quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Quarta-feira é dia de conto: Sozinho, Eduardo Oliveira Freire

Sozinho

Eduardo Oliveira Freire
 A menina procurou uma peça bem pequena do quebra-cabeça, que acabara de ganhar de presente.
- Não acho, mãe! - começou a chorar.
- Quem manda, não ter cuidado com suas coisas.- disse a mãe.
Ela continuou a chorar por algum tempo, depois, esqueceu-se da pecinha perdida. Foi brincar com uma coleguinha da rua, onde morava. Aprendeu, que se perde algo ou alguém.
No fim da tarde caiu uma tempestade, típica chuva de verão.
*******
Uma peça se separa do quebra-cabeça. Almeja conhecer outras paisagens. Um grito intenso surge em sua consciência: "Quero ser só".
O vento a sopra para baixo da mesa. A vassoura a varre para fora da casa. A água do rio transborda, carregando-a para longe.
Ela nunca voltou para casa, nem sabe mais o caminho de volta. Esqueceu-se de seu passado. Vive intensamente o presente:
"Eu sou o meu próprio quebra-cabeça".


(www.bestiario.com.br)

sábado, 27 de agosto de 2011

Crônica cantada: Ney Matogrosso - Tico-Tico no Fubá


Tico-Tico no Fubá
Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros

Um Tico-Tico só
O Tico-Tico lá
Está comendo
Todo, todo, meu fubá
Olha seu Nicolau
Que o fubá se vai
Pego no meu Pica-Pau
E um tiro sai
Então eu tenho pena
Do susto que levou
E uma cúia
Cheia de fubá eu dou
E elegre já voando e piando
Meu fubá, meu fubá
Saltando de lá para cá...(2x)
Houve um dia, porém,
Que ele não voltou
O seu gostoso fubá
O vento levou
Triste fiquei quase chorei
Mas então vi
Logo depois não era um
E sim já dois
Quero contar baixinho
A vida dos dois
Tiveram ninhos
E filhinhos depois
Todos agora pulam ali
Saltam aqui
Comendo todo o meu fubá
Saltando de lá para cá...
*
 Esta crônica foi  apresentada pela primeira vez em 1917 sob o título de Tico-Tico no Farelo e só em 1931 mudou para  Tico-Tico no Fubá, com  que é conhecida até hoje. É um choro e uma das músicas mais conhecidas e executadas de todos os tempos. Ney Matogrosso, gravou de forma magistral.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Bullying - até que enfim os colegas reagiram!

Bullying, uma brincadeira que acaba em lágrimas

Alunos do Colégio Marista de Natal (RN) lançaram uma campanha na internet contra o bullying após um garoto ter pulado do primeiro andar da escola na manhã de terça-feira, 23. Segundo relatos colhidos pela imprensa local, o estudante do 8.º ano do ensino fundamental L.V., de 15 anos, era vítima de agressões psicológicas no colégio. O quadro de saúde do adolescente é estável.

No Twitter, os integrantes da Comissão de Formatura do Marista usam a hashtag #PrédeMaisRespeitoeConsciência para divulgar a causa. Na primeira mensagem, eles escreveram: "Bullying: uma brincadeira que acaba em lágrimas". A iniciativa conta com o apoio do grêmio e dos alunos do cursinho pré-vestibular da escola.
O incidente no Marista está sendo investigado pela Polícia Civil, que vai ouvir os pais e colegas de turma de L.V., além de professores e funcionários. O boletim de ocorrência, registrado pelo diretor do colégio, afirma que o estudante se atirou do prédio "por motivos até o presente momento não identificados".
Com a queda, o aluno fraturou o braço direito, cortou o queixo e teve alguns dentes quebrados. Ele foi levado de ambulância para o Hospital Walfredo Gurgel, onde passou por cirurgia.
A versão que corre nas redes sociais é que L.V. havia sido xingado por colegas antes de pular da sacada. O garoto pediu ao professor para beber água e, no caminho, se jogou do primeiro andar.
Em nota assinada pela direção, o colégio afirma que "todos os pontos em questão divulgados pelas redes sociais na internet não correspondem à realidade dos fatos". A escola diz ainda que prestou assistência ao aluno e tomou "todas as medidas cabíveis (...) com relação às autoridades (polícias militar e civil) e aos familiares" do estudante.
O Marista também divulgou comunicado aos pais de alunos, em que afirma: "A unidade educacional está atenta e apoia as averiguações sobre as circunstâncias do incidente, de forma transparente".

Matéria retirada na íntegra do Estadão on line 25.08.2011- destaques feitos pelo blog.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Quarta-feira é dia de conto: O Meu Avô, Dalton Trevisan

Dalton Trevisan saindo da Livraria Chain,Curitiba
 O Meu Avô
Dalton Trevisan

     Vovó finou-se ao lado do fogão, cerzindo meias no ovo de madeira. O velho dava-lhe as costas, um de mal com o outro. O ovo rolou a seus pés... voltou-se para ela, quietinha na cadeira de palha. Cerzira a meia e, ao levar o fio à boca (tinha todos os dentes aos setenta anos), morreu.
     O velho trancou-se no quarto. Batia na parede com um martelo, a cada pancada seguiu-se um grito, Os filhos arrombaram a porta, tomaram-lhe o martelo, não é que enterrava um prego na cabeça?
     Vovô comia com a colher. Meu pai cortava-lhe a carrne no prato e, ao deitar-se, escondia garfo e faca. O velho levava para o quarto a sua garrafa de vinho, que os filhos enchiam toda noite, misturando-o com água.
     Tinha muito medo de açúcar na urina. Antes de enfiar-se na cama, de cachimbo e ceroula, aparava dois barbantes na medida do pulso e tornozelo, verificava na manhã seguinte se o corpo havia inchado. Dormia bêbado, esquecido da porta aberta...Um dos netos reduzia os barbantes e espalhava açúcar pelo ourinol, que amanhecia coberto de formiguinha ruiva.
     Saudoso da falecida, jurou privar-se de manteiga o resto de seus dias. E manteiga era o que mais gostava, depois de beber. Vovó não se deu por satisfeita; ele a escutava que vinha deitar-se, arrastando o vaso debaixo da cama. A garrafa corria no soalho, gorgolejava um resto de vinho. Os brados do meu avô ecoavam pela casa:
     -Suma-se daqui... Já morreu, diaba!
     Que tanta mosca ao redor da cama? No velório bem se queixou: essa bicha está com cheiro!  e queimava folhas de alecrim no brasido.
     O velho achou a navalha de meu pai e, antes que a defunta se deitasse na cama, cortou o pescoço de uma a outra orelha. Sustentando com as mãos a cabeça, seguiu pelo corredor até a cozinha, deitou-se ao pé da cadeira de palha — o sangue verteu que nem chuva debaixo da porta.
     Pela manhã, quando foi acender o fogo, mamãe o encontrou. Meu pai suspendeu o velho, encostou-o na parede: "Pai, pai, sou eu. Pai, me responda. É o Paulo". Tinha de firmar a cabeça no pescoço a fim de que não rolasse.
     De volta do enterro, meu pai sentou-se na cadeirinha de palha, o queixo na mão. Foi ao quarto de vovô, achou a garrafa pela metade. Bebeu o vinho azedo, esfregou os dedos no sangue, chamou pelo velho. Conversava com ele no quarto, bem como pai e filho. Mamãe batia na porta:
     — Venha jantar, Paulo.
     À noite, ele pregou as portas e janelas. E foi dormir bêbado, a mão suja de sangue.

(Novelas Nada Exemplares. pqgs. 104 a 106)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

LivroErrante: Segunda-feira poética: Alice Ruiz

Segunda-feira poética: Alice Ruiz

Que Importa o Sentido Se Tudo Vibra?"
Alice Ruiz



meus pensamentos
cruzam os teus
como aviões no ar
da janela
os corações acenam
sem saber se vão voltar
te procuro
nas coisas boas
em nenhuma
encontro inteiro
em cada uma
te inauguro
lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?
já estou daquele jeito
que não tem mais conserto
ou levo você pra cama
ou desperto
sem saudade de você
sem saudade de mim
o passado passou enfim
ainda te sinto
em tudo que permandece
como se tua pressa
de vida que se extingue
ficasse um pouco em tudo
ainda
minuto a minuto
quis
um dia
todo azul
no teu dia
meu querer
quero crer
azulou
teu dia a dia
tudo
que podia
já não temo fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta
ainda me viro
e me vejo
pronta a te chamar
a te contar
que aprendi hoje
coisas que você soube
ainda te vejo
em cada bicho
em cada pensamento
me surpreendo olhando
com teus olhos de pesquisa
e o que vejo
vira beleza
vontade de ficar sozinha
só para saber
se você ia
ou vinha
quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria
do jeito que você queria
minha voz
não chega aos teus ouvidos
meu silêncio
não toca teus sentidos

sinto muito
mas isso é tudo que sinto
olhar o mesmo olho
com outros olhos
em outro olhar
o mesmo olho

nos mesmos olhos
o olhar do outro
de olho

sábado, 20 de agosto de 2011

Crônica cantada:Eu Fui à Europa


Eu Fui à Europa
Chiquinho Salles
Canta: Rosa Maria 
 
Eu fui à Europa,
Pra cantar samba-de-breque,
Numa radio de lá,
Quando estreei, foi um chuá,
Meti minha bossa,
Pra mostrar que a gente nossa,
Também sabe cantar,
Com aquele molho de abafar,
Mas de repente,
Quando eu atuava naquela estação,
Senti no estúdio, um barulhão,
E correrias, tiros, comandos, uma confusão,
Pararam até com a irradiação,
Fui agarrada por dois soldados e um oficial,
Que disse: é a tal,
Que diz ser artista,
Mas que não passa de uma espiã,
Vai ser fuzilada amanhã".
Eu disse logo: " Mas essa gente está equivocada,
Eu canto samba e mais nada "
Me responderam:
"Este seu samba é mensagem cifrada,
Você está é camuflada "
E me encostaram numa parede,
Em frente a um pelotão,
Me apontando o coração,
E esperando a fria ordem de execução,
(Mas veja só que situação)
Me perguntaram qual era a minha última vontade,
E eu disse : A minha liberdade !,
Mas o oficial sacou a espada e levantou no ar,
Já iam me bombardear,
Mas de repente a ordem "fogo" o oficial exclama:
Eu acordei em baixo da cama,
Foi um sonho, graças a Deus,
Um sonho, nada mais,
Eu vou deixar de ler jornais !

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Os 100 mais vendidos na Estante Virtual

Este e mais outros livros na minha estante


1ºGraciliano Ramos - Vidas Secas
2ºMachado de Assis: Dom Casmurro
3ºPaulo freire: Pedagogia da Autonomia
4ºClarissa Pinkola Estés: Mulheres Que Correm Como Lobos
5ºSalomão: Cântico dos Cânticos
6ºMilan Kundera: A Insustentável Leveza do Ser
7ºAldous Huxley: Admirável Mundo Novo
8ºJ. K. Rowling: Harry Potter e a Pedra Filosofal
9ºJ. D. Salinger: O Apanhador no Campo de Centeio
10ºGabriel García Márquez: Cem Anos de Solidão
11ºMarkus Zusak: A Menina Que Roubava Livros
12ºJ K Rowling: Harry Potter e a Pedra Filosofal
13ºAdolf Hitler : A Minha Luta Mein Kampfl
14ºDyonelio Machado - Os Ratos
15Valéria Piassa Polizzi - Depois Daquela Viagem
16ºEmily Brontë - O Morro dos Ventos Uivantes
17ºJosé Saramago - A Ensaio Sobre a Cegueira
18ºJ K Rowling - Harry Potter e a Camara Secreta
19ºJostein Gaarder - O Mundo de Sofia
20º Dale Carnegie - Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas Novo 51ª Ed.
21ºVladimir Nabokov - Lolita
22º Eduardo Galeano -AsVeias Abertas da América Latina
23ºJ K Rowling - Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
24ºErnest Hemingway - Paris È uma Festa
25ºPaulo Freire - Pedagogia do Oprimido
26ºMachado de Assis - Memórias Postumas de Brás Cubas
27ºErnest Hemingway - O Velho e o Mar
28ºMário de Andrade - Macunaíma
29ºRobin Norwood - Mulheres Que Amam Demais
30ºDias Gomes - O Pagador de Promessas
31ºJ K Rowling - Harry Potter e as Relíquias da Morte
32ºJoão Guimarães Rosa - Primeiras Estórias
33ºOscar Wilde - O Retrato de Dorian Gray
34ºAllan Kardec - O Evangelho Segundo o Espiritismo
35ºWilliam P. Young - A Cabana
36ºClarice Lispector - A Hora da Estrela
37ºBetty Edwards - Desenhando Com o Lado Direito do Cérebro
38ºKarl Marx - Grundrisse
39ºMiguel Nicolelis - Muito Além Do Nosso Eu
40ºPedro Bandeira - A Droga da Obediência
41ºMaquiavel - O Príncipe
42ºRhonda Byrne - O Segredo
43ºFernando Sabino - O Menino no Espelho
44ºT. Harv Eker - Os Segredos da Mente Milionária
45ºMoacyr Scliar - As Pernas Curtas da Mentira
46ºAntonio Candido - Literatura e Sociedade
47ºUmberto Eco - O Nome da Rosa
48ºClaude Raffestin - Por uma Geografia do Poder
49ºEça de Queirós - A Cidade e as Serras
50ºJoão Guimarães Rosa - Grande Sertão Veredas
51ºJ K Rowling - Harry Potter e o Cálice de Fogo
52ºPedro Bandeira - Pântano de Sangue
53ºJ. K. Rowling - Os Contos de Beedle, o Bardo
54ºJulio Verne - Viagem ao Centro da Terra
55ºJudith Viorst - Perdas Necessarias
56ºNicholas Sparks - A Última Música
57ºPedro Bandeira - A Droga do Amor
58ºGraciliano Ramos - Infância
59ºMarilena Chaui - Convite a Filosofia
60ºJ K Rowling - Harry Potter e o Enígma do Príncipe
61ºSergio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil
62ºJosé Saramago - As Intermitências da Morte
63ºAugusto Cury - O Futuro da Humanidade
64ºJ K Rowling - Harry Potter e a Ordem da Fênix
65ºMia Couto - O último Voo do Flamingo
66ºAluísio Azevedo - O Cortiço
67ºMary del Priore - Histórias íntimas
68ºA Sun Tzu - A Arte da Guerra
69ºMichel Foucault - História da Loucura
70ºClarice Lispector - Água Viva
71ºMalba Tahan - O homem que calculava
72ºMaurice Druon - O Menino do Dedo Verde
73ºCarlos Ruiz Zafón - A Sombra do Vento
74ºKhaled Hosseini - O Caçador de Pipas
75ºJose Saramago - Historia do Cerco de Lisboa
76ºJohn Boyne - O Menino do Pijama Listrado
77ºWalcyr Carrasco - O Mistério da Gruta
78ºManuel Antõnio de Almeida - Memórias de um Sargento de Milícias
79ºHomero - Odisséia
80ºHermann Hesse - Sidarta
81ºJoão Cabral de Melo Neto - Morte e Vida Severina
82ºHenri Lefebvre - O Direito à Cidade
83ºEdgar Morin - Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro
84ºBoris Fausto - História do Brasil
85ºParamahansa Yogananda - Autobiografia de Um Iogue
86ºStephen R. Covey - Os 7 Habitos das Pessoas Altamente Eficazes
87ºJoão Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
88ºMax Weber - A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo
89ºJosé Saramago - O Evangelho Segundo Jesus Cristo
90ºFerdinand de Saussure - Curso de Linguística Geral
91ºFranz Kafka - O Processo
92ºMarian Keyes - Melancia
93ºElizabeth Gilbert - Comer, Rezar, Amar
94ºRichard Bach - Fernão Capelo Gaivota
95ºCaio Prado Júnior - Formação do Brasil Contemporâneo
96ºErich Von Daniken - Eram os Deuses Astronautas?
97ºJamie Sams - As Cartas do Caminho Sagrado
98ºJ. K. Rowling - Harry Potter e a Camara Secreta
99ºJosé Saramago - Caim
100ºDale Carnegie - Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quarta-feira é dia de conto: Conto Erótico, Luis Fernando Veríssimo

Conto Erótico
Luis Fernando Veríssimo
-Às suas ordens.
-Que-quem é?
-Às suas ordens.
-Acho que apertei o botão errado. Ainda não me aostumei com o painel deste novo sistema. Como é que eu faço par conseguir linha direta?
- Linha direta: comprima o botão vermelho no canto direito inferior do painel. Aguarde. Se der sinal de liha, comprima o botão marrom, depois o vermelho novamente.
Repita  a operação até conseguir a linha.
- Obrigado, senhorita...
- De nada. Desligo.
-Escute!
-Às suas ordens.
- Olhe. Por favor, não pense que eu estou sendo indiscreto, mas é que não reconheci sua voz. Você é nova no escritório? Alô?
-Às suas ordens.
-Eu só queria  esta informação...
-Informação: Comprima o "zero' no painel. Aguarde. Quando ouvir o sinal eletrônico, declare a informação desejada. Fale pausadamente.
- Não. Não. Eu só queria saber... Em primeiro lugar, o que é que você está fazendo aqui a esta hora? todo mundo já foi para casa. Já sei, é seu primeiro dia, você ainda está desambientada. Mas não precisa exagerar. Ninguém me disse que iam contratar uma nova telefonista. Aliás, me disseram que com esse novo sistema, não precisa telefonista. Você não esponde?
-Às sua ordens.
- Só me diga seu nome. Olhe, não sei o que lhe disseram a meu respeito, mas eu não sou um patrão duro, não. Só fico até esta hora no escritório porque, francamente, este é o lugar onde me sinto melhor. Minha mulher nem fala mais comigo. Me sinto muito melhor aqui, na miha mesa, na minha poltrona giratória, as minhas coisas, agora este novo telefone... entendeu? Não sei porque estou contando tudo isto para você. Ah, é para você não ter medo de conversar comigo. Sou absolutamente inofensivo. As funcionárias deste escritório, para mim, fazem parte da mobília, entende? Jamais faltei com respeito com nenhuma delas. Aliás, jamais faltei com respeito com mulher nenhuma, ouviu? Você não tem nada para me dizer?
-Não há mensagens.
O quê?
-Às suas ordens.
- Mas eu sou um animal. Você é uma gravação! Agora entendi. E eu aqui falando sozinho...Mas sabe que você tem uma voz linda?
-Às suas ordens.
-Quero fazer amor com você. Agora. aqui. em cima da mesa. Com a sua cabeça atirada para trás, por ima do calendário eletrônico. Com o jogo de canetas de acrílico espetando as suas costas. E você rindo, selvagemente, de prazer e de dor. Depois rolaremos pelo carpete como dois loucos. Como duas feras. Derrubaremos a mesa do café.
-Café: comprima o botão rosa.
- Ahn. Diz de novo. Comprima o botão rosa. Diz. Café.
-Café: comprima o botão rosa.
- Meu amor, minha paixão. Café,
-Café: comprima o botão rosa.
-Quero passar o resto da minha vida ouvindo a sua voz e omprimindo seu botão rosa. Nunca mais preciso sair do esritório. Só nós dois. Quero fazer tudo com você. Tudo!
- Você deixa?
-Às suas ordens.

(Ed. Mort e Outras Histórias, Luis fernando Veríssimo)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Segunda-feira poética: Jorge Luis Borges

Imagem do Google
Nem Sequer Sou Poeira
Jorge Luis Borges

Não quero ser quem sou. A avara sorte
Quis-me oferecer o século dezassete,
O pó e a rotina de Castela,
As coisas repetidas, a manhã
Que, prometendo o hoje, dá a véspera,
A palestra do padre ou do barbeiro,
A solidão que o tempo vai deixando
E uma vaga sobrinha analfabeta.
Já sou entrado em anos. Uma página
Casual revelou-me vozes novas,
Amadis e Urganda, a perseguir-me.
Vendi as terras e comprei os livros
Que narram por inteiro essas empresas:
O Graal, que recolheu o sangue humano
Que o Filho derramou pra nos salvar,
Maomé e o seu ídolo de ouro,
Os ferros, as ameias, as bandeiras
E as operações e truques de magia.
Cavaleiros cristãos lá percorriam
Os reinos que há na terra, na vingança
Da ultrajada honra ou querendo impor
A justiça no fio de cada espada.
Queira Deus que um enviado restitua
Ao nosso tempo esse exercício nobre.
Os meus sonhos avistam-no. Senti-o
Na minha carne triste e solitária.
Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,
Serei o paladino. Serei sonho.
Nesta casa já velha há uma adarga
Antiga e uma folha de Toledo
E uma lança e os livros verdadeiros
Que ao meu braço prometem a vitória.
Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)
Não projecta uma cara em nenhum espelho.
Nem sequer sou poeira. Sou um sonho

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

domingo, 14 de agosto de 2011

Aos pais: abraço do blog

 Este blog abraça os pais que estão na frente da fila e aplaude os do meio.  Nos que hoje estão no fim da fila apenas como espectadores  e recebedores do carinho dos da frente, o Livro Errante credita imensa esperança.

As mãos do meu pai.
Mário Quintana
Imagem do google


As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Quarta-feira é dia de conto: O Fim de Uma Barriga

O Fim de uma Barriga
Voltaire de Souza
Uma coisa ninguém gosta de ter: barriga. Complexos. Frustrações. Exercícios, regime? O sujeito pára depois de três dias. Por que não fazer uma lipo? Muito homem tem vergonha de fazer lipoaspiração. Tem um que fez. Gordo. Briguento. O Belini. Foi assim. Ele teve um desentendimento no trânsito. Coisa à-toa. Mas terminou com dois tiros na barriga. Foi levado para o hospital. Antes de entrar na faca, pediu para o médico: “Aproveita e faz um lipo. Uma lipo, por favor.” Fizeram. Hoje ele é um homem feliz. Lipoaspirado. Mesmo um tiro pode levar ao aperfeiçoamento pessoal. (Voltaire de Souza)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Segunda-feira poética: Bruna Lombardi

Melodrama
Bruna Lombardi

Eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão

o amor tinha de ser
mais uma contradição
tinha de ser verdadeiro
confuso e biscateiro
como em toda situação

tinha de ter remorso
e um querer e não posso
e toda essa aflição
tinha de me dar pancada
e eu cantar não dói nem nada
com um radinho na mão

tinha de fazer ameça
que é pra poder ter mais graça
como toda relação
tinha de ser dolorido

rasgar um pouco o meu vestido
depois me pedir perdão
e como em todo melodrama
terminar na minha cama
até por falta de opção.

sábado, 6 de agosto de 2011

Crônica cantada: A Dor Na Escala Richter, Márcio Faraco




A Dor Na Escala Richter

A terra treme do outro lado do planeta
Enquanto a calmaria daqui me abala
Uma outra guerra traz a morte violenta
E eu aqui comendo pipoca na sala

Ah, se eu medisse minha dor na escala Richter
Ou ao menos inventasse uma escala
Será que a dor de não ter nada se compara
Na intensidade à dor de quem tudo perdeu

Qual seria a dor mais forte desse mundo
Acho que dor talvez mereça ser revista
Pois a dor que vejo na revista a cores
Não parece tão real quanto a que eu sinto em mim

É tanta coisa que se vê como notícia
Que a importância vira curiosidade
Não que a morte seja um fato indiferente
Ou tão distante para ser uma verdade

É que na confusão dos sentimentos
Entre o fútil da princesa e seu amante
Um terremoto só parece verdadeiro
Quando a tv cai de cima da estante


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quarta-feira é dia de conto:O Celular de Fantasia

O Celular da Fantasia
Heloisa Seixas
Ouvi a voz atrás de mim. Alguém falando sozinho. Antigamente, só louco. Hoje, não. Hoje as pessoas falam sozinhas no telefone celular. Virei-me, displicente. Era um mendigo. Mas, que estranho, tinha alguma coisa na mão – e parecia um celular! Não pode ser, pensei. Cheguei mais perto. E ri. Não havia celular algum. Ele falava sozinho, segurando um telefone imaginário. Seu celular de fantasia. Parecia com isso querer equiparar sua loucura à loucura da gente comum. Isso o fazia, quem sabe, sentir-se um igual.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Segunda-feira poética: Saudação da saudade

Saudação da Saudade
Alice Ruiz
minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
 

O Bem Votado

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