domingo, 31 de julho de 2011

Crônica cantada: Márcio Faraco


Na Casa de Seu Humberto
Márcio Faraco

Na casa do meu avô
Seu Humberto Faraco
Eu subia no telhado
Pra roubar goiaba do seu Paco


Minha avó atrapalhada
Confundia o nome da gente
Chamava o Nélson de Jova
E eu de um nome diferente


Desce daí Néquinho
Sérgio, Flavinho, Mário, Darcy
Até acertar o meu nome
Eu já nem «tava» mais ali


Nós éramos três meninos
Numa confusão de gurias
Eu, o Nélson e o Jova
Filho de Beatriz, minha tia


E aí veio Giulianna
Logo depois a Caroline
Thaís chegou há pouco
Na família das meninas

Antes era Lulu and Lili,
Gica, Bribri, Gyssia e Cristina
Ah, quanta guria solta
A atazanar a Constantina

Eu me lembro desse tempo
Guilherme não tinha nascido
Na cristaleira, todos os doces
Antes do almoço era proibido

Eu vou contar agora
O que ninguém nunca revelou
A chave da cristaleira
Ficava em cima do armário do vô


sábado, 30 de julho de 2011

Aniversariante do dia: Mário Quintana





Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como WinstonChurchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.
Mário Quintana para Revista Isto É 14.11.1984


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Quintana cantado.




A imagem perdida
Mário Quintana

Como essas coisas que não valem nada
E parecem guardadas sem motivo
Alguma folha seca... uma taça quebrada
Eu só tenho um valor estimativo...
Nos olhos que me querem é que eu vivo
Esta existencia efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se, então, mais nada

Mais nada
Refletirá meu vulto vago e esquivo...
E cerraram-se os olhos das amadas,
O meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
Nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...
E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
Muitas vezes parei... e, nos espelhos,
Procuro em vão, minha perdida imagem!


(Hoje, Mário Quintana faria  105 anos. Por causa do aniversário de um dos maiores poetas brasileiros o blog deixará a postagem de Crônica cantada, para amanhã dia 31.)



Veja também: http://livroerrante.blogspot.com/2011/07/aniversariante-do-dia-mario-quintana.html

quinta-feira, 28 de julho de 2011

História bonita: Bicicloteca

Imagem: Alessandro Shinoda/FSP
 O sr.Robson Mendonça é de Alegrete -RS, tem 60 anos e mora em São Paulo. Contou à Folha de São Paulo que gosta de ler mas sem ter endereço não pode pegar livro em biblioteca.
Sonhos nascem de e apesar de adversidades. Com esse gaucho que se impressinou com A Revolução dos Bichos de George Orwell as adversidades levaram ao sonho de ter uma biblioteca para pessoas da rua como ele.
Criou a Bicicloteca. Leva no bau da bicicleta livros que consegue por doações privadas e que ele empresta para quem quer e deixa o nome num caderno.  Quem pega emprestado devolve ou passa adiante para outro leitor, conforme explicou Sr. Robson, na Praça da Sé ao jornal Folha de São Paulo.
Depois de ter perdido a mulher e a filha em um acidente, morou na rua por vários anos. Além disso foi ludibriado e perdeu direitos trabalhistas.
Atualmente dirige uma ONG que atende pessoas da rua. Na Bicicloteca, vão Graciliano Ramos,Truman Capote e Lima Barreto e, mais que tudo, a disponibilidade e generosidade do Sr. Robson Mendonça.


 (Folha de São Paulo 27.07.2011)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Quarta-feira é dia de conto: Heroismo

Heroismo
Leonardo Schabbach
Ele usava um colete à prova de balas. Não importava que dia da semana, que dia do mês ou que dia do ano: ele sempre usava o seu colete à prova de balas. Era precavido, ele dizia. A cidade anda muito violenta; nunca se sabe o que pode acontecer. Isso é uma verdade!
Um belo dia, quando estava no banco, ocorreu um assalto. Três bandidos, armados de pistolas e metralhadoras, ameaçavam matar os reféns se o dinheiro não lhes fosse entregue com velocidade. Ele, muito seguro de si, sabendo da vantagem que levava sobre os assaltantes, afinal, seu colete estava bem escondido sob a camisa, disparou na direção de um deles para desarmá-lo. Um segundo depois, caiu morto.
Ataque cardíaco fulminante, disseram os legistas quando chegaram na cena do crime.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Segunda-feira poética: História passional....Vinícius de Moraes

História passional, Hollywood, Califórnia
Imagem Agência Estado
Vinicius de Moraes
Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.

Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.

Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.

De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.

Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.

Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.

De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.

Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!

À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.

Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.

Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.

No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervosos meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.

Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.

Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando com o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.

Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.

Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.

Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...

Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.

No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.

Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.

Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.

Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando…
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.

Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.

Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.

Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Crônica cantada:Balada para Giorgio Armani - Zeca Baleiro





   



Balada para Giorgio Armani
Zeca Baleiro
Giorgio
Eu tive um sonho risonho e terno
Sonhei que eu era um anjo elegante no inferno
Giorgio
Eu sinto medo na longa estrada
O medo é a moda desta triste temporada
Giorgio
Tá tudo assim nem sei tá tão estranho
A cor dessa estação é cinza como o céu de estanho
Giorgio
Tá tudo assim nem sei tá tão estranho
A cor dessa estação é cinza como o céu de estanho
Quando um dia enfim findar
Este outono eterno
Quero que você me aqueça
Com a sua coleção de inverno Giorgio
Pobre de quem não tem
Será que eu estou bem
Na capa da revista



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quarta-feira é dia de conto:Estória De Traição, Em Que O Marido,Que Vai Matar, Morre.

Estória De Traição, Em Que O Marido,Que Vai Matar, Morre.

     Crsipim tinha ido matar zico, cismado de que Zico estava desaquietando Francisquinha mulher dele,Crispim.
     Crispim era má caça, pra começo. Junto com Zico, costumava atuar na praça, trapaceado a humanidade durante o dia e gastando à noite, na fuzarca, o apurado. Zico, lá pra ele, se achava de melhor pano. Dizia pro Crispim, ô Crispim, eu ando junto com tu, bebo, prego lorota, faço essas coisas todas, mas gostar, sabe, eu não gosto.
Qualquer dia eu me ajeito e vou é ser bispo.
Pensei que tu is dizer Jesus Cristo.
Aí, não.
O que tu é, é baitola, Crispim disse.
Tu não viu nada ainda, emendou o outro.
     Crispim era casado. Zico, não. A mulher de Crispim, Francisquinha, Crispim se mordia de ciúmes dela. Talvez razão nenhuma tivesse.
Francisquinha tinha o corpo flexível, umas ancas arredondadas, peitos fogosos. Segundo alguns, era um fogréu difícil de apagar. Opiniões safadas. No fundo era uma mulher da casa dela. e do homem dela, Crispim, a quem amava e considerava.
     Uma vez ou outra Zico, convidado por Crispim, chegava  pra almoçar. Mas Francisquinha, avisada, só servia, não se sentava à mesa. seguro morreu de velho, ruminava Crispim. Nas profundas do juízo, Francisquinha fazia o diabo pra aguentar.
Pra não estourar e gritar basta.
     Te cuida, o marido avisava.
     Me cuido, sim, mas vê se tu te enxerga, também.
     Vai um dia Zico dá de gostar de Francisquinha.
Uma espécie de paixão súbita, enquanto comia à mesa. Francisquinha servindo, o marido ali. Ela só diz, quando informada, um louco de hospício é o que tu é, Zico.
     E se tu acabar amolecendo?
     Francisquinha reprime-se cautelosa.
     Um ano, dois, engravida. No prazo nasce o fiho e o pai, Crispim, diz, Zico, tu vai ser o padrinho.
Vou, Zico diz. Francisquinha, do lado do marido, Zico atira um olhar safado pra ela.
     Ai, meu Deus, Francisquinha geme, no pensamento.
     No dia do batizado  Zico vem, apadrinha o menino. O pai, Crispim, brinca, ora Zico, era só o que faltava, nós agora compadres.
     Durante o resto do dia Francisquinha ficou com o fogo do ohar de Zico queimando.
     De noite não acertou, na cama, o serviço. não tem homem que não perceba essas coisas, e Crispim não era de ninguém enganar.
     A primeira noite, a segunda, e Crispim cai na suspeita. Mulher nenhuma trasteja em vão na cama. Se esticou pro abajur, acendeu a luz. Sopra o ar dos pulmões.
     Ô Francisquinha, me diz aí qual é a tua afoiteza.
     Francisquinha estala um muxoxo. Diz pro marido, vai dormir, homem.
     Crispim se tranca.Vira-se.não dormiu mais no resto da noite, imaginando coisas. Francisquinha traindo quem não devia trair. Francisquinha se enrabichando por outros homens. Que diabo.
     De manhã, cedinho, Francisquinha está na cozinha. Crispim chega. Ô mulher, me diz logo quem é que tu pôs no nosso caminho. Francisquinha de olhos abaixados estava, de olhos abaixados continuou. O marido dá-lhe uma sacudidela, Estranhão, queria porque queria  extrair a verdade do fundo do poço. Francisquinha nem se vira. Calada, vai preparar no fogão o leite do menino.
     Mulher, Crispim insiste, tu casou com homem, não foi com fresco.
     Francisquinha, mordida, só diz, eu vou lá dentro que o menino está chorando.
      Crispim balançou o corpo, fez menção de agarrar a cascavel. Quis falar, retesou-se. Sentiu sangue ferver e o juizo lhe cochichar, o fela da puta é Zico.
     No quarto, sentada, as costas apoiadas no espelho da cama, Francisquinha faz ar de indiferença. como se quisesse dizer pro marido, foda-se.
     Crispim, vem de lá, pára na porta. Ô Francisquinha, tem um espírito cá dentro, no meu juízo, me garantindo que o nome da peça é Zico, faz tanto tempo que eu não vejo ele, terá levado sumiço o nosso compadre? Francisquinha põe-se de pé. Na porta, uma mão espalmada numa portada e na outra portada a outra mão, Crsipim espera uma palavra. Aguarda um minuto. Mais.
     Tu me mata, mas tu não me arranca de mim o que tu quer descobrir, Francisquinha explode.
      Crispim girou nos pés, saiu. Zico,Zico, meu compadre Zico, sai repetindo o nme de Zico, e soqueando os braços, chutando as cadeiras, a perna da mesa, portão lá fora. Não tarda, chega lá à casa do amigo. Meu compadre, vim lhe dizer que eu não nasci pra corno. E que sou homem, meu compadre. O outro teve ímpeto de achar graça, reprimiu-se diante do vermelhidão dos olhos do visitante.
     Vamos entrar, homem, pondera Zico.
     Crispim se estica sobre os pés, agradece o convite. Meu compadre,diz, tu vai ter que tirar o teu corpo de junto de Francisquinha. A voz de Crspim é grave. O fôlego curto.
     Compadre Crispim, eu tenhi mulher, não sou casado, mas tenho, Zico disse. Crispim cubou o amigo, ali na porta. Sungou as calças, tentou amaciar a voz. Que diabo, meu compadre, e eu que tomei tu pra padrinho do meu filho, confiando na tua decência, vai aí tu põe areia na minha vida com a mãe do teu afilhado, me desconsiderando, me fazendo de corno. Me diz, meu compadre, tô certo? Fala de vez, homem, desembucha!
     Medo de Crispim, Zico não podia negar, tinha. Com uma olhadela descobre-lhe o revólver enfiado na calça. Que não deve estar descarregado a natureza lhe diz.
     Nós fizemos umas boas trapalhadas juntos,Zico, nós fizemos o diabo, tu não matiu, mas eu matei, tu me cobrindo. Se eu tivesse ido pro xadrez, tu também tinha ido, tu era meu cúmplice, cara.
     Tu era meu parceiro, minha sombra, meu compadre. Aí agora tô aqui eu, não é a polícia, sou eu pra te justiçar. Francisquinha, minha mulher, estava me traindo com tu, meu compadre, ela não me confessou, mas homem fareja, lê na alma dela, lá dentro. Tu não é casado, tu é amigado, porém tua rapariga, se ela te traísse, tu não precisava que ela abrisse a boca e te contasse pra tu saber, homem. Meu compadre,eu sou homem ferido e eu vim te lascar em banda, eu vim te foder a cartola, meu compadre, porém, eu queria antes que tu abrisse a boca e falasse, te destampasse e me confessasse a tua culpa. Fala, homem. Te abre, fiho-da-puta.
Zico tinha os olhos apontados pros olhos de Crispim. Assestados  contra eles. Te atreve, Crispim, diz pra dentro. Sente o sangue inchar-lhe o pescoço. Esse corno veio me matar, eu mato ele.
     Estuporado, Crispim saca o revólver. Vai puxar o gatilho, não tem tempo. Zico já o tinha acunhado na peixeira.

(Estórias gerais, Jaime Hipólito pág.33)



       

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Segunda-feira poética: Lésbia - Cruz e Souza

Lésbia. John Reinhard Weguelin
Lésbia
Cruz e Souza
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passe, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...

_______________________________________________________________________
João da Cruz e Sousa: Florianópolis 24.11.1861 — Minas Gerais,19.03.1898.
Era filho de escravos alforriados e foi criado por seus ex-patrões. Aprendeu Francês, Latim e Grego.
Pertence à escola simbolista assim como Alphosus Guimarães. O simbolismo tem como característica: métrica definida, desrespeito à gramática para não limitar o autor, linguagem pessimista, musical (verificar uso da aliteração) e fortemente emocional.
preocupação profunda com o "eu".

Obras de Cruz e Souza: Missal, Broquéis e Tropos e Fantasias (1893) - Póstumos:Faróis,1900; Últimos Sonetos, Poesias (1905)

Lésbia, o poema acima está no livro Broquéis. Clique aqui para saber sobre Lésbia.

sábado, 16 de julho de 2011

Os 10 mais vendidos da Flip 2011


valter hugo mãe , na flip 2011
Por causa de provas seguidas de uma forte gripe limitei minhas postagens e não cheguei a mencionar a FLIP - A Feira de Literatura de Paraty - 2011. Agora, sobrevivente de virus e de férias, vejo que uma Autor angolano ( a África apoderou-se da literatura lusa ) praticamente desconhecido no Brasil foi o dono da festa. E quem é este angolano que engrossa a fila africanos tão aplaudidos aqui?  valter hugo mãe.  Pensa que escrevi errado? nada! O autor escreve seu nome com letras minusculas. Façamos, então como ele e vamos saber porque valter foi o dono da festa.  O escritor arrebatou a plateia. Não parou por aí e foi o mais vendido...  O blog, vai resumir pra explicar porque eu preciso conhecer esse cara.

Os mais vendidos da Flip - 2011
A máquina de fazer espanhois,
Ed.Cosac Naify RS39,00




1 - A Máquina de Fazer Espanhóis - valter hugo mãe ( Angola)
2 - O Remorso de Baltazar Serapião - valter hugo mãe (Angola)
3 - Muito Além do Nosso Eu - Miguel Nicollis (Brasil)
4 - As Teorias Selvagens - Pola Oloxarac (Argentina)
5 - Os Delírios da Bicicleta - David Byrne (USA)
6 - Contra Um Mundo Melhor -Ensaios de afeto Luis Felipe Pondé (Brasil)
7 - Os Verbos Auxiliares do Coração - Péter Esterházy (Hungria)
8 - Se Eu Fechar Os Olhos Agora -Edney Silvestre (Brasil)
9 - A Travessia do Rio - Caryl Phillips (Caribe)
10-O Viajante do Século - Andrés Neuman

terça-feira, 12 de julho de 2011

Aniversariante da semana: Pablo Neruda

Pablo Neruda: Parral 12.06.1904-Santiago 23.09.1973
Meu primeiro poema
     Agora vou contar-lhes uma história de pássaros. No lago Budi, os cisnes eram perseguidos com ferocidade. Aproximavam-se deles sorrateiramente nos botes e, em seguida, rápido rapido, remavam...
Os cisnes, como o albstroz, devem correr patinando sobre a água,empreendendo dificilmente o vôo e levantando com dificuldade as grandes asas. Alcançados, eram exterminados a pauladas.
     Trouxeram-me um cisne meio morto. Era uma dessas aves maravilhosas que não voltei a ver no mundo: o cisne de pescoço negro,uma nave de neve com o pescoço esbelto como que metido em uma estreita meia de seda negra, o bico alaranjado e os olhos vermelhos.
     Isto foi perto do mar, em Porto Saavedra, Imperial do Sul.
     Entregaram-no a mim quase morto. Lavei suas feridas e lhe empurrei pedacinhos de pão e peixe pela garganta. Devolvia tudo.No entanto, foi se refazendo de seus ferimentos, começou a perceber que eu era seu amigo. E comecei a compreender que a nostalgia o matava. Então, carregando o pesado pássaro em meus braços pelas ruas, levei-o ao rio. Ele nadava um pouco, perto de mim.Eu queria que ele pescasse e lhe indicava as pedrinhas do fundo, das areias por onde deslizavam os peixes prateados do sul. Mas ele olhava a distância com olhos tristes.
     Assim, diariamente, por mais de vinte dias,levei-o ao rio e o trouxe à minha casa. O cisne era quase tão grande quanto eu. Uma tarde ficou mais alheio, nadou perto de mim, mas não se distraiu com os insetinhos com que eu queria  ensinar-lhe novamente a pescar. Ficou muito quieto e o tomei de novo nos braços para levá-lo à casa. Então, quando o tinha à altura do peito, senti que se desenrolava uma tira, algo como um braço negro que me roçasse o rosto. Era seu comprido e ondulante pescoço que caía. Assim aprendi que os cisnes não cantam quando morrem.
     
     O verão é abrasador em Cautín. Queima o céu e o trigo. A terra quer recuperar-se de sua letargia.
     As casas não estão preparadas  para o verão, como não estiveram para o inverno. Vou pelo campo e ando,ando. Perco-me no monte Ñielol. Estou só, tenho o bolso cheio de escaravelhos. Numa caixa levo uma aranha peluda recém-caçada. Não se vê o céu no alto. A selva está sempre úmida. Resvalo. De repente grita um pássaro: é o grito fantasmagórico do chucao. Sou trespassado por um arrepio. Apenas se destinguem os copihues como gotas de sangue. Sou somente um ser minúsculo debaixo dos fetos gigantes. Junto à minha boca voa uma torcaza  com um ruido seco de asas. Mais acima outros pássaros riem de mim com riso áspero. Encontro com dificuldade o caminho. Já é tarde.

Chucao
     Meu pai não chegou ainda.Chegará às três ou quatro horas da manhã. Subo ao meu quarto. Leio Salgari.A chuva desaba como uma catarata. Em um minuto a noite e a chuva cobrem o mundo. Ali estou só e em meu caderno de aritmética escrevo versos. Na manhã seguinte me levanto muito cedo. As ameixas estão verdes. Subo os montes. Levo um pacotinho com sal. Subo numa árvore, me instalo comodamente, mordo com cuidado uma ameixa e tiro dela um pedacinho, empapando-a com sal. Como até cem ameixas. Já sei que é damais.
     Incendiou-se nossa casa, notícia misteriosa. Subo a cerca e olho os vizinhos. Não há ninguém. Levanto alguns pedaços de pau. Nada mais que umas miseráveis aranhazinhas. No fundo do terreno está o reservado. As árvores junto dele têm lagartas. As emendoeiras mostram sua fruta forrada de felpa branca. Mantenho-os presos por um momento e os aproximo dos meus ouvidos. Que zumbido magnífico! 
     Que solidão a de um pequeno menino poeta, vestido de negro, na fronteira espaçosa e terrível.
     A vida e os livros pouco a pouco vão me deixando entreter mistérios esmagadores.
     Não poso esquecer do que lí essa noite: a fruta-pão salvou Sandokan e seus companheiros numa Malásia distante.
     Não gosto de Búfalo Bill porque mata os índios. Mas que bom cavaleiro! Que lindas as pradarias e as tendas cônicas dos peles-vermelhas.
     Muitas vezes me perguntaram quando escrevi meu primeiro poema, quando nasceu em mim a poesia.
     Tratarei de lembrar. Muito longe na minha infância e tendo apenas aprendido a escrever, senti uma vez uma intensa emoção e tracei algumas palavra semi-rimadas mas estranhas a mim, diferentes da linguagem diária. Passei a limpo num papel, preso de uma ansiedade profunda, de um sentimento até então desconhecido, espécie de angústia e tristeza. Era um poema dedicado à minha mãe, isto é, a que eu conheci como tal, a madrasta angelical, cuja sombra suave protegeu toda minha infância. Completamente incapaz de julgar minha primeira produção, levei-a a meus pais. Eles estavam na sala de jantar, mergulhados em uma dessas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo dos meninos e dos adultos. Desdobrei o papel com as linhas, trêmulo ainda com a primeira visita da inspiração. Meu pai, distraidamente, tomou-o em suas mãos, leu distraidamente e distraidamente mo devolveu, dizendo?
     - De onde o copiaste?  
     E continuou conversando em voz baixa com minha mãe seus assuntos importantes e remotos.
     Parece-me recordar que assim nasceu meu primeiro poema e que assim recebi minha primeira mostra distraída de crítica literária.
     Entretanto avançava no mundo do conhecimento, no desordenado rio de livros como um navegante solitário. Minha avidez de leitura não descansava de dia nem de noite. Na costa, no pequeno Porto Saavedra, encontrei uma biblioteca municipal e um velho poeta, Dom Augusto Winter, que se admirava de minha voracidade literária.
Torcaza, paloma torcaz.
     - Já os leu?, dizia, passando-me um novo Vargas Vila, um Ibsen,um Rocambole. Como um avestruz, eu tragava sem discriminar.
     Por esse tempo chegou a Temuco uma senhora alta, com vestidos muito compridos e sapatos de saltos baixos. Era a nova diretora do liceu de meninas. Vinha de nossa cidade austral, das neves de Magallanes. Chamava- se Gabriela Mistral.
     Eu a olhava passar pelas ruas do povoado com seus vestidões até os tornozelos e tinha medo dela. Mas quando me levaram para visitá-la, achei-a simpática. No rosto queimado em que o sangue índio predominava como um belo ântaro araucano, seus dentes branquíssimos mostravam-se num sorriso pleno  e generoso que iluminava a casa.
     Eu era jovem demais para ser seu amigo - e tímido e ensimesmado demais. Poucas vezes a vi - mas o bastante para cada vez sair com alguns livros que me presentava. Eram sempre novelas russas, que ela considerava como o máximo de literatura mundial. Posso dizer que Gabriela me iniciou nessa séria e terrível visão dos novelistas russos e que Tostói, Dostoiévski e Tchecov entraram na minha predileção mais profunda. Continuam me acompanhando.



(Confesso que Viví, pp 17 a 20- 3ª ed. 1974)
Fontes:wikipedia e www.eniltonamericasgrill.blogspot.com, www.fenix-under.blogspot.com

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Segunda-feira poética: Solidão, Mia Couto

Solidão
Mia Couto

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas

sábado, 9 de julho de 2011

Crônica cantada:Um Trem Para As Estrelas,Cazuza e Gilberto Gil


Um Trem Para As Estrelas
Cazuza e Gilberto Gil

São sete horas da manhã
Vejo o Cristo, da janela
O sol apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles têm
Nesse filme como extras
Todos querem se dar bem
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego
Estranho, teu Cristo, Rio
Que olha tão longe, além
Tem os braços sempre abertos
Mas sem proteger ninguém
Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Quarta-feira é dia de conto: Lixo lixado, Mia Couto

Lixo, Lixado
Mia Couto

Orolando Mapanga não tinha onde cair vivo? É a impura verdade. Dele se fica sabendo que não existe pobreza de espírito. O que há é miséria sem espírito. O caso sendo universátil merece as tantas linhas. Pois o que importa não é o acontecimento mas a gente que há no não.acontecer da vida. Lugar de viver de Orolando era na lixeira, lá no interior, primeira transversal, à direita. Com boas vistas para o mar, mesmo na vertente de um monte de desperdicio. Apanhando boa brisa, mau grado os péssimos odores. Ali ele despachava os seus afazeres. Ao fim da tarde, saía a procurar restos de comida, gordurazinhas, singelas putrefacções. Raspava o fundo das latas, auscultava o ventre dos sacos. Ao ler seu constante sorriso, dir-se-ia que a felicidade é coisa encontrável mesmo na imundície. Orolando bem que defendia as vantagens do lugar:
- Aqui não chega nenhum bandido.
Lugar seguro de viver, isso ele garantia. Sossegado, também. Só no fim da madrugada o silêncio se sujava com os camiões trazendo o lixo. Mas, para ele, aquele barulho era o anunciar da mantimentação. Nunca se aproximou dos camiões. Ele não queria mostrar a sua vivência a ninguém, chamar a inveja dos outros. Essa gente quer coisas completas, cheias. A mim me basta o bocadinho da metade era o pensar dele enquanto empurrava um velho carrinho de mão pelas ruelas da lixeira. Outra vantagem era a guerra morar longe. É verdade que ali sempre se escutavam disparos. Mas era coisa da distancia, lá no lugar dos citadinos. Certa noite, ao buscar adomercimento, Mapanga escutou um ronco.
- É um porco, isso.
Sabia, o campo lhe ensinara. Voz de bicho era sua sapiência. Pelo cantar de uma só galinha ela adivinhava o tamanho de toda a criação. Pelo balido do cabrito ele sabia a cor do bicho. Desta vez, porém, ao invés da doce lembrança dos campos, seus olhos se nevoaram de ódio. Afinal, havia outro ser disputando as sobras. E ali mesmo jurou morte ao intruso. Desde então se dedicou a perseguir o suíno. Saía manhã cedinho à procura dele. A lixeira nunca lhe parecera tão grande. Ele conhecia os recantos, os fedores, os charcos. Porém, não havia maneira. O bicho esburacava nos monturos, sacana, não ficava nem rasto do cheiro. Vantagem do porco é ter um focinho polivalente, dá para escavar também. Até que, numa madrugada, Orolando desapertou com um bafo que se despejava em seu rosto. Berrou, borrou-se.
- Maiuê, as hienas me comem o nariz!
Palpou o escuro, deu de mãos numa pele lisa, agarrou com força. Foi como se espremesse um saco cheio de gritos. Era o porco em aflição. Segurou a presa com força, que a bicheza é inteligente há muito mais tempo que os homens. Amarrou-lhe as pernas e ficou-se longo tempo a contemplar a berraria do prisioneiro. Primeiro, lhe chegou um sentimento que há muito tempo não experimentava. Ali estava um vencido implorando as clemencias. Gozou aquele poder, em desconhecimento fundo de sua alma. Afinal, agora ele era proprietário, não de restos mas de uma vida inteira e recheada. Enquanto matutinava este sentimento, de quando em quando, despachava uns pontapés no bicho. Nesse dia, nem saiu a procurar abastecimento. Só ficou ali, olhando o novo habitante, escolhendo o destino a lhe aplicar. Indecidia-se morte haveria de ser. Mas o porco merecia ser comido? Deixou o despacho para mais tarde aquela era sentença que não viria do pensamento. A noite chegou, cansada do seu trabalho na outra face do mundo. Orolando Mapanga anotou o frio, juntou velhos jornais à sua volta. Mas o cacimbo lhe trouxe arrepios, esgotados que estavam seus agasalhos. Então ele se chegou ao porco, abraçou-lhe como só merece uma mulher. E, aos poucos, se foi contagiando com o quentinho de uma outra vida. No seguinte dia, ele se polemicava mais vale a fome ou o calor de uma companhia? Pelo sim pelo talvez, decidiu adiar a sentença do bicho. E quando, entre os lixos, descobriu uma velha corda, lhe deu uso de trela e levou o suíno a passear. Mesma coisa os brancos fazem com os cães. O bicho de estimação mereceu até nome téksmanta. [Texmanta nome de uma fabrica textil em Moçambique] Agora, quem passar pela lixeira pode ver um porco, com dignidade canina, encaminhando seu dono pelos detritos, oferecendo seu faro para a escolha da migalhas da sobrevivência. Dizem o Mapanga se vai esquecendo da lingua humana, soletrando só a fonética do bicho. Afinal, vivendo na porcaria ele combina melhor com o idioma dos porcos é o parecer dos trabalhadores do lixo quando se despedem dos domínios de Orolando Mapanga. 


Veja obras de Mia Couto clicando aqui

Aniversariante da semana: Mia Couto, o biólogo escritor.

Mia Couto, um represente do realismo mágico na literatura  lusitana, nasceu na cidade de Beira em Moçambique em 5 julho. Iniciou-se na literatura publicando alguns poemas  no jornal Notícias da Beira. Por breve tempo foi estudante de medicina, abandonando o curso e trabalhando como jornalista na Tribuna da cidade de Maputo, capital de Moçambique. Ficou no jornal até ele se destruido. Trabalhou também nos jornais O Tempo e Notícias. Em 1983 publicou o primeiro livro: Raiz de Orvalho (poesias). Mia Couto, por formação biólogo, é um dos mais importantes escritores de seu país e também o mais traduzido. Tem narrativa peculiar e costuma tornar bem africana a língua portuguesa. Pessoalmente encontro toques de Guimarães Rosa no moçambicano Mia.
Livro de poesia:
Raizes de orvalho (reeditado em 2001)
Livros de contos:
Vozes Anoitecidas (1986)
Cada Homem é uma Raça (1990)
Estórias Abensonhadas (1994)
Contos do Nascer da Terra (1997)
Na Berma de Nenhuma Estrada (1999)
O Fio das Missangas (2003)
Livros de crônicas:
Cronicando (1988)
O País do Queixa Andar (2003)
Pensatempos. Textos de Opinião (2005)
E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções (2009)
Romances:
Terra Sonâmbula (1992)
A Varanda do Frangipani (1996)
Mar Me Quer (1998)
Vinte e Zinco (1999)
O Último Voo do Flamingo ( 2000)
O Gato e o Escuro,
Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra (2002) versão cinematográfica por:José Carlos Oliveira)
A Chuva Pasmada, (2004)
O Outro Pé da Sereia (2006)
O beijo da palavrinha, ( 2006)
Venenos de Deus, Remédios do Diabo (2008)
Jesusalém [Título no Brasil: Antes de nascer o mundo] (2009)

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Veja também Lixo, lixado - conto de Mia Couto publicado neste blog:
http://livroerrante.blogspot.com/2011/07/quarta-feira-e-dia-de-conto-lixo-lixado.html

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Segunda-feira poética: Plantio, Mário Chamie


PLANTIO
Mário Chamie


Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.


Sobre o autor:



Mário Chamie faleceu ontem, dia 3, aos 78 anos. Era secretário de cultura da cidade de São Paulo. Foi o criador da Pinacoteca Municipal,Museu da cidade de São Paulo e Centro Cultural São Paulo. Tem mais de uma centena de obras publicadas e traduzidas.
Nos anos 60 instaurou o "poema práxis" com o livro Lavra Lavra.
Poema práxis, é uma proposta de mostrar em poesia a prática da vida. É feito com uma apanhado de palavras dentro da semântica do tema que o autor escolhe.Os poetas práxis, achavam que a ideia do modernismo (semana de 22) havia chegado ao limite. Eles seriam o novo.  O poema acima é um dos mais fáceis exemplos de poema práxis: com palavras mostra um cotidiano da vida rural.
(Fontes:www.algumapoesia.com.br, wikipedia,Folha de São Paulo)