como vai?" Procurava lembrar-se do nome do Dr.Silveira. Colega da escola primária, de liceu ou de academia. Tentava recordar-se, a pena suspensa, o telegrama interrompido. Visita importuna, tempo perdido.
     - Esses tipos têm as horas contadas, tantos minutos para isto, tantos para aquilo. Não se ocupam em conversas fiadas.
     - Negócios sérios, públicos. Dr.Silveira sentia-se amarrado, preso ao tapete, junto a uma cadeira alta que tinha águia sobre o espaldar. As encadernações não lhe saiam da cabeça. Muitos livros, aparência de biblioteca. Volumes grossos, com letras douradas nos lombos.
     Recordações tão minguadas! A senhora velha folheando o romance, as crianças dançando e cantando, as mangueiras, os dois ouvindo as explicações de Silveira pai. Ele e aquele indivíduo que se aborrecia a alguns metros de distância, a pena suspensa, o telegrama interrompido, uma interrogação vaga nos olhos empapuçados: "Olá! Como vai?"
     Estupidez lembrar-se do passado inútil. A mulher tinha razão. Acabar depressas com aquilo, voltar ao subúrbio, vestir pijama, calçar chinelos, ler as revistas indispensáveis.
     Avançou. Não sabia se avançava pela direita ou pela esquerda. Completamente atordoado. Acabar  depressa com aquilo. A mulher tinha razão.
     - Olá! Como vai? perguntou o homem de olhos empapuçados.
     Dr. Silveira sentou-se numa cadeira alta demais, começou a gaguejar. Cadeiras tão altas!Esfregou as mãos. E pediu o emprego.Uma sinecura, um gancho na Saúde Pública. Não se referiu aos acontecimentos antigos. Necessidade, pobreza, tempos duros. Esfregava as mãos, encabulado, mostrando a esmeralda. Um emprego na Saúde Pública.
     Está bem, disse lentamente o homem de olhos empapuçados. Vamos ver. Apareça.
     E encostou a pena ao papel, manifestou a intenção de continuar  o telegrama.

(Col Escritores Brasileiros:Graciliano RamosJosé Carlos Garbuglio,Alfredo Bosi e Valentim Facioli - Ed Ática 1987)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Meu Ziraldo favorito(1) O Menino Maluquinho

Era uma vez um menino maluquinho

Ele tinha o olho maior que a barriga
tinha fogo no rabo
tinha vento nos pés


umas pernas enormes
(que davam para abraçar o mundo)
e macaquinhos no sótão
(embora nem soubesse o que
significava macaquinhos no sótão).
Ele era um menino impossível!


A melhor coisa do mundo
na casa do menino maluquinho
era quando ele voltava da escola
A pasta e os livros
chegavam sempre primeiro
voando na frente
Um dia no fim de ano
o menino maluquinho
chegou em casa com uma bomba:
"Mamãe, tou aí com uma bomba!"
"Meu neto é um subversivo!"
gritou o avô.
"Ele vai matar o gato!"
gritou a avó.
"Tira esse negócio daí!"
falou - de novo - a babá.


Mas aí o menino explicou:
"A bomba já explodiu, gente.
Lá no colégio."
"Esse menino é maluquinho!"
falou o pai, aliviado."
E foi conferir o boletim
Esse susto não era nada
tinha outros que ele pregava.
Às vezes
sem qualquer ordem
do papai e da mamãe
se trancava lá no quarto
e estudava e estudava
e voltava do colégio
com as provas terminadas
tinha dez no boletim
que não acabava mais

E ele dizia aos pais
cheio de
contentamento:
"Só tem um zerinho aí.
Num tal de
comportamento!"
A pipa que
o menino maluquinho soltava
era a mais maluca de todas
rabeava lá no céu
rodopiava adoidado
caía de ponta cabeça
dava tranco e cabeçada
e sua linha cortava
mais que o afiado cerol.
E a pipa
quem fazia
era mesmo o menininho
pois ele havia aprendido
a amarrar linha e taquara
a colar papel de seda
e fazer com polvilho
o grude para colar
a pipa triangular
como o papai
lhe ensinara
do jeito que havia
aprendido
com o pai
e o pai do pai
do papai.


Era preciso ver
o menino maluquinho
na casa da vovó!
Ele deitava
e rolava
pintava e bordava
e se empanturrava
de bolo e cocada
E ria
com a boca cheia
e dormia
cansado
no colo da vovó
suspirando de
alegria
E a vovó dizia:
"Esse meu neto
é tão maluquinho"
O menino maluquinho
tinha
dez namoradas!
Ele era
um namorado
formidável
que desenhava
corações
nos troncos
das árvores
e fazia versinhos
e fazia canções.
E se escalavrava
nos paralelepípedos
e rasgava os fundilhos
no arame da cerca
e tinha tanto esparadrapo
nas canelas
e nos cotovelos
e tanta bandagem
na volta das férias
que todo ano ganhava
dos colegas
no colégio
o apelido de Múmia
E chorava escondido
se tinha tristezas


O menino maluquinho
tinha lá os seus segredos
e nunca ninguém sabia
os segredos que ele tinha
(pois segredo é justo assim).
Tinha uns mais segredáveis
E outros
que eram
menos.
O menino maluquinho
jogava futebol.
E toda a turma
ficava esperando
ele chegar
pra começar o jogo.
É que o time
era cheio de craques
e ninguém queria
ficar no gol.
Só o menino maluquinho
que dizia sempre:
"Deixa comigo!"
E ia rindo pro gol
para o jogo começar.
E o menino maluquinho
voava na bola
e caía de lado
e caía de frente
e caía de pernas pro ar
e caía de bunda no chão
E a torcida ria
e gostava de ver
a alegria daquele goleiro.
E todos diziam:
"Que goleiro maluquinho!"
E aí, o tempo passou.
E, como todo mundo,
o menino maluquinho cresceu.
Cresceu
e virou um cara legal!
Aliás,
virou o cara mais legal
do mundo!
Mas, um cara legal, mesmo!
E foi aí que
todo mundo descobriu
que ele
não tinha sido
um
menino
maluquinho
ele tinha sido era um menino feliz!

Ziraldo Alves Pinto, ou simplesmente Zilaldo como foi chamado na minha casa,  fez 79 anos absolutamente aprovado como desenhista, ilustrador, escritor,cartunista.... O autor está presente na memória de várias gerações mesmo as anteriores a seu clássico O Menino Maluquinho (1980). Faço postagem de apenas 2 livros dele, porque pedi apenas 1 preferido a cada um de meus filhos. O Menino Maluquinho, é escolha de Suzana Valença, que foi uma menina feliz e também, como o personagem, tornou-se uma pessoa legal, muito legal.


Leia também: Meu Ziraldo favorito (2) : O Joelho Juvenal clicando aqui.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Meu Ziraldo favorito (2): O Joelho Juvenal,

Era uma vez um joelho que se chamava Juvenal.
Juvenal tinha um problema, coitado: vivia todo escalavrado.
Também, quem mandou o Juvenal ser o joelho de um menino levado?
Juvenal queria muito aprender língua de menino só pra dizer assim: “Menino, tem dó de mim!”Mas, quando o esfolado sarava, Juvenal bem que gostava de correr e de saltar.E ele se desdobrava e se dobrava outra vez todo alegre, pois sabia que, indo e vindo, fazia o menino feliz.E ficava muito atento conversando com o pé (pois o pé e o joelho se falam).– Cuidado aí, companheiro! Pode ser que no meio do caminho tenha uma pedra, tenha uma pedra no caminho...... e aí você tropeça e quem vai sofrer sou eu.Mas, não adiantava nada! O pé sempre tropeçava e lá ia o Juvenal outra vez pra enfermaria!O Juvenal era muito religioso! Mas, tinha um probleminha com a Semana Santa (que vinha logo depois das férias).
Imaginem O Juvenal em que estado estava quando as férias acabavam!
Aí vinha a Semana Santa... E o Juvenal, coitado, todo cheio de esfolados, tendo tanto pra rezar!Mesmo assim, o Juvenal gostava muito da vida, do vento ventando nele, quando o menino corria, todo feliz, pelo mundo.E Juvenal adorava quando a água lhe batia até onde ele se achava para ver se a água dava pé.Assim como o pé e a canela ele também pensava: “É o fino ser mergulhador submarino”.Um dia, tudo ficou escuro para o Juvenal. E aí, ele descobriu que o menino tinha crescido.E agora, em vez de short, calção ou calcinha curta, usava calça comprida.Por isso, hoje, Juvenal tem um pedido a fazer aos fabricantes de calças.Que tal criar um modelo de calça, sob medida, que tenha dois buraquinhos pro Juvenal ver a vida?!




Este livro foi escolhido por Marcelo Valença que tinha joelhos Juvenal, escalavrados porém felizes e que tornou-se um cara legal como o Menino Maluquinho.

Leia também:Meu Ziraldo favorito(1):O Menino Maluquinho, clicando aqui

domingo, 23 de outubro de 2011

Segunda-feira poética: Orgia da Inocência, Ivan Santtana

Orgia da Inocência
Ivan Santtana
Jasmineiro.       Imagem: Regina Porto
Borboletas
Meretrizes
Fazem programa
No jardim

Tão promíscuos,
Os beija-flores
Beijam rosas,
Beijam dálias,
Beijam jasmins.

Todo dia é assim:
Uma orgia de inocência
No meu jardim.



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sábado, 22 de outubro de 2011

Crônica cantada(infantil) Toquinho,Sandy & Júnior



Era Uma Vez
(Toquinho)

Era uma vez
Um lugarzinho no meio do nada
Com sabor de chocolate
E cheiro de terra molhada...
Era uma vez
A riqueza contra
A simplicidade
Uma mostrando prá outra
Quem dava mais felicidade...
Prá gente ser feliz
Tem que cultivar
As nossas amizades
Os amigos de verdade
Prá gente ser feliz
Tem que mergulhar
Na própria fantasia
Na nossa liberdade...
Uma história de amor
De aventura e de magia
Só tem a ver
Quem já foi criança um dia...
Era uma vez
Um lugarzinho no meio do nada
Com sabor de chocolate
E cheiro de terra molhada...
Era uma vez
A riqueza contra
A simplicidade
Uma mostrando prá outra
Quem dava mais felicidade...
Prá gente ser feliz
Tem que cultivar
As nossas amizades
Os amigos de verdade
Prá gente ser feliz
Tem que mergulhar
Na própria fantasia
Na nossa liberdade...
Uma história de amor
De aventura e de magia
Só tem a ver
Quem já foi criança um dia...



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Top 100: vamos comemorar

Amigos, 

Livro Errante está classificado entre os 100 mais votados categoria literatura.  Ficar entre os Top100
nos deixa felizes porque foi nossa primeira participação. Estamos em festa e compartilhamos com todos os que passaram por nossas páginas dando ou não o seu voto. Agradecemos  também o seu apoio.
Abraço a todos,
L.E



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Mudança

Amigos,



O blog está mudando e preciso da colaboração de vocês que vieram aqui durante esses anos. Por favor digam, sem reservas,o que  esperam encontrar  no blog e o que  não gosta também.  Quem  quiser pode escrever diretamente para mim através do email que consta  lá  no meu perfil.  
Vou considerar todas as opiniões e agradeço desde já.

Abraço.