quarta-feira, 30 de março de 2011

Quarta-feira é dia de conto:O conto do sabio chinês - Raul Seixas


O Conto do Sábio Chinês
Raul Seixas
Era uma ve um sábio chinês
Que um dia sonhou
Que era uma borboleta
Voando nos campo
Pousando nas flores
Vivendo assim
Um lindo sonho...


Até que um dia acordou
E pro resto da vida
Uma dúvida
Lhe acompanhou...

Se ele era
Um sábio chinês
Que sonhou
Que era uma borboleta
Ou se era uma borboleta
Sonhando que era
Um sábio chinês...(2x)







segunda-feira, 28 de março de 2011

Hoje é dia de Mario Vargas Llosa

Padre Homero
MarioVargas Llosa



No sabemos si era uno o muchos.
Ni siquiera sabemos si existió
o lo inventamos
para dar un dueño y una leyenda
a los poemas que fundaron
el mundo en que vivimos.

 Las cuencas vacías de sus ojos
iluminan como dos soles
las aguas, las islas y las playas
del Mediterráneo.
Tampoco sabemos si las historias
que cantó tuvieron raíces
en la historia real
o fueron fantaseadas
por su imaginación incandescente.


Yo lo adivino como un
viejecito bondadoso
y excéntrico
divirtiendo a niños y ancianos
con fabulosas aventuras
de guerreros y monstruos
en una época inusitada
en que hombres y dioses
andaban entreverados
y las batallas se ganaban
con caballos de madera,
elíxires y magias.


Lo diviso entre sombras y
chisporroteo de fogatas, en
aldeas con olor
a vino y aceite,
pulsando su lira
acompañado por el murmullo del mar
y la resaca,
rodeado de caras expectantes.


Su fantasía y su verba
embellecían las anécdotas
que traían los marineros de sus viajes:
las canciones voluptuosas
de las sirenas,
los mordiscos de Escila
y los soplidos de Caribdis
que hundían a los veleros
y los náufragos que se tragaba
Polifemo.


En el corazón de sus mitos
palpitaban
las chismografías de los ancianos,
las endechas de las viudas y
las letanías de las madres
cuyos hijos raptaron
los piratas
para convertirlos en remeros.


Imagino su cabeza como
un volcán que crepita no lava
ni fuego
sino historias,
una sinfonía de heroísmos,
apariciones, pesadillas,
bravatas, amores, hechicerías
y fastuosas celebraciones
de dioses y diosas
con hombres y demonios.


Nadie sabía de dónde venía
ni adónde iba.
Sus barbas eran blancas y
sus ojos, antes de vaciarse,
habían sido azules.
Su túnica tenía mil
remiendos
y sus sandalias
tan gastadas
habían dado la vuelta al mundo
y al trasmundo.
El encanto de su voz
la suavidad de sus palabras
el color y la fosforescencia
con que narraba
daban a sus historias
la fuerza contagiosa
de la danza y la música,
esa estela que perseguía
a sus oyentes
en el sueño
y los incitaba a aprender sus versos
de memoria
a repetirlos
de padres a hijos
de pueblo en pueblo
y de siglo en siglo,
hasta nosotros.


Gracias, abuelo,
inventor del Occidente.
Qué pobre sería nuestra historia
sin tus historias,
qué mediocres
nuestros sueños
sin tus sueños.



Mário Vargas Llosa - entrevista com


Entrevista com Mário Vargas Llosa
Aos interessados avisa-se: Mario Vargas Llosa mudou-se temporariamente para a sala de aula. Mal desfez a bagagem que levou para Nova York, onde residirá nos próximos meses em companhia da mulher, Patricia, e já se apresentou aos alunos da Universidade de Princeton, abrindo o ano letivo como professor-convidado de dois cursos: um sobre técnicas do romance, outro sobre Jorge Luis Borges, uma das suas mais intensas predileções literárias, por quem admite nutrir "paixão secreta e pecaminosa". Aos 74 anos, Vargas Llosa parece animado com a convocação acadêmica, uma dentre as várias que já cumpriu tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Pondera que a rotina de professor pesa pela burocracia dos departamentos, mas que debater, debater e debater com alunos está entre as boas coisas da vida. A rapaziada de Princeton não perde por esperar: vai acabar entendendo por que Borges, criticado por certo "europeísmo", foi tão profundamente argentino. E quem sabe descobrirá por que o texto borgiano pode ser reconhecido de ouvido, como costuma frisar o professor recém-instalado no câmpus.


Sabres e Utopias reúne textos que tratam de política, de América Latina e, é claro, de literatura.Mas se esses alunos quiserem mesmo conhecer a fundo o pensamento do novo mestre, deveriam ler um volume que chega nesta segunda-feira às livrarias brasileiras, lançado pela editora Objetiva. Trata-se de Sabres e Utopias - Visões da América Latina, seleção de ensaios, artigos e documentos organizada pelo colombiano Carlos Granés, doutor em Antropologia Social e expert na obra de Vargas Llosa. Em cinco grandes capítulos, Granés aglutina textos de modo a percorrer o itinerário intelectual (e político) deste peruano considerado um dos grandes escritores de língua espanhola, agraciado com prêmios literários importantes, entre eles, Cervantes, Príncipe de Asturias, PEN/Nabokov, Cavour, e também colaborador do Estado.
 A amarração da obra pelo organizador tornou-se firme a ponto de prescindir do ordenamento cronológico. "Nada tenho a ver com a seleção dos meus textos em Sabres e Utopias", reconhece Vargas Llosa nesta entrevista concedida por telefone, de Nova York. "Mas as escolhas foram muito bem-feitas, posso assegurar." Assim, ao rever escritos produzidos ao longo de décadas, parte deles publicada em periódicos, tem-se o retrato do intelectual que se desencanta com a esquerda latino-americana, cria ojeriza aos regimes totalitários, torna-se defensor intransigente da liberdade de pensamento e expressão, converte-se ao liberalismo econômico e, amando e odiando seu país de origem, assume que "ser peruano é doença incurável".

Quando se tem oportunidade de comparar o texto de Vargas Llosa com a prosa solta, ao vivo, ainda que numa conversa telefônica, não fica difícil perceber que o primeiro é sempre mais afiado. Na entrevista que se segue, o autor de clássicos como Conversa na Catedral, Pantaleão e as Visitadoras ou Tia Júlia e o Escrevinhador é capaz de zombar de si mesmo como político profissional - "nunca foi minha vocação", admite - e nem vocifera ao criticar o que chama de regimes liberticidas - "estou esperançoso, a ditadura castrista está dando seus últimos bocejos. Dura enquanto Fidel durar", calcula. Demonstra tranquilidade em relação ao triunfo da democracia, como uma espécie de destino inescapável, e parece não se incomodar com as críticas que lhe fazem setores da intelligentsia latino-americana e mesmo europeia: "Uma coisa que a esquerda sabe fazer bem é satanizar adversários." Para os próximos meses aguarda-se o novo romance de Vargas Llosa, O Sonho do Celta, baseado na vida do diplomata irlandês Roger Casement, tendo a Amazônia do ciclo da borracha como um dos cenários da narrativa. Por fim, fiquem também avisados os alunos de Princeton: no próximo dia 14, Vargas Llosa não vai dar aulas. Estará em Porto Alegre, apresentando-se como palestrante da série Fronteiras do Pensamento.

Estadão:Em Sabres e Utopias, ensaios, artigos e documentos são dispostos fora de ordem cronológica, segundo critérios de importância fixados pelo organizador do livro, expert em sua obra. Há um ensaio no início, chamado Um País de Mil Faces, que revela a sua relação com o Peru, algo que o explica como escritor.

Llosa:Sim, é um pequeno ensaio sobre a diversidade peruana. O país onde nasci pode ser tomado como uma espécie de síntese do mundo pela incrível variedade de tradições que o formam. Há o país pré-hispânico, que se perpetua nos milhões de peruanos de origem indígena, há o país europeu, de tantos milhões de origem hispânica e de outras nacionalidades, há o país também africano, dos negros que chegaram com os espanhóis há cinco séculos, há o país dos japoneses e chineses, integrados a essa diversidade desde o final do século 19, e, felizmente, há um processo de mestiçagem grande. Eis a grande fortuna do Peru: ser uma espécie de protótipo do mundo, com pontes para diversas culturas e crenças.

Estadão:Neste ensaio específico, é curioso quando o senhor fala dos "homens-formigas", herdeiros dos incas, que seriam a explicação para certa tendência à burocracia no seu país.


Llosa:O império inca foi uma realização assombrosa, ergueu cidades, fortalezas, templos, com extraordinária criatividade. E também gerou uma organização formidável que, segundo historiadores, dava de comer a todos os habitantes. Não se morria de fome no império inca. Mas, para isso, fez-se uma sociedade burocrática, vertical, autoritária, na qual o Estado dominador tomava sob sua responsabilidade o indivíduo, desde o nascimento até a morte. Então as pessoas careciam de iniciativa e liberdade. Essa é uma das razões pelas quais esse império acabou sendo destruído por uma minoria de conquistadores. Porque esses, ao decapitarem os chefes indígenas, fizeram desabar todo o edifício inca. A nossa modernidade guarda sequelas desse passado, como o tão característico espírito burocrático e a crença de que o Estado tem que resolver todos os problemas, não é verdade? Só que a tradição gregária e coletivista do indivíduo deprimido pelo Estado vai mais além e acaba por gerar um fenômeno duplo, pois tem a ver com as civilizações pré-hispânicas e também com a formação de colônias subordinadas a impérios autoritários, caso de Portugal e Espanha.

Estadão:Por que o senhor se refere ao Peru como uma "enfermidade incurável" em sua vida?

Llosa:Posso usar esta metáfora porque tenho um espírito atento e crítico em relação a meu país. É uma realidade sempre presente em minha vida, apesar de ter vivido desde cedo em outros lugares. Ainda hoje passo meses por ano fora do Peru, mas sem dúvida os problemas do país me afetam e sempre estou intervindo nos debates por lá. Há uma ligação permanente.

Estadão:Há 20 anos o senhor se candidatava à Presidência do Peru. Perdeu para Alberto Fujimori e saiu da vida política. Essa experiência lhe deixou traumas?


Llosa:Sempre participei da política como intelectual interessado no confronto das ideias, nunca me imaginei assumindo cargos, definitivamente não era minha vocação. Mas resolvi participar do jogo político num momento muito particular do país, em que havia uma situação econômica crítica, um processo hiperinflacionário que destruía os salários, um populismo que fazia com que o Peru fosse olhado com desconfiança pela comunidade internacional, quando os níveis de vida despencavam... e havia a violência social desencadeada pelo terrorismo, com Sendero Luminoso, Tupac Amaru e outras organizações radicais. Enfim, senti que nossa débil democracia poderia desaparecer, por isso resolvi me candidatar. Além disso, eu realmente acreditava haver um clima favorável para as reformas liberais e democráticas que me dispunha a fazer. Foi uma experiência instrutiva e ingrata, também, pela grande violência que a acompanhou... o saldo foi reconhecer que sou completamente incompetente como político profissional (risos).
Estadão:Borges disse que a "política é uma das faces do tédio". Passou a concordar com ele?

Llosa:Sim, Borges dizia isso. Mas não podemos prescindir da política. E nem tente fechar as portas para ela, pois irá vê-la entrando pelas janelas. Por isso, continuo disposto a participar, batalhar por melhoria social, por uma vida cultural mais plena, fortalecer a democracia e afastar qualquer hipótese de retorno às ditaduras do passado.


Estadão:Tem-se a impressão de que os intelectuais latino-americanos andam emudecidos, talvez até desviando de certos debates.


Llosa:Em nosso continente, a intelectualidade ainda está ligada a um monopólio cultural da esquerda, que por sua vez está a exibir duas faces. Pela primeira vez, há uma esquerda que chega ao poder em alguns países da região demonstrando ter aprendido boas lições ao renunciar à violência e abraçar a democracia, ao aceitar o livre mercado e respeitar a empresa privada, ao entender que o estatismo leva ao fracasso econômico, que por sua vez leva à pobreza. Isso ocorreu no Chile, com a Concertação, no Brasil com Lula, no Uruguai, curiosamente com um governo que vem de uma esquerda revolucionária. Sem dúvida, essa esquerda democrática deve ser bem-vinda, assim como deve ser bem-vinda uma direita democrática. Mas há também uma esquerda pouco ou nada democrática, como a que vemos em Cuba ou Venezuela. Veja como os venezuelanos acabam de impor um revés eleitoral a Hugo Chávez, pois já existe uma maioria que não se convence com o discurso do "socialismo século 21". Essa esquerda também está presente na Nicarágua, no Equador, sem falar do caso particular e trágico da Argentina, nas mãos de um casal demagogo e de uma turma com um prontuário dos piores. Como se pode eleger gente assim? Como se pode dar crédito a partidos e facções com entusiasmos de golpismo? Ora, os intelectuais têm medo de se manifestar livremente sobre isso, de serem desacreditados e atacados. Inclusive uma coisa que a esquerda sabe como fazer é satanizar o adversário. Diante disso, intelectuais constrangidos estão no máximo invocando cartas de correção política e usando os clichês de sempre. Porque assim são poupados e terão uma vida mais fácil.


Estadão:O artigo intitulado Lula e os Castro, de maio de 2010, abre em Sabres e Utopias uma sequência de textos sobre Cuba, mostrando seu afastamento do regime castrista a partir do início dos anos 70. Mas no artigo em questão, o senhor manifesta indignação pelo fato do presidente brasileiro ter ido saudar Fidel e Raúl em Havana, no mesmo dia em que se enterrava o pedreiro Orlando Zapata Tamayo, dissidente do regime. São linhas bastante duras contra o líder de esquerda que o senhor imagina ter se tornado democrata.


Llosa:O presidente Lula evoluiu ao longo do tempo e isso foi muito benéfico para o Brasil. Ele hoje crê na democracia, no mercado, na iniciativa privada. Mas ele também tem sido muito contraditório, basta ver sua política externa. Um defensor da democracia não pode abraçar Fidel Castro nem os governantes do Irã, que representam uma ditadura teocrática. Esses abraços acabam legitimando regimes que são uma vergonha do ponto de vista político e moral. Essa contradição de Lula me parece lamentável. Então tive que externar meu protesto.


Estadão:Quando o senhor escreveu a famosa carta para Fidel, em 1971, protestando pela autocrítica forçada do poeta cubano Heberto Padilla, conseguiu adesão imediata de assinaturas famosas: Sartre, Simone de Beauvoir, Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino, Alain Resnais, Jorge Semprún, Susan Sontag, Maurice Nadeau, Alberto Moravia e outros. Hoje adesão em tal grau não acontece.


Llosa:Muitos outros intelectuais de peso assinaram aquela carta... Mas foi um momento de ruptura de parte da intelectualidade de esquerda com o regime cubano. Foi como se disséssemos: "Até aqui chegamos e não vamos seguir dando apoio." Muitos dos signatários conheceram Padilla pessoalmente. Sabíamos que era absurdo acusá-lo de revolucionário e agente da CIA, justamente ele que havia estado com a revolução desde os primeiros momentos, inclusive tendo parado de escrever sua poesia para trabalhar para o regime. Agia como funcionário fiel e as críticas que ousava fazer não eram contra o socialismo. Era contra o que acreditava ser uma deformação do socialismo. Por isso foi preso, caluniado, insultado. Aquilo foi um turning point. Muitos de nós nos despedimos da aventura revolucionária, que manteve a seu lado os mais dogmáticos e servis.


Estadão:O que pensa de escritores como a cubana Yoani Sánchez, autora de um blog lido no mundo inteiro?


Llosa:Os dissidentes de hoje são gente muito valorosa e sempre que posso lhes manifesto meu apoio. Porque ser dissidente em Cuba requer coragem e um espírito de sacrifício extraordinário diante do peso brutal do regime. Os intelectuais de lá têm muita dificuldade para se expressar. Veja o caso emblemático do escritor, poeta e ensaísta Lezama Lima. Ele foi muito perseguido e só quando morreu, em 1976, os dirigentes revolucionários se deram conta de quão respeitado ele era mundo afora.


Estadão:O senhor o conheceu pessoalmente?


Llosa:Sim, estivemos juntos várias vezes em Cuba. Eu me lembro perfeitamente de nosso último encontro, creio que foi em 1969. Fui convidado pelo escritor chileno Jorge Edwards, que era embaixador em Havana, para almoçar com ele e Lezama em um daqueles restaurantes bons a que só a nomenclatura tinha acesso. Foi um encontro memorável. No fim, o poeta se despediu de mim com um longo e intenso aperto de mãos, e me perguntou: "Você se deu conta do país em que estou vivendo?" E eu respondi: "Sim, claro, me dei conta." E ele repetiu a pergunta: "Você se deu conta?" Minha última recordação de Lezama são essas frases, ditas com muita tristeza. Nunca mais nos vimos. Terrível, não? Era um homem extraordinário, que apenas uma vez na vida conseguiu sair de Cuba, creio eu, mas atravessava o mundo com sua literatura barroca, sua cultura e sofisticação.

Estadão:O senhor agora está em Princeton ensinando Borges, o mestre argentino que teria sido responsável por resolver o complexo de inferioridade dos escritores latino-americanos, pelo que está escrito em Sabres e Utopias.


Llosa:Sem dúvida. De alguma maneira Borges estimulou os escritores latino-americanos a serem cidadãos do mundo, a se moverem sem complexo de inferioridade por todas as avenidas da cultura, por todas as tradições e todas as épocas. Provou que um escritor do nosso continente pode dizer coisas originais sobre Shakespeare, Molière, Stevenson, Chesterton, tendo uma visão universal. Isso nos ajudou a romper o nosso cárcere provinciano.


Estadão:Diria que esta universalização está consolidada em nossa literatura?


Llosa:Acredito que sim. As novas gerações não são nada provincianas, podem até escrever sobre seus países, mas sem uma cabeça localista ou apenas se valendo de explorar o pitoresco. Esta é a minha explicação para a difusão internacional da literatura latino-americana hoje, algo que simplesmente não existia tempos atrás. Escritores como o próprio Lezama Lima, Jorge Luis Borges, Octavio Paz ou Guimarães Rosa foram decisivos para essa abertura. Rosa sabia falar não sei quantos idiomas, havia lido toda a literatura moderna e, na hora de escrever, valia-se de perspectiva e técnicas universais, mesmo tratando de coisas da terra. Essa abertura para o mundo justificaria o reconhecimento atual, e póstumo, da obra do chileno Roberto Bolaños. Muito mais jovem que Borges ou Lezama, Bolaños teve essa mesma atitude: nasceu no Chile, mas viveu no México e na Espanha, com uma cabeça universalista, sem abandonar as origens. Sua visão não está delimitada por fronteiras nacionais.


Estadão:E a distinção que se fazia em décadas passadas, especialmente na América Latina, entre realismo e realismo fantástico? Está superada? O senhor mesmo sempre fez questão de dizer que jamais acreditou em fantasmas.


Llosa:Essa distinção se eclipsou nos últimos tempos, porque há escritores que hoje conseguem praticar os dois tipos de literatura. Diria mais: hoje em dia, escritores que foram fortemente influenciados pelo realismo mágico de García Márquez, que teve sua importância, estão de regresso à vertente realista. Porque, na verdade, o realismo recuperou um dinamismo que em dado momento esteve perdido frente à literatura fantástica. Chegamos finalmente a um realismo mais ambicioso, que até pode deixar margem para a magia, por que não? Isso tudo é matéria do meu curso sobre as técnicas do romance, em que procuro demonstrar, sempre me valendo de autores de língua espanhola, que novela acima de tudo é forma. Não é tema, mas o tratamento do tema. Daí me ponho a falar sobre tipos de narrador, maneiras de organizar o tempo, formas de linguagem, enfim, trato de aspectos que fundamentalmente podem determinar o êxito ou o fracasso de um romance. Estou convencido de que talento é disciplina, requer conhecimento técnico e formal.


Estadão:Falemos do novo romance, O Sonho do Celta, a ser lançado em breve. Como descobriu seu personagem, o diplomata britânico Roger Casement, que morreu em 1916?


Llosa:Eu o descobri lendo o escritor Joseph Conrad (1857-1924). Casement havia sido a primeira pessoa que Conrad conheceu no Congo, quando lá esteve em missão naval, como capitão de um barco. Ficaram amigos e Casement, que já estava servindo havia oito anos naquele lugar, abriu os olhos de Conrad para a tragédia humana que se passava por lá - as atrocidades que se cometiam, a falta de respeito pela vida naquelas comunidades miseráveis, o trabalho duro em áreas de exploração da borracha. Então foi graças a Casement que Conrad escreveu sua obra-prima, O Coração das Trevas. Quanto a mim, ao ler Conrad cheguei a Casement, um personagem pronto para o romance.


Estadão:Casement também viveu no Brasil, não?


Llosa:Depois de passar anos no Congo, documentando aquela exploração toda, Casement acabou viajando para o Brasil. Na verdade, recebeu a missão de investigar e reportar para o governo britânico o trabalho desumano que se impunha aos indígenas na região amazônica como um todo, isso também no tempo do caucho, da extração da borracha. Portanto, ele andou pelo Peru, pela Colômbia e pelo Brasil, inclusive tendo sido cônsul britânico no Rio de Janeiro. E o informe que ele faz e despacha para a Inglaterra era absolutamente extraordinário: duro, crítico, retrato fiel do que se passava, reforçando a campanha que ele próprio já vinha fazendo na Europa contra a escravização nas comunidades africanas, a exploração humana diante da presença de uma cultura ‘superior’, muito poderosa. Casement foi um dos primeiros europeus a denunciar esse estado de coisas, a romper o mito de que o colonialismo é o caminho para a civilização e também para a cristianização. Ao mesmo tempo, ele secretamente colaborava com ativistas irlandeses, chegando a participar de um acordo com a Alemanha, na época da 1.ª Guerra, para justamente ajudar a Irlanda a buscar sua independência. Foi preso pelos ingleses, julgado como traidor e sentenciado à forca.


Estadão:Sem dúvida, um personagem fascinante. Quanto há de história e o quanto há de ficção em O Sonho do Celta?


Llosa:E veja que só lhe dei alguns alinhamentos de uma vida intensa, sutil, contraditória... Meu livro é um romance, uma ficção. Tomo como ponto de partida uma figura histórica, com uma biografia tão rica em experiências, e a trato com total liberdade. Como fiz, por exemplo, em A Guerra do Fim do Mundo, em torno de Canudos. Posso dizer que os dois livros, O Sonho do Celta e A Guerra do Fim do Mundo, resultam muito diferentes, mas, ao tomar a história como matéria-prima para a ficção, eu poderia dizer que o procedimento é o mesmo. Ou seja, usar a história, mas também usar a fantasia e a imaginação para ficcionar.

Estadão:Este seu novo livro o coloca de regresso ao mundo amazônico. Mas terá sido a primeira vez que incursiona pela África, certo?


Llosa:Exatamente, foi a primeira vez que eu ‘entrei’ na África. Como também foi a primeira vez que me aventurei pela Irlanda, uma realidade que só conhecia de longe, portanto, precisei enfiar-me em sua história, percorrê-la, visitar sua gente. Gosto muito da ideia de que a aventura de um novo romance seja também uma aventura pessoal para mim.

Sabres e Utopias - Visões da América Latina - Autor: Mario Vargas Llosa. Tradutor: Bernardo Ajzenberg. Editora: Objetiva (432 págs., R$ 49,90)


Leia trechos do livro:

"Construiu um romance ambíguo, múltiplo, destinado a durar muito tempo, dificilmente apreensível em sua totalidade, enganoso e fascinante como a vida imediata, profundo e inesgotável como a realidade."

 
"Nenhum escritor moderno de nossa língua, com exceção, talvez, do inventor de Macondo, criou mitologia urbana com tanta força e cores como esse cubano (...) disposto a ganhar todos os inimigos da Terra."

"Quando eu era jovem, brincava com um amigo tentando adivinhar quais escritores do nosso tempo iriam para o céu. Fazíamos listas restritas (...) Na minha relação, e isso de há muito, resta só um nome."

 
"Era um homem eminentemente privado, com um mundo interior construído e preservado como uma obra de arte à qual só Aurora provavelmente tinha acesso, e para quem nada, a não ser a literatura, parecia importar."

Entrevista concedida a Laura Greenhalgh -
Publicada nO Estado de S. Paulo em 2.10.2010

Aniversariante do dia: Mário Vargas Llosa

Hoje meu escritor do coração completa 75 anos, dando um banho de lucidez, capacidade crítica, habilidade literária e, por que não dizer? de charme.

De verdade mesmo quem deveria ser parabenizado era o público de Mario Vargas Llosa, pela sorte que tem de poder ler tanta coisa boa. Mas como hoje é dia dele e não nosso, aplaudo o escritor.  


Poema Para a Exorcista



A minha vida aparece sem condão e
monótona
aos que me vêem
no trabalho árduo da oficina
em manhãs apuradas.
A verdade é muito distinta.
Cada noite eu saio e discuto
contra um espírito malévolo
que, se valendo de
máscaras - cão, grilo,
nuvem, chuva, vagabundo,
ladrão - trata de
se infiltrar na cidade
para estragar a vida humana
semeando
a discórdia.
Apesar dos seus disfarces
sempre a descubro
e a espanto.
Nunca conseguiu enganar-me
nem vencer-me.
Graças a mim, nesta cidade
ainda é possível
a felicidade.
Mas os combates noturnos
deixam-me exausta e ferida.
E para compensar a minha
guerra contra o inimigo,
peço uns restos
de afeto e de amizade.


Mario Vargas Llosa
versão de Pedro Calouste




quarta-feira, 23 de março de 2011

Estadão censurado há 600 dias


Estadão censurado há 600 dias

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Prêmio Jabuti: novo formato para 2011

Nesta edição de 2011 o Prêmio Jabuti será entregue unicamente aos primeiros colocados. Até o ano passado os livros passavam por duas etapas: na primeiram eram escolhidos os 3 vencedores dos gêneros, romance, contos etc numa segunda etapa um outro grupo de pessoas formava novo juri e escolhia os primeiros colocados para ficção e não ficção. No modelo antigo, o vencedor categoria Romance, Edney Silvestre, perdeu para Chico Buarque que havia obtido o segundo lugar também em romance. Ou seja: Leite Derramado (segundo lugar)ganhou de Se Eu Fechar Os Olhos Agora (primeiro lugar),ambos romances.

A Câmara Brasileira do Livro informou que havará apenas um ganhador em cada categoria.O curador do mais tradicional prêmio literário do Brasil José Luiz Goldfarb,curador do mais tradicional prêmio literário do país, declarou que o novo formato dará mais prestígio aos vencedores e devolverá credibilidade ao Prêmio Jabuti que existe há 53 anos.

Venceu o bom senso, portanto.

Quarta-feira é dia de conto: Moacyr Scliar

De Volta ao Primeiro Beijo
Moacyr Scliar 

"O primeiro beijo é uma coisa muito falada. Sem dúvida é uma experiência muito marcante, inesquecível. O primeiro beijo é uma maturação, uma descoberta. Ao mesmo tempo, para alguns, ele pode ser um monstro assustador", diz o cineasta Esmir Filho, diretor de "Saliva". O filme conta como Marina, uma garota de 12 anos, é pressionada a dar o seu primeiro beijo no experiente Gustavo.


TINHA ACABADO de ler a matéria sobre o primeiro beijo, no pequeno apartamento em que morava desde que ficara viúvo, anos antes, quando (coincidência impressionante, concluiria depois) o telefone tocou. Era uma mulher, de voz fraca e rouca, que ele de início não identificou: - Aqui fala a Marília -disse a voz. Deus, a Marília! A sua primeira namorada, a garota que ele beijara (o primeiro beijo de sua vida) décadas antes! De imediato recordou a garota simpática, sorridente, com quem passeava de mãos dadas. Nunca mais a vira, ainda que freqüentemente a recordasse -e agora, ela lhe ligava. Como que adivinhando o pensamento dele, ela explicou: - Estou no hospital, Sérgio. Com uma doença grave... E queria ver você. Pode ser? - Claro -apressou-se ele a dizer- eu vou aí agora mesmo. Anotou rapidamente o endereço, vestiu o casaco, saiu, tomou um táxi. No caminho foi evocando aquele namoro, que infelizmente não durara muito tempo -o pai dela, militar, havia sido transferido para o Norte, com o que perdido o contato -mas que o marcara profundamente. Nunca a esquecera, ainda que depois tivesse beijado várias outras moças, uma das quais se tornara a sua companheira de toda a vida, mãe de seus três filhos, avó de seus cinco netos. E não a esquecera por causa daquele primeiro beijo, tão desajeitado quanto ardente.


Chegando ao hospital foi direto ao quarto. Bateu; uma moça abriu-lhe a porta, e era igual à Marília: sua filha. Ele entrou e ali estava ela, sua primeira namorada. Quase não a reconheceu. Envelhecida, devastada pela doença, ela mal lembrava a garota sorridente que ele conhecera. Consternado, aproximou-se, sentou-se junto ao leito. A filha disse que os deixaria a sós: precisava falar com o médico.


Olharam-se, Sérgio e Marília, ele com lágrimas correndo pelo rosto. - Você sabe por que chamei você aqui? -perguntou ela, com esforço. - Porque nunca esqueci você, Sérgio. E nunca esqueci o nosso primeiro beijo, lembra? Na porta da minha casa, depois do cinema... - Claro que lembro, Marília. Eu também nunca esqueci você... - Pois eu queria, Sérgio... Eu queria muito... Que você me beijasse de novo. Você sabe, os médicos não me deram muito tempo... E eu queria levar comigo esta recordação...


Ele levantou-se, aproximou-se dela, beijou os lábios fanados. E aí, como por milagre, o tempo voltou atrás e de repente eles eram os jovenzinhos de décadas antes, beijando-se à porta da casa dela. Mas a emoção era demais para ele: pediu desculpas, tinha de ir. A filha, parada à porta do quarto, agradeceu-lhe: você fez um grande bem à minha mãe. E acrescentou, esperançosa: - Acho que ela agora vai melhorar. Não melhorou. Na semana seguinte, Sérgio viu no jornal o convite para o enterro. Mas, ao contrário do que poderia esperar, apenas sorriu. Tinha descoberto que o primeiro beijo dura para sempre. Ou pelo menos assim queria acreditar.
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Hoje seria aniversário de Moacyr Scliar

terça-feira, 22 de março de 2011

Horóscopo poético: Aries - 22 de março a 21 de Abril





ÁRIES
Vinicius de Moraes

Branca, preta ou amarela
A ariana zela.

Tem caráter dominador
Mas pode ser convencida
E, aí, então, fica uma flor:
Cordata... e nada convencida.

Porque o seu denominador
É o amor.
Eu cá por mim não tenho nenhum
preconceito racial:
Mas sou ariano!


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Meu abraço aos meus arianos queridos: Aldo, Leda e Diogo

segunda-feira, 21 de março de 2011

Segunda-feira poética:Poema em Linha Reta - Álvaro de Campos



Poema em Linha Reta
Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

domingo, 20 de março de 2011

Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco

Obras que perpetuam a memória cultural e democratizam a informação, os livros são meio de comunicação importante na formação do indivíduo. Por meio deles, é também desenvolvida a capacidade crítica e criativa. Com acervo de cerca de 263 mil exemplares, a Biblioteca Pública do Estado cumpre bem essa função, guardando tesouros antigos e atuais, disponíveis a quem interessar.


A localização geográfica privilegiada, em frente ao Parque 13 de maio, no Centro do Recife, é um facilitador para o acesso de visitantes, cuja maioria é de estudantes. O acervo está disponibilizado em seções nos três pisos da biblioteca.

Literatura nacional e internacional, gibis, livros didáticos, lançamentos recentes ou de edições limitadas, manuscritos, textos em Braille e coleção pernambucana são encontrados no espaço. Quem quiser adentrar pelo mundo das letras vai encontrar na biblioteca acervo diversificado, que vão de obras populares e best sellers até raridades nacionais e internacionais.

O material chega a atrair públicos assíduos. Pesquisadores e estudantes compõem a maior parcela. Há pelo menos cinco anos, o professor de Arte-educação Eisenhower Honório, 40, frequenta a biblioteca pública. "Venho duas vezes por semana para pesquisar sobre minha área e também ler jornais. Chego a passar até três horas aqui". Para ele, compensa o deslocamento que faz do bairro de Boa Viagem ao centro para consultar o acervo.

Disponível para empréstimos, no térreo, está uma coleção de obras nacionais e estrangeiras, da qual a maioria é de literatura. Títulos cuja permanência é variável, dependendo da demanda do público. Lá, podem ser encontrados exemplares de literatura latina, sendo a maior parte portuguesa, além de obras de escritores ingleses, árabes, turcos, asiáticos e australianos traduzidos para o português.

No setor de leitura destinado ao público infanto-juvenil, os livros mais procurados são os dos escritores Pedro Bandeira, Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e Ziraldo. Aproximadamente 15 mil títulos compõem esse acervo, que inclui também dicionários e enciclopédias. Autores pernambucanos, como Paulo Caldas, Ronaldo Brito e Socorro Miranda também ganham espaço nas prateleiras, contribuindo na formação dos pequenos.

Os três livros mais procurados são:
As Crônicas de Nárnia - C.S.Lewis
O Último Templário - Raymond Khoury
O Doce Veneno do Escorpião -Bruna Surfistinha

(Do Jornal do Commércio- Recife, 19.03.2011)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Estou na Estante virtual

Cadernos de Lanzarote de José Saramago



e mais outros livros de autores e gêneros diversos estão à venda na estante virtual o maior sebo pela internet do Brasil. Clique aqui e vá direto para meu acervo.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cordel para quem tem bom gosto

Josué Gançalves de Araujo reconta O Gato de Botas e Os 10 Mandamentos. Mas faz isso na forma ágil e deliciosa do Cordel.
Os dois livros recentemente lançados
são a afirmação de que o gênero se presta para a maioria das histórias e que o autor está definitivamente adaptado
 à literatura de cordel.
Parabéns Josué

Para adquirir os livros: www.editoraluzeiro.com.br
Ou: R. Dr. Nogueira Martins 538 Saude - SP
Fones: (11) 5585 1800 -5589 4342

terça-feira, 15 de março de 2011

Lenda de Eros e Psiquê


William-Adolf  Bouguerou,
1825-1905
França
 Psique era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto e era extremamente bela. Sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões iam admirá-la, assombrados, rendendo-lhe homenagens que só eram devidas à própria Afrodite. ***
 Profundamente ofendida e enciumada, Afrodite enviou seu filho, Eros, para fazê-la apaixonar-se pelo homem mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua beleza, Eros apaixonou-se profundamente.O pai de Psique, suspeitando que, inadvertidamente, havia ofendido os deuses, resolveu consultar o oráculo de Apolo, pois suas outras filhas encontraram maridos e, no entanto, Psique permanecia sozinha. Através desse oráculo, o próprio Eros ordenou ao rei que enviasse sua filha ao topo de uma solitária montanha, onde seria desposada por uma terrível serpente. A jovem aterrorizada foi levada ao pé do monte e abandonada por seu pesarosos parentes e amigos. Conformada com seu destino, Psique foi tomada por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil de Zéfiro a um lindo vale.Quando acordou, caminhou por entre as flores, até chegar a um castelo magnífico. Notou que lá deveria ser a morada de um deus, tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes. Tomando coragem, entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz. ***
Chegando a escuridão, foi conduzida pelos criados a um quarto de dormir. Certa de ali encontraria finalmente o seu terrível esposo, começou a tremer quando sentiu que alguém entrara no quarto. No entanto, uma voz maravilhosa a acalmou. Logo em seguida, sentiu mãos humanas acariciarem seu corpo. A esse amante misterioso, ela se entregou.. Quando acordou, já havia chegado o dia e seu amante havia desaparecido. Porém essa mesma cena se repetiu por diversas noites.***
Enquanto isso, suas irmãs continuava a sua procura, mas seu esposo misterioso a alertou para não responder aos seus chamados. Psique sentindo-se solitária em seu castelo-prisão, implorava ao seu amante para deixá-la ver suas irmãs. Finalmente, ele aceitou, mas impôs a condição que, não importando o que suas irmãs dissessem, ela nunca tentaria conhecer sua verdadeira identidade. Quando suas irmãs entraram no castelo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, foram tomadas de inveja. Notando que o esposo de Psique nunca aparecia, perguntaram maliciosamente sobre sua identidade. Embora advertida por seu esposo, Psique viu a dúvida e a curiosidade tomarem conta de seu ser, aguçadas pelos comentários de suas irmãs.***
Seu esposo alertou-a que suas irmãs estavam tentando fazer com que ela olhasse seu rosto, mas se assim ela fizesse, ela nunca mais o veria novamente. Além disso, ele contou-lhe que ela estava grávida e se ela conseguisse manter o segredo ele seria divino, porém se ela falhasse, ele seria mortal.***
Ao receber novamente suas irmãs, Psique contou-lhes que estava grávida, e que sua criança seria de origem divina. Suas irmãs ficaram ainda mais enciumadas com sua situação, pois além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um lindo deus. Assim, trataram de convencer a jovem a olhar a identidade do esposo, pois se ele estava escondendo seu rosto era porque havia algo de errado com ele. Ele realmente deveria ser uma horrível serpente e não um deus maravilhoso.Assustada com o que suas irmãs disseram, escondeu uma faca e uma lâmpada próximo a sua cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido, e se ele fosse realmente um monstro terrível, matá-lo. Ela havia esquecido dos avisos de seu amante, de não dar ouvidos a suas irmãs.***
A noite, quando Eros descansava ao seu lado, Psique tomou coragem e aproximou a lâmpada do rosto de seu marido, esperando ver uma horrenda criatura. Para sua surpresa, o que viu porém deixou-a maravilhada. Um jovem de extrema beleza estava repousando com tamanha quietude e doçura que ela pensou em tirar a própria vida por haver dele duvidado.Enfeitiçada por sua beleza, demorou-se admirando o deus alado. Não percebeu que havia inclinado de tal maneira a lâmpada que uma gota de óleo quente caiu sobre o ombro direito de Eros, acordando-o.***
Eros olhou-a assustado, e voou pela janela do quarto, dizendo:- "Tola Psique! É assim que retribuis meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estavas disposta a cortar minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita." ***
Quando se recompôs, notou que o lindo castelo a sua volta desaparecera, e que se encontrava bem próxima da casa de seus pais. Psique ficou inconsolável. Tentou suicidar-se atirando-se em um rio próximo, mas suas águas a trouxeram gentilmente para sua margem. Foi então alertada por Pan para esquecer o que se passou e procurar novamente ganhar o amor de Eros.Por sua vez, quando suas irmãs souberam do acontecido, fingiram pesar, mas partiram então para o topo da montanha, pensando em conquistar o amor de Eros. Lá chegando, chamaram o vento Zéfiro, para que as sustentasse no ar e as levasse até Eros. Mas, Zéfiro desta vez não as ergueram no céu, e elas caíram no despenhadeiro, morrendo.***
Psique, resolvida a reconquistar a confiança de Eros, saiu a sua procura por todos os lugares da terra, dia e noite, até que chegou a um templo no alto de uma montanha. Com esperança de lá encontrar o amado, entrou no templo e viu uma grande bagunça de grãos de trigo e cevada, ancinhos e foices espalhados por todo o recinto. Convencida que não devia negligenciar o culto a nenhuma divindade, pôs-se a arrumar aquela desordem, colocando cada coisa em seu lugar. Deméter, para quem aquele templo era destinado, ficou profundamente grata e disse-lhe:- "Ó Psique, embora não possa livrá-la da ira de Afrodite, posso ensiná-la a fazê-lo com suas próprias forças: vá ao seu templo e renda a ela as homenagens que ela, como deusa, merece."Afrodite, ao recebê-la em seu templo, não esconde sua raiva. Afinal, por aquela reles mortal seu filho havia desobedecido suas ordens e agora ele se encontrava em um leito, recuperando-se da ferida por ela causada. Como condição para o seu perdão, a deusa impôs uma série de tarefas que deveria realizar, tarefas tão difíceis que poderiam causar sua morte.***
Primeiramente, deveria, antes do anoitecer, separar uma grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada, feijões e lentilhas. Psique ficou assustada diante de tanto trabalho, porém uma formiga que estava próxima, ficou comovida com a tristeza da jovem e convocou seu exército a isolar cada uma das qualidades de grão.Como 2ª tarefa, Afrodite ordenou que fosse até as margens de um rio onde ovelhas de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada carneiro. Psique estava disposta a cruzar o rio quando ouviu um junco dizer que não atravessasse as águas do rio até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente, quando ela poderia aproveitar e cortar sua lã. De outro modo, seria atacada e morta pelos carneiros. Assim feito, Psique esperou até o sol ficar bem alto no horizonte, atravessou o rio e levou a Afrodite uma grande quantidade de lã dourada.Sua 3ª tarefa seria subir ao topo de uma alta montanha e trazer para Afrodite uma jarra cheia com um pouco da água escura que jorrava de seu cume. Dentre os perigos que Psique enfrentou, estava um dragão que guardava a fonte. Ela foi ajudada nessa tarefa por uma grande águia, que voou baixo próximo a fonte e encheu a jarra com a negra água.***
Irada com o sucesso da jovem, Afrodite planejou uma última, porém fatal, tarefa. Psique deveria descer ao mundo inferior e pedir a Perséfone, que lhe desse um pouco de sua própria beleza, que deveria guardar em uma caixa. Desesperada, subiu ao topo de uma elevada torre e quis atirar-se, para assim poder alcançar o mundo subterrâneo. A torre porém murmurou instruções de como entrar em uma particular caverna para alcançar o reino de Hades. Ensinou-lhe ainda como driblar os diversos perigos da jornada, como passar pelo cão Cérbero e deu-lhe uma moeda para pagar a Caronte pela travessia do rio Estige, advertindo-a:- "Quando Perséfone lhe der a caixa com sua beleza, toma o cuidado, maior que todas as outras coisas, de não olhar dentro da caixa, pois a beleza dos deuses não cabe a olhos mortais."***
Seguindo essas palavras, conseguiu chegar até Perséfone, que estava sentada imponente em seu trono e recebeu dela a caixa com o precioso tesouro. Tomada porém pela curiosidade em seu retorno, abriu a caixa para espiar. Ao invés de beleza havia apenas um sono terrível que dela se apossou.Eros, curado de sua ferida, voou ao socorro de Psique e conseguiu colocar o sono novamente na caixa, salvando-a.Lembrou-lhe novamente que sua curiosidade havia novamente sido sua grande falta, mas que agora podia apresentar-se à Afrodite e cumprir a tarefa.***
Enquanto isso, Eros foi ao encontro de Zeus e implorou a ele que apaziguasse a ira de Afrodite e ratificasse o seu casamento com Psique. Atendendo seu pedido, o grande deus do Olimpo ordenou que Hermes conduzisse a jovem à assembléia dos deuses e a ela foi oferecida uma taça de ambrosia. Então com toda a cerimônia, Eros casou-se com Psique, e no devido tempo nasceu seu filho, chamado Voluptas (Prazer).

(Fonte: Encanto da bruxa)

Leia também: segunda-feira poética: Fernando Pessoa - Eros e Psiquê:
http://livroerrante.blogspot.com/2011/03/segunda-feira-poetica-fernando-pessoa.html

segunda-feira, 14 de março de 2011

Segunda-feira poética: Fernando Pessoa



 Eros e Psiquê
Fernando Pessoa
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.


Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem. 


A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.


Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.


Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.


E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,


E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Leia também: Lenda de Eros e Psiquê

sábado, 12 de março de 2011

Crônicas da M.P.B:Vila Esperança - Adoniran Barbosa

Vila Esperança
Adoniran Barbosa

Vila Esperança, foi lá que eu passei
O meu primeiro carnaval
Vila Esperança, foi lá que eu conheci
Maria Rosa, meu primeiro amor
Como fui feliz, naquele fevereiro
Pois tudo para mim era primeiro
Primeira rosa, primeira esperança
Primeiro carnaval, primeiro amor criança

Numa volta no salão ela me olhou
Eu envolvi seu corpo em serpentina
E tive a alegria que tem todo Pierrot
Ao ver que descobriu sua Colombina
O carnaval passou, levou a minha rosa
Levou minha esperança, levou o amor criança
Levou minha Maria, levou minha alegria

quinta-feira, 10 de março de 2011

Comunidade Livro Errante: 4 anos no Orkut

Comunidade Livro Errante, no Orkut, completa 4 anos.
A pequena comunidade desde 2007 promove a leitura de livros entre seus integrantes através de empréstimo e sorteio. Atualmente com 108 livros em circulação a comunidade disponibiliza poesia, romance, ficção, de vários autores e estilos; nacionais e estrangeiros, clássicos e modernos, consagrados e novatos. Com tanta oferta e incentivo a média de leitura dos principais participantes da L.E é de 5 livros por mês, muito acima da média nacional, portanto. 
Se você, caro internauta, tem disponibilidade de emprestar livro e é leitor voraz e responsável, pode ir lá e pedir sua adesão.  Junte-se a nós!

terça-feira, 8 de março de 2011

Porque é carnaval....

Sonho de Uma Terça-Feira Gorda 
Manuel Bandeira
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros,
[e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma
[espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
- Dentro de nós, ao contrário, era tudo tão claro e luminoso.

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e
[seminuas.
A turba ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhe flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
- A profunda, a silenciosa alegria…