domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates - nosso Dr.Craque

XXIX - Sócrates
Antonio Falcão

Imagem do Google

Ele foi a antítese do bom atleta: era contra treinos individuais ou coletivos e abstinência - sobretudo de sexo, álcool, fumo, noitada e viola (que tocava). Até o seu nome fugia do convencional: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Fez medicina enquanto jogava, expôs-se em política e via o binômio cartola-jogador da ótica das relações de trabalho. Deu-se à cidadania com afinco, sendo intransigentemente solidário com os colegas. Para empregar o termo típico da inútil e néscia ditadura militar brasileira, Sócrates era subversivo. Todavia, do ponto de vista estritamente democrático, um cordial e saudável subversivo - utilíssimo à humanidade.

     Por acaso, ele nasceu em Belém do Pará a 19 de fevereiro de 1954 e se criou na paulista  Ribeirão Preto, onde aos 16 anos atuava no Botafogo Futebol Clube. Aos 18, na escola de medicina, Sócrates soube conciliar o curso escolhido com a vida de craque. Desde aí, atraídos pela soberba bola desse meia-armador e ponta-de-laça essencialmente técnico, vários times brasileiros o queriam. Muita gente mais velha passou a ver nele a reedição de Ipojucan, o excepcional vascaíno de 1,91 m, também, muito clássico, que usava com propriedade o calcanhar e fazia lançamentos incríveis. Porém, Sócrates, que nunca viu Ipojucan, ouvia essas comparações agradecido. Por esse tempo, ele decidiu só sair do Botinha  quando se formasse. E em 76, já profissional, foi artilheiro  do campeonato paulista com 15 gols. Dois anos adiante, como prometera,  permitiu que seu passe fosse negociado com o Sport Club Corinthians Paulista. E na ocasião já era médico.

     De cara, sem rodeios, assim que chegou ao clube da capital Sócrates disse como adversário da concentração: "Se cada jogador cuidar da própria resistência, será mais responsável". Os conservadores  puseram a barba de molho - embora que barbudo fosse ele. Depois, tranqüilo, falou que fumava, bebia e gostava de violão. Contudo, o que os fanáticos  corintianos tiveram dificuldade de engolir foi quando ele revelou  seu coração era santista. Tudo isso seria fichinha se comparado ao que o apelidado Magrão fez jogando e na ante-sala dos costumes do Corinthians. Em 1979, venceu o certame estadual e, inspirada nele, instalou-se a democracia corintiana - conjunto de ações que faria o voto do jogador reserva,  ser igual ao do diretor de futebol e só validava  decisões que expressassem a vontade da maioria.Atualmente, isso é normal, mas na época do execrável regime militar...

Imagem do Jornal do Brasil

      Nesse mesmo 79, Sócrates estreou na seleção brasileira em 15 de maio.  Disputara a Copa América (também em 83) e o Mundialito, ficando no time titular até o Mundial na Espanha, em 1982, quando formou com Zico, Falcão e Cerezo o quadrado mágico que encantara o planeta, apesar de o Brasil ter sido vencido. De volta ao clube, o Doutor - nome que lhe fora dado em função do título universitário e pelo fato de saber tudo de bola - fez a equipe conquistar  estadual. E bisaria esse troféu no ano seguinte, levando a massa alvinegra ao delírio. Por vê-lo fazer jogadas magistrais com o calcanhar, o Magrão recebeu de Pelé essa curiosidade: "Ele joga melhor de costas do que de frente". A essa altura, o Doutor era procurado por emissários europeus querendo levá-lo. Todavia, - com 302 jogos e 166 gols pelo Corinthians - teimava em ficar no Brasil.

      Mas a emenda do deputado Dante de Oliveira - que restituía ao País o direito de realizar eleições diretas em todos os níveis - não vingou no Congresso Nacional e, frustrado,Sócrates foi para a Fiorentina, em 84. Na Itália, teve vários motivos para não se adaptar - um deles, além do frio, o excesso de treinamento físico, já que era avesso a essa prática. Ainda ficou em Florença até 1986, aproveitando o tempo para se aprimorar em matéria de arte e história natural.

     
Na primeira volta ao País, ele foi para a  Ponte Preta. Contudo, em Campinas se deu conta que a promessa  feita era fria e que sequer a soma das luvas lhe fora paga. Resultado: Sócrates retornou a Firenze. E a seguir, felizmente, seria adquirido por empréstimo pelo Flamengo e se fixou no Rio de Janeiro. Uma das coisas que o animara a desembarcar na Gávea era a possibilidade de fazer dupla com Zico - seu ídolo e companheiro de escrete. E que com o Doutor perdera a Copa do Mundo naquele mesmo 1986 - ano em que ambos encerrariam a estada no time nacional do Brasil. Sendo que Sócrates, ao contrário do Galinho, só fizera 65 partidas e apenas 25 tentos pela seleção.

      Para tristeza dele e de Zico, no rubro-negro só atuariam uma vez. Durante mais de um ano, quando o Doutor tinha condições de jogo, o Galo estava contundido; quando Zico podia, ele era entregue ao departamento médico. Isso, porém, não impediu Sócrates de receber a faixa de campeão carioca de 1986. Ano seguinte, por divergência financeira, o Magrão saiu da Gávea. E quis abandonar o futebol, indo para o interior de São Paulo jogar em pelada.

Com a camisa do botinha. Imagem: AE

      Entretanto, sem que esperasse, chega-lhe um convite do Santos para que vista a camisa branca, a mesma que serviu de manto ao Rei Pelé e a outros craques santistas. Sócrates, sem muita elucubração - esquecido de que as pernas sentiam o peso inexorável dos 34 anos de boemia e quase nenhum preparo físico -, foi para a Vila Belmiro. Para quem sabia cadenciar um jogo como ele, não foi difícil fazer aquele campeonato estadual paulista de 1988 pelo Peixe. No entanto, também não se adaptava mais às viagens constantes, que o fazia se ausentar de casa, onde os filhos cresciam. E parou.

     
De volta à sua Ribeirão Preto para ser tão-somente médico, o Magrão não resistiu e ainda disputaria umas partidas do campeonato de 1989 pelo Botafogo, o mesmo Botinha que lhe revelou. E, depois de se despedir das chuteiras, efetivamente foi exercer a profissão exclusiva de médico. No entanto, quando se entendia conformado sem futebol e curtindo os últimos anos de ídolo do seu mano Raí, eis que teve uma recaída e assumiu  o comando técnico da  Cabofriense. Porém, sem êxito – até porque esse clube interiorano do Rio não lhe ofereceu (inclusive, por não poder) condições.

      No plano das idéias, ele se mantém de esquerda e milita, sem estardalhaço, no Partido dos Trabalhadores. Nunca fez questão de ser político ou se eleger. No fundo,  é igualzinho a esta frase duma revista: "Sócrates jamais se esforçou para ser um craque. Ele simplesmente era".

      Não há uma verdade maior que esta na história do futebol-arte do Brasil. Ou há?
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Esta crônica faz parte do livro: Um Sonho em Carne e Osso, os fora de série do futebol brasileiro, que traz um mini perfil de 30 craques.
Antonio Falcão
Ed.Bagaço 2002