sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Bienal de Pernambuco - eu fui e volto amanhã


Sem carro e morando longe só o prazer de estar cercada de livros justifica tomar ônibus lotado  ir até o outro lado da cidade pra ver a Bienal.  Afinal, dá para comprar montão de livros pela internet.  Mas vale a pena.
Me sinto extremamente bem no ambiente. Além dos livros algo me deixa sinceramente feliz: ver as crianças. Elas fazem uma festa! Aqueles rostinhos encantados, os maiores correm eufóricos perdidos nas novidades. E são muitas.  Dá gosto de ver, grupos de alunos em cima de alguns livros, assediando vendedores, enlouquecendo professoras, enfileirados nos caixas...  vou voltar amanhã. Hoje fotografei e precisava voltar logo.
Para quem ainda não foi, aviso que tem muita promoção mesmo para quem não é professor.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Poço da Panela, quem tem?

O Poço da Panela, poema de Olegário Mariano, está em um dos volumes do livro "Toda Uma Vida de Poesia".


Alguém poderia me enviar esse poema, por favor?   Não serve informação de site, por isso peço a alguém que possua o livro.  Agradeço desde já a gentileza.

abraço,
Regina

Algum tempo depois de fazer esse pedido, ganhei o livro.Para ler o poema  procurado, clique aqui

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Bicicloteca Roubada

 Em julho este blog postou a história bonita da Bicicloteca: iniciativa do Sr.Mendonça que empresta livros gratuitamente a moradores de rua na cidade de São Paulo. Agora, recebo de Tânia as notícias veiculadas nos jornais da cidade de que a Bicicloteca foi roubada, justamente pelas pessoas que o sr. Mendonça ajudava.
Não tendo como conter minha indignação, deixo abaixo os links a respeito do fato. Veja também como você poderá ajudar a refazer tão belo trabalho.
 
(clique na imagem)


Crônica nossa de cada dia: Fernando Sabino, A Última Crônica

     
A Última Crônica 
     A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

     Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

     Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

     São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

     Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Segunda-feira poética: Frederico García Lorca, Gazel do Amor Imprevisto



Gazel do Amor Imprevisto 

O perfume ninguém compreendia
da escura magnólia de teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
entre os dentes um colibri de amor.

Mil pequenos cavalos persas dormem
na praça com luar de tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites,
inimiga da neve, a tua cinta.

Entre gesso e jasmins, o teu olhar
era um pálido ramo de sementes.
Procurei para dar-te, no meu peito,
as letras de marfim que dizem sempre,

sempre, sempre; jardim em que agonizo,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue arterial em minha boca,
tua boca já sem luz para esta morte.

Federico García Lorca, in 'Divã do Tamarit'
Tradução de Oscar Mendes

Desenho de Garcia Lorca, 1936
 

Acabei de aprender:

Gazel - Do árabe(gasal;ghazal;ghazel) significa: requebro,galanteio. Poesia erótica. Poesia amorosa dos persas e árabes,composta de no máximo 15 dísticos. Rimam os versos do primeiro dístico entre si e com o segundo verso de cada um dos outros. O poeta persa Hafiz (sec.XIV) é o mais famoso autor do gênero.
Originalmente acompanhada por música, hoje é apenas recitada e tem como ponto forte o lirismo. Ainda é muito comum na Índia e no Paquistão.

sábado, 24 de setembro de 2011

Crônica cantada:Vanusa - Comunicação

Festival da Música Popular Brasileira, TV Record ano 1969. Vencedores: 1ºlugar: Sinal Fechado - Paulinho da Viola - 2ºlugar: Clarisse, de Eneida interpretada por Agnaldo Rayol e 3ºlugar: Comunicação de Edinho e Hélio Matheus, interpretada por Vanusa.  A TV Record não voltou a fazer festivais de música.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Primavera, Cecília Meireles




Primavera
Cecília Meireles
  A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.



Imagem:Vaso com margaridas e anêmonas, Van Gogh (óleo sobre tela 1887)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Prêmio Jabuti 2011 finalistas: Crônica, Conto, Infantil e Romance

Finalistas, categoria: Crônica e Conto
1º      DESGRACIDA     RECORD     DALTON TREVISAN
2º      A PEDAGOGIA DOS CARACÓIS     VERUS EDITORA     RUBEM ALVES
3º      A VIDA É UM SHOW     GLOBAL EDITORA     GUGA DE OLIVEIRA
4º      FICÇÃO INTERROMPIDA - UMA CAIXA DE CURTAS     ATELIÊ EDITORIAL     DIÓGENES MOURA
5º      MEIO INTELECTUAL, MEIO DE ESQUERDA     EDITORA 34     ANTONIO PRATA
5º A PLACENTA E O CAIXÃO     LEYA BRASIL     DEONÍSIO DA SILVA
6º      O MAU VIDRACEIRO     EDITORA GLOBO     NUNO RAMOS
7º      A SORDIDEZ DAS PEQUENAS COISAS     NÃO EDITORA     ALESSANDRO GARCIA
8º      TRÊS DÚVIDAS     COMPANHIA DAS LETRAS     LEONARDO BRASILIENSE
9º      RETRATOS IMORAIS     EDITORA OBJETIVA     RONALDO CORREIA DE BRITO
10º      ANÔNIMOS     ROCCO     SILVIANO SAN

Finalistas:Categoria Infantil

1º      CONTROLE REMOTO     MANATI PRODUÇÕES EDITORIAIS LTDA.     TINO FREITAS
2º      COM MIL DIABOS!     COMPANHIA DAS LETRAS     ERNANI SSÓ
3º      OBAX     BRINQUE-BOOK EDITORA DE LIVROS LTDA     ANDRÉ NEVES
4º      NUVEM FELIZ     EDITORA 34     ALICE RUIZ
5º      FILOSOFIA BRINCANTE     RECORD     MARCIA TIBURI
6º      PSIQUÊ     COSAC NAIFY     ANGELA LAGO
6ºTELEFONE SEM FIO     COMPANHIA DAS LETRAS     ILAN BRENMAN E RENATO MARCONI
6ºA LUA DENTRO DO COCO     PROJETO     SÉRGIO CAPPARELLI
7º      ENDRIGO, O ESCAVADOR DE UMBIGO     EDITORA 34     VANESSA BARBARA
8º      COLEÇÃO DESMONTANDO     EDITORA FTD     RENATA BUENO
9º      QUEM SOLTOU O PUM?     COMPANHIA DAS LETRAS     BLANDINA FRANCO
10º      OLÍVIA TEM DOIS PAPAIS     COMPANHIA DAS LETRAS     MÁRCIA LEITE

Finalistas:Categoria Romance
1º      PAISAGEM COM DROMEDÁRIO     COMPANHIA DAS LETRAS     CAROLA SAAVEDRA
2º      RIBAMAR     BERTRAND BRASIL     JOSÉ CASTELLO
3º      O EVANGELHO DE BARRABÁS     EDITORA OBJETIVA     JOSÉ ROBERTO TORERO E MARCUS AURELIUS PIMENTA
4º      PASSAGEIRO DO FIM DO DIA     COMPANHIA DAS LETRAS     RUBENS FIGUEIREDO
 4º DON FRUTOS     EDIÇÕES ARDOTEMPO     ALDYR GARCIA SCHLEE
5º      HOTEL BRASIL: O MISTÉRIO DAS CABEÇAS DEGOLADAS     ROCCO     FREI BETTO
6º      MINHA MÃE SE MATOU SEM DIZER ADEUS     RECORD     EVANDRO AFFONSO FERREIRA
7º      CIDADE LIVRE     RECORD     JOÃO ALMINO
8º      HOTÉIS À BEIRA DA NOITE     TESSITURA EDITORA     PER JOHNS
9º      SUPOSTA BIOGRAFIA DO POETA DA MORTE     EDITORA DA UCG     ELIAS ANTUNES
10º      OS MALAQUIAS     LÍNGUA GERAL     ANDRÉA DEL FUEGO











































       

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Crônica nossa de cada dia... Xico Sá


Troque o Celular Por Uma Galinha Gorda - Xico Sá 

     O glorioso inventor da ansiedade, Alexander Graham Bell(1847-1922),deve se arrepender até hoje da sua patente telefônica. (Como Santos Dumont, dândi brasileiro em Paris, que maldisse do seu próprio brinquedo ao vê-lo nos céus da guerra).Nestes tempos em que celular virou brinco, eternamente colado às "oiças" de madames, de moçoilas, de executivos e de modernos em geral, uma reflexão recente de dona Maria do Socorro, brava sertaneja, mãe deste que vos berra, vem como pílula mais do que apropriada: "Conheci teu pai, namorei, casei, engravidei de todos vocês, criei minha família, cuidei de tudo direitinho, graças a Deus não morreu nenhum... E nunca precisei dar ou receber um telefonema, nem unzinho mesmo!".
     Mulher do sertão, que só pegou em um telefone depois dos 50 anos, anda revoltada com parentes e amigas que vivem grudados ao celular. "Tá todo mundo de pescoço torto, cabeça decaída para um lado, parecendo frei Damião, por causa dessa moda nova. Ora, voltem a pôr as cadeiras nas calçadas, na frente das casas, e vão conversar sem o diacho desses aparelhos."
     A máxima aceleração de ansiedade à qual dona Socorro submeteu os seus batimentos cardíacos foram os berros do carteiro.
     A lamúria da falta do telefonema do dia seguinte, protesto do novo código do bom-tom das moças, também é situação nunca dantes vivida. Sem a invenção do velho Graham Bell, o dia seguinte nascia sob aurora mais sossegada.
     Antigamente, tudo dependia mesmo da dramaturgia do encontro. A onipresença amorosa e/ou comercial instaurada com o celular não era coisa deste mundo. Uma carta, no máximo, poderia ser uma estratégia, garrafa atirada ao mar de tantas Penélopes.
     Um recado pelo rádio também valia, mas para casos de sumiços de verdade -cheguei a ser sub do sub-redator de programa do gênero, comandado pelo locutor Gevan Siqueira, na rádio Vale do Cariri, em Juazeiro, com recados amorosos e novelinhas à moda de "Tia Júlia e o Escrevinhador", de Vargas Llosa.
     Deixemos de ser plantonistas do mundo. No amor, assim como nos negócios, não somos tão importantes a ponto de alimentar essa onipresença digital. Casanova amou centenas de mulheres sem precisar de um telefonema sequer.
     No mundo dos negócios, muita gente também fez fortuna sem telefone, acreditando apenas no olho do dono como engorda caixa da bodega.
     Quer jogar conversa fora, faça como a velha recomendação de um Jeca Tatu: "Mate uma galinha gorda no domingo e me convide para comer".

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Arrasando na terceira idade: Angústia,Graciliano Ramos (1)

Edição especial marca comemorações pelos 75 anos de Angústia, de Graciliano Ramos

    Para comemorar os 75 anos da primeira edição de Angústia, de Graciliano Ramos, a editora Record lança na próxima semana uma edição especial do romance e abre um ciclo de debates que percorrerá cinco capitais do país. O primeiro evento ocorrerá na Universidade de São Paulo (USP), na terça-feira (20), e será aberto com um depoimento do escritor, professor, ensaísta e crítico literário Antônio Cândido.
    O simpósio "Graciliano Ramos - 75 anos de Angústia"  levará ao público uma visão multifacetada sobre esta grande obra da literatura brasileira, publicada pela primeira vez em 1936 quando Graciliano estava preso. Participarão dos debates os professores Elisabeth Ramos (neta de Graciliano) Erwin Torralbo Gimenez, Hermenegildo Bastos, Wander de Melo Miranda e Belmira Rita da Costa Magalhães, todos especialistas na obra do escritor alagoano.
    Após a capital paulista, o simpósio acontecerá em outras quatro cidades: Brasília (22/9), Salvador (04/10), Maceió (06/10) e Belo Horizonte (26/10). Nesta última, o ciclo será encerrado com a exposição "Graciliano - 75 anos de Angústia" , no Saguão da Reitoria da UFMG, onde serão exibidos documentos, textos e objetos do autor.
    A edição comemorativa de Angústia é organizada por Elizabeth Ramos e conta com posfácios de Otto Maria Carpeaux e Silviano Santigo, além de fortuna crítica e um texto de apresentação de Elizabeth Ramos. "Angústia constrói, através de uma galeria de personagens e da decadência do espaço e do ambiente, uma análise das infinitas roupagens de que se reveste a miséria humana", resume a professora sobre o terceiro romance do avô.
    Escrito em ambiente de desassossego e intrigas, em plena repressão do governo Getúlio Vargas, Angústia reflete o desconforto do autor com a situação de insegurança em que vivia. "Falta-me tranqulidade, falta-me inocência, estou feito um molambo que a cidade puiu demais e sujou", pensa o narrador. Graciliano foi levado preso pouco depois de revisar as últimas páginas do livro
.
(Do site da ed. Record: http://www.record.com.br/novidades_cada.asp?id_novidade=771)



(Agradeço a colaboração do internauta que identificou-se  como T)

Arrasando na terceira idade: Angústia, Graciliano Ramos (2)

Angústia - Graciliano Ramos 

Angústia, capa da 1ªed. 1936
Ano de lançamento 1936

Haviam desencadeado uma perseguição feroz. Tudo se desarticulava, sombrio pessimismo anuviava as almas, tínhamos a impressão de viver numa bárbara colônia alemã. Pior: numa colônia italiana -  
Trecho do livro Memórias do Cárcere. Refere-se aos Nazismo e Fascismo regimes que tanto encantavam Getúlio Vargas. Foi nessa época, e por ordem do então ditador brasileiro, que Graciliano Ramos escreveu Angústia, seu terceiro romance.  Poucas horas depois de terminar o livro, Graciliano Ramos foi preso em Maceio, sob a alegação, jamais comprovada,  de que havia conspirado no levante comunista de 1935.   Mas vamos ao livro:  Angustia foi lançado em agosto de 1936. Como toda a obra de Graciliano Ramos, leitura obrigatória até os dias atuais. 
Angústia é narrado na primeira pessoa. Luis da Silva, sufocado pela solidão, busca de sentido para a vida, falta de motivação narra no presente e no passado. O personagem é um funcionário público pobre que mora em condições desumanas na periferia de uma cidade pobre. Angústia, termina com personagem derrotado pela humilhação sistemática que lhe confere a pobreza de sua vida.   Luis da Silva assassina, em Julião, o que lhe angustia por toda a vida.  

Leia mais:
http://www.mundovestibular.com.br/articles/2494/1/ANGUSTIA---Graciliano-Ramos-Resumo/Paacutegina1.html

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/graciliano-ramos/angustia-resumo.php

(Agradeço a colaboração do(a) internauta que identificou-se apenas como T)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Comemoração

Este blog comemora 10 semanas consecutivas entre os mais votados no TopBlog de 2011.


Sua participação foi  fundamental e nós agradecemos.


Você que chegou agora, junte-se a nós e dê seu voto. É simples: basta clicar no selo TopBlog no alto e à direita da página.   Vamos continuar juntos?? 


Segunda-feira poética: Concepção e Parto de Uma Poesia - Laércio Lins

Concepção e Parto de Uma Poesia


Laércio Lins
 
A transformar preto e branco em cores, é assim à primeira vista.
A transformar pensamentos em palavras, são assim os primeiros sons e as primeiras linhas.
A transformar o silêncio em linguagem, feito mímica, surge a voz do olhar e do pensamento.
A transformar passos em caminhos, é assim a primeira viagem. Um enorme trem de histórias.
Surge fadas, gaivotas, esculturas e um universo imaginário.
Surge templos, naves, deuses e demônios, céus e infernos.
Surge estrelas, pedras e luzes, muitas luzes.
Luzes que fazem brilhar a língua lusitana, revelando formas, desenhando pés, bocas e mãos.
Nasce assim a primeira frase. Frágil e tímida, delicada e clara.
Surge assim um grande amor,
surge assim, poesia,
surgiu assim, quase tudo.
A lapidar pedras brutas, ostras e pérolas a batizar em água e sal o próprio destino, o próprio rumo.

Contemplação à poesia que em forma de mulher se recita, ressuscita, surge e ressurge.
Montada em um cavalo alado sobrevoa montanhas, pântanos, colinas e castelos.
Ora flor, ora luz, ora mar, ora ar.
Lindos pés, alicerces na construção de um texto, sustentação de uma obra de arte.
Imagens. Lágrimas, risos e aplausos. Fantástico cenário imaginário, fantástico mundo imaginário, tanto quanto real.
A busca pela perfeição torna possível o impossível.
Beber o néctar das flores, beber na fonte da vida a água da fonte divina.
Entre sentimentos, entre fragmentos de alegria ou de dor nasce o texto, explodido, sem regras.
Entre estilhaços surge a palavra, a estrofe, o verso, a rima, como um amanhecer.
Concebido e expelido como num parto, erguido como um troféu pelas mãos do poeta, moldado e esculpido como uma escultura do centro da praça de uma cidade imaginária, minha cidade imaginária, que se alimenta e vive nas páginas de seu próprio encanto.
Encantos de beleza essencial e de complementos.
Encontro entre o concreto e a abstração, por que sentimento é preciso e não é exato.
Formas, cores, cheiros, silêncio e som ritmado, cadência do coração marcando a vida que segue.
Ostra e ao mesmo tempo Pérola.
Agora um silêncio, tudo é calmaria, uma leve brisa sopra o berço do próximo poema. Não muito distante, sons de violinos ensaiam a trilha sonora pra outras histórias.


Laércio Lins: administrador, palestrante, professor.
O texto acima foi retirado do blog:
www.aostraeaperola.blgospot.com

sábado, 17 de setembro de 2011

Crônica cantada:Sandy e Gilberto Gil Se Eu Quiser Falar Com Deus



Se Eu Quiser Falar Com Deus
Gilberto Gil

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Melhor Capa de Revista, Edição - 2011 Vencedora

Revista Crescer edição de março de 2011, foi a vencedora do concurso Melhor Capa de Revista do Ano,promovido pela Associação Nacional dos Editores de Revista - ANER.

Direção de arte: Roberta D´Albuquerque
Foto: Gustavo Lacerda
Produção: Fátima Santos
Tratamento de imagem: Paulo Cabral
Modelos: Priscila Uchôa, mãe de Anthony, 4 meses
Reportagem de capa: Cíntia Marcucci (texto), Ana Paula Pontes e Simone Tinti (reportagem)








Para ver as demais concorrentes:
http://www.concursocapas.org.br

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Agradável surpresa:Eu Não Vim Fazer Um Discurso. Grabiel García Márquez

Comprei o livro de García Márquez por acaso. Já conhecia o autor,de quem gosto  imensamente. Não sabia, porém, que ele estava com livro novo na praça. O exemplar, cuja capa não tem nada de atraente, estava bem à minha frente quando entrei na livraria. Fazer o quê?  Eu Não Vim Fazer Um Discurso é uma coletânia de textos; discursos feitos em diversas ocasiões e lugares ao longo de boa parte de sua vida. Inicia com o que ele fez em 1944 despedindo-se dos colegas de turma do ensino médio.  Simples, abrangente, afetivo, bem humorado e elaborado. A primeira surpresa foi quando confirmei no próprio livro que o autor  tinha, à época, apenas 17 anos.  A cada texto uma satisfação. Em Como Comecei a Escrever (03.05.1970), García Márquez diz francamente do medo que está sentindo por falar em público. Desculpa-se por ficar sentado e conta que pelo medo até desejou ficar doente de verdade e que imaginou não ir de paletó ao evento para não ter franqueada a sua entrada. Prossegue dizendo de forma por demais divertida que fez seu primeiro conto desafiado pelo diretor  do caderno literário do Jornal El Espectador. Diz ter adoecido de verdade quando viu, no dia seguinte, nota elogiosa da direção do jornal  junto com seu conto publicado.
Confessa não saber quando vai ou o que vai escrever e que espera a ideia lhe chegar pronta. Podendo isto
demorar bastante,logicamente.
 Dedica ao México em Outra Pátria Diferente (22.10.1982) , recebendo a Ordem da Águia Asteca, um pronunciamento de gratidão comovente pela simplicidade e grande carga de afeto, pela acolhida que o México lhe deu nos anos 60, quando, segundo ele, já não era feliz. 
Mais adiante A Solidão da América Latina (08.12.1982) é uma aula de história e sociologia como a maioria gostaria de  ter.Pronunciamento feito por ocasião do recebimento do Premio Nobel de Literatura Nesse pronunciamento feito em Estocolmo, Suécia, García Márquez discorre sobre diversas mazelas porque passaram, ao longo de décadas ininterruptas,vários países da A.L. Ditaduras sangrentas e esquizofrênicas, algumas delas ainda nas nossas lembranças. Dando números absolutos e comparativos, nomes de pessoas e países Gabo, mostra a causa da  solidão da América Latina. Mais adiante e de forma brilhante chama a atenção para o erro da visão europeia sobre a A.L. Porque, segundo ele, o europeu não entende que o novo continente vive em tempo diferente. Que, por exemplo, a Suiça que nos olha hoje é a da paz, da prosperidade, dos queijos. Os suiços não conseguem ver  semelhança entre os movimentos massacrantes que ora ocorrem aqui com protagonisados por seus compatriotas do passado, que de pacíficos nada tinham.
Prossegue com O Cataclismo de Dâmocles, discurso feito na reunião do Grupo dos Seis  no México em 06.08.1986. É sobre  a paz e o desarmamento nuclear. Exceto pelos dados numéricos está atual até hoje.
A lei me impede de  reproduzir qualquer texto, mas não posso negar que faria isso com satisfação para compartilhar a mesma satisfação que tive lendo.  Falar a verdade, satisfaçao é pouco. O livro me emocionou a cada discurso.  Havia me prometido não comprar livros por algum tempo, mas fiz bem em não cumprir. São ao todo 21 textos. Todos emocionados, simples, realistas, francos, necessários a qualquer leitor.
Para quem já conhece Gabriel García Márquez: imperdível. Para quem não conhece é ótima oportunidade.
Páginas: 127
Tradução: Eric Nepomuceno

Ed. Record
R$24,90


Dedico a você, Amaro Gantois,  a emoção que senti com a maioria dos textos desse livro. É a única forma que tenho de apaziguar a vontade que me deu de comentar e lhe emprestar  a obra

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Palmas pro Piaui!!

O colégio Instituto Dom Barreto, de Teresina (PI), obteve a segunda melhor média entre todas as escolas do país no Enem 2010. Com 754,13 pontos, o Instituto Dom Barreto ficou atrás do Colégio São Bento, do Rio de Janeiro. Outra escola do Piauí, a Educandário Santa Maria Goretti, com média de 726,42 pontos, aparece como a oitava melhor colocada no país.
O Instituto Dom Barreto é uma escola particular sem fins lucrativos. A mensalidade do Ensino Médio é de R$ 696, segundo a diretora da instituição, Maria Stela Rangel da Silva. Ela afirmou que, além dos 3.500 alunos do colégio – da educação infantil até o ensino médio –, a entidade ainda mantém a Escola Popular Madre Maria Bilac, um colégio totalmente gratuito para 600 alunos do bairro Satélite, um dos mais pobres de Teresina.

 
Sétimo colocado no ranking geral, com 727,6 pontos, o Educandário Santa Maria Goretti é outro destaque do Piauí no Enem 2010.
O colégio, localizado em Teresina, tem 40 anos de existência e cerca de mil estudantes matriculados. Para serem aceitos, os novos alunos, exceto os do ensino infantil, têm de fazer uma prova chamada de teste de sondagem para avaliar se possuem condições de acompanhar o ensino da unidade escolar. A maioria é retida nesta fase. Os estudantes do terceiro ano do ensino médio não são aceitos.
Antes da matrícula, a família do novo aluno também precisa ser entrevistada. “A escola exige bastante disciplina e dedicação. Precisamos garantir se é isto que a família busca”, diz a coordenadora pedagógica Amanda Leal.
As classes do ensino médio possuem, no máximo, 30 alunos em cada. De olho no vestibular, os alunos do terceiro ano têm aulas de reforço no contraturno escolar.
As mensalidades no Educandário Santa Maria Goretti custam entre R$ 598 (infantil) até R$ 798 ( médio). Para as matrículas na educação infantil há lista de espera.

Créditos: 
Imagens: Instituto do Barreto: site da instituição
         Educandário Santa Maria Goretti: site G1, 2007
Postagem editada a partir de matéria das  jornalistas: Ana Carolina Moreno e  Vanessa Forjardo para o site  G1.

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Segunda-feira poética: Mário Quintana

Pequeno Poema Didático
Mário Quintana

O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!

domingo, 11 de setembro de 2011

Falta biblioteca no Recife

Acreditem, a capital de Pernambuco tem apenas 3 bibliotecas públicas.  Uma delas, a maior e mais antiga, fica no Parque Treze de Maio: Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco . As outras duas estão nos bairros de Afogados e Casa Amarela, zonas oeste e norte da cidade, respectivamente.  Estas duas últimas existem desde os anos 50 e são da Prefeitura da Cidade do Recife.  As duas bibliotecas municipais são pequenas e simples mas muito organizadas e ativas. A Biblioteca Popular de Afogados recentemente criou o Pegue&Leve. Como forma de incentivar a leitura, mensalmente, expõe os livros que tem duplicatas no acervo e quem quiser pode levá-lo para casa.  A iniciativa, por bem sucedida, foi copiada pela Biblioteca Popular de Casa Amarela.  As duas bibliotecas vão além do simples emprestar e receber de volta exemplares de livros. Afogados tem concursos de poesia e contos, espaço infantil, contação de estórias, colônia de férias e aulas de reforço escolar.  Casa Amarela também tem espaço infantil e contação de estórias.
Vamos ver  sob a ótica quantitativa: a cidade do Recife, tem pouco mais de 1 milhão e meio de habitantes, separados em 94 bairros.   São, portanto, 31.914 habitantes  ou 31 bairros por biblioteca em números arredondados.
Recife, é, pois carente de bibiliotecas públicas.  O  professor  Lourival Pereira (CIn-UFPE) chama a atenção para o fato de que as duas bibliotecas demandam juntas e anualmente ao município R$40.000,00. Valor 6 vezes menor que o gasto pela prefeitura do Recife com a decoração da cidade para o último carnaval.

(Dados tirados do Jornal do Commercio de 11.09.11-Nathalia Pereiranpereira@jc.com.br)

 Biblioteca Popular de Casa Amarela
Rua Major Afonso Leal s/n
Casa Amarela
Fone: 81 3355 3130 
(Imagem:site da Prefeitura do Recife)








Biblioteca Popular de Afogados
Rua Jacira s/n - Afogados
Fones: 81 3355 3122 e 3355 3123

(Imagem: site da Prefeitura do Recife)
 


sábado, 10 de setembro de 2011

Crônica cantada(infantil): Toquinho, O Avião

Para ouvir e ver a letra, clique na imagem

Esta música está no CD infantil Casa de Brinquedos,Toquinho e outros artistas convidados.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Melhor capa de revista de 2011 - vamos votar?


 Concurso de ANAER- Associação Nacional de Editores de Revista, escolhe a melhor capa de 2011.   Dê o seu voto.  O blog traz  apenas 2 das 16 capas concorrentes. Clique aqui para ser direcionado à página e dar ser voto.  Resultado no dia 12, segunda feira.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Quarta-feira é dia de conto: Dalton Trevisan

Valsa de Esquina

     Um moço em Curitiba devia se afogar...
Carlinhos retocou as pontas da gravata — uma gravata de bolinhas azuis, mas não era feliz. Olhou de todos os lados: onde o mar?
     — ... no último barril de rum!
Saía do emprego e reunia-se no café com os amigos. Cobria a xícara de cigarros, no mármore da mesa desenhava trinta vezes o seu nome de guerra.
     — Uma mulher é o que falta a um moço como eu!
     Com zumbido de abelha corriam os bondes sobre os trilhos — todas as caras na janela.Voltou para o quarto, um, dois, feijão com arroz, Mulher como a dama das camélias, disse consigo, chutando uma pedra.
     Dia 17 de abril de... não me lembro o ano, às sete e meia da noite. Carlinhos quis voltar e parou, com a perna no ar: nada por fazer no quarto. Anda, anda, minha perna, três, quatro,feijão no prato.
     Os pares dançavam na sala, as cadeiras ao longo da parede. Ele fumava à janela, por vezes repuxava a gravata de bolinhas — aquilo sim era gravata! No oitavo cigarro decidiu falar com a menina feia, sozinha no canto.
     Ela deixou cair a folha de papel: era modinha de Sílvio Caldas. Carlinhos entregou a
canção com o gesto de quem oferecia uma flor.
Sugeriu que devia tocar piano, dedos tão delicados. Muita vontade de aprender, mas o pai não queria. Ó, doente por música! Ele quis saber se gostava mais de Sílvio Caldas ou Orlando Silva. A mocinha olhou primeira vez nos seus olhos — os belos olhos de Carlinhos — e disse Orlando Silva. Ele foi cruel: Sílvio Caldas. Até inventou retrato com dedicatória: "Do Sílvio ao amigo velho".
     A aniversariante chegou com pratinhos de ambrosia.
     — Conhece a Branca?
     Acompanhou-a depois das aulas. Vinha do café, postava-se debaixo da tabuleta: "Alta Academia de Corte e Costura — Professoras Josefa e Soledade".
     Nove da noite surgiam apressadas as mocinhas, cada uma com pacote no braço. Na rua de barro, Branca estendia a mão pálida. Que não fosse até a porta, o pai era muito esquisito. Em
despedida, o cartão colorido — namorados se beijavam no cara-manchão de rosas. Dois nomes desenhados no canto.
     Os amigos riam-se no café, passando o cartão de um para outro. Carlinhos fez juramento público: ela seria sua.
     Aquela noite Branca veio sozinha. Ninguém na rua, a sombra redonda das árvores na calçada. Uma coisa importante para lhe dizer. Branca pediu que não, a mãe ralharia se chegasse tarde. Carinhos enterrou as mãos no bolso, não falou mais. Daí ela parou, por quê estava zangado? "Nada", respondeu ele. Encostou-a na primeira árvore e a beijou, cheia de medo.
     Entendeu passos, ergueu o pacote do chão. Foram andando. À sombra de outra árvore empurrou-a contra a parede. Branca abriu no choro, ele sentia o próprio rosto molhado — " Não chore, sua boba".
     Acordou de noite, olho arregalado no escuro. O choro de Branca ao lado da cama.Acendeu a luz, ninguém. Miserável! ele se injuriou. Sonhava com ela entre cadeiras vazias,rasgando a modinha de Chico Alves. Pelo gosto ruim na boca soube que a amava.
     À espera na esquina, mão trêmula. Que bobagem, um homem na minha idade. Saíam as mocinhas, não viu Branca. Seguiu-as, nem uma era ela.
     Noite seguinte informou-se com uma colega: doente. Sofria do coração, a pobre, disse a moça e foi-se com outra, as duas rindo-se dele. Voltou para o quarto, o remorso igual a uma gravatinha no pescoço era o    remorso.   
     Não podia ouvir o Orlando Silva sem que lhe doesse o peito: uns dedos furadinhos de agulha... Doente, quem sabe à morte.
Escreveu com giz o nome Branca em todas as portas da rua. Não tornou ao café (os amigos lembravam-se do juramento) e primeira vez bebeu rum. Outras noites rondando a Academia, olho vermelho de tanto soletrar Josefa e Soledade.
     Saem as moças, cada uma com seu pacote. À sombra das árvores, cambaleia  rua de barro. Cachorros latem para ele, perdido entre as casas de madeira, pés de couve na entrada. Qual delas é a de Branca? Assobia debaixo das janelas uma valsa de Orlando Silva. Só lhe respondem o apito dos guardiões e a lamúria dos sapos em noite de chuva.
     Há meses assobia nos portões, um grilo entre as couves. Quando ele passa, o guarda-noturno leva dois dedos ao boné. Nunca mais trocou de gravata — ai, bolinhas azuis! Sem saber se Branca morreu, chega ao café. Um amigo pergunta como vai de amores.
    — Você deve se afogar no barril de rum.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Segunda-feira poética: No Caminho Com Maiakóvski - Eduardo Alves da Costa

No Caminho Com Maiakóvski
          
Eduardo Alves da Costa*
            
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
  
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Eduardo Alves da Costa

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrasta
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
         
   
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
  
          
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

 
Vamos aprender e divulgar corretamente?

Eduardo Alves da Costa, nasceu em Niterói a 6 de março de 1936 - é o verdadeiro autor de: " Na primeira noite eles se aproximam..." largamente divulgado como sendo  do russo Maiakóvski.O poema escrito nos anos 60,teve parte da segunda estrofe largamente usada por movimentos contra a ditadura que davam sua  autoria a Vladimir Maiakóvski. O engano perdurou até quando a atriz Cristiani Torloni, no papel de Helena, (Mulheres apaixonadas)lê o poema e dá o nome do verdadeiro autor: Eduardo Alves da Costa. Manoel Carlos, autor da novela,conseguiu uma reedição do livro com lançamento dentro da novela.  A imagem exibida acima é da última edição em 1985.
Este poema está incluido na página 218 do livro: Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século - org. por José Nêumanne.

domingo, 4 de setembro de 2011

A Yoani, com carinho.


Yoani Sanches, é a autora de um livro que ela não escreveu. Explico: De Cuba Com Carinho é a reunião de várias postagens desta cubana em seu blog Generacion Y. Sobre o livro, já publiquei postagens neste blog. 
Hoje, é aniversário da autora e é dela que vou falar. Yoani nasceu e reside em Havana e tem 36 anos.Com o título de filóloga e a controversa tese: Um Estudo da Literatura da Ditadura na América Latina, formou-se no ano de 2000 pela Universidade de Havana. Escreve o blog Generación Y desde 2007, mas como ela própria se define é uma blogueira cega: não pode acessá-lo de casa. No livro De Cuba Com Carinho, Yoani conta como são feitas as postagens tendo em vista que é constantemente vigiada e, como toda a população, impedida de expressar-se livremente. No ano seguinte ao lançamento do blog, foi considerada pela revista Times uma das 100 mulheres mais influentes do mundo. Algo que para mim, na condição de mulher, é por demais honroso tendo em vista que Yoani ganhou notoriedade denunciando para o mundo as condições de vida porque passa um pais inteiro. E ela fez isso de dentro do próprio pais que amordaça, persegue seus filhos e joga areia nos olhos dos outros.

Yoani, já formada, trabalhou em editora de livros infantis mas deixou em seguida para ganhar melhor ensinando espanhol a turistas. Em 2002 emigrou para a Suiça e, voltando em 2004, precisou rasgar o passaporte para não ser rejeitada dentro do próprio país. (Havia demorado mais do que o permitido no exterior). Abriu o Generación Y que, descoberto pelo governo, passou a ser filtrado desde 2008. Usa da ajuda de vários colaboradores para fazer atualização. O blog, um dos mais acessados do mundo é traduzido para 15 línguas. Outra façanha da Yoani: conseguiu enviar ao Pres. Barak Obama, entrevista com 7 perguntas que ele respondeu e ela publicou no Generacion Y. O mesmo foi feito no site oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Yoani denuncia, comprovando,logicamente, toda sorte de restrição com que vivem em Cuba. Restrição não só de liberdade, mas de alimentos, de educação de assistência médica.

Hoje é aniversário de Yoani Sanchez Cordero Maria, à cubana meu aplauso, carinho e admiração.

http://www.desdecuba.com/generaciony/

Postagens neste blog:
http://livroerrante.blogspot.com/2009/10/de-cuba-com-carinho.html

http://livroerrante.blogspot.com/2009/10/voltemos-aos-livros.html

Veja também:
http://blogdomariofortes.blogspot.com/2009/11/fhc-pede-por-yoani-sanchez-ao-governo.html