quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quarta-feira é dia de conto:Estória De Traição, Em Que O Marido,Que Vai Matar, Morre.

Estória De Traição, Em Que O Marido,Que Vai Matar, Morre.

     Crsipim tinha ido matar zico, cismado de que Zico estava desaquietando Francisquinha mulher dele,Crispim.
     Crispim era má caça, pra começo. Junto com Zico, costumava atuar na praça, trapaceado a humanidade durante o dia e gastando à noite, na fuzarca, o apurado. Zico, lá pra ele, se achava de melhor pano. Dizia pro Crispim, ô Crispim, eu ando junto com tu, bebo, prego lorota, faço essas coisas todas, mas gostar, sabe, eu não gosto.
Qualquer dia eu me ajeito e vou é ser bispo.
Pensei que tu is dizer Jesus Cristo.
Aí, não.
O que tu é, é baitola, Crispim disse.
Tu não viu nada ainda, emendou o outro.
     Crispim era casado. Zico, não. A mulher de Crispim, Francisquinha, Crispim se mordia de ciúmes dela. Talvez razão nenhuma tivesse.
Francisquinha tinha o corpo flexível, umas ancas arredondadas, peitos fogosos. Segundo alguns, era um fogréu difícil de apagar. Opiniões safadas. No fundo era uma mulher da casa dela. e do homem dela, Crispim, a quem amava e considerava.
     Uma vez ou outra Zico, convidado por Crispim, chegava  pra almoçar. Mas Francisquinha, avisada, só servia, não se sentava à mesa. seguro morreu de velho, ruminava Crispim. Nas profundas do juízo, Francisquinha fazia o diabo pra aguentar.
Pra não estourar e gritar basta.
     Te cuida, o marido avisava.
     Me cuido, sim, mas vê se tu te enxerga, também.
     Vai um dia Zico dá de gostar de Francisquinha.
Uma espécie de paixão súbita, enquanto comia à mesa. Francisquinha servindo, o marido ali. Ela só diz, quando informada, um louco de hospício é o que tu é, Zico.
     E se tu acabar amolecendo?
     Francisquinha reprime-se cautelosa.
     Um ano, dois, engravida. No prazo nasce o fiho e o pai, Crispim, diz, Zico, tu vai ser o padrinho.
Vou, Zico diz. Francisquinha, do lado do marido, Zico atira um olhar safado pra ela.
     Ai, meu Deus, Francisquinha geme, no pensamento.
     No dia do batizado  Zico vem, apadrinha o menino. O pai, Crispim, brinca, ora Zico, era só o que faltava, nós agora compadres.
     Durante o resto do dia Francisquinha ficou com o fogo do ohar de Zico queimando.
     De noite não acertou, na cama, o serviço. não tem homem que não perceba essas coisas, e Crispim não era de ninguém enganar.
     A primeira noite, a segunda, e Crispim cai na suspeita. Mulher nenhuma trasteja em vão na cama. Se esticou pro abajur, acendeu a luz. Sopra o ar dos pulmões.
     Ô Francisquinha, me diz aí qual é a tua afoiteza.
     Francisquinha estala um muxoxo. Diz pro marido, vai dormir, homem.
     Crispim se tranca.Vira-se.não dormiu mais no resto da noite, imaginando coisas. Francisquinha traindo quem não devia trair. Francisquinha se enrabichando por outros homens. Que diabo.
     De manhã, cedinho, Francisquinha está na cozinha. Crispim chega. Ô mulher, me diz logo quem é que tu pôs no nosso caminho. Francisquinha de olhos abaixados estava, de olhos abaixados continuou. O marido dá-lhe uma sacudidela, Estranhão, queria porque queria  extrair a verdade do fundo do poço. Francisquinha nem se vira. Calada, vai preparar no fogão o leite do menino.
     Mulher, Crispim insiste, tu casou com homem, não foi com fresco.
     Francisquinha, mordida, só diz, eu vou lá dentro que o menino está chorando.
      Crispim balançou o corpo, fez menção de agarrar a cascavel. Quis falar, retesou-se. Sentiu sangue ferver e o juizo lhe cochichar, o fela da puta é Zico.
     No quarto, sentada, as costas apoiadas no espelho da cama, Francisquinha faz ar de indiferença. como se quisesse dizer pro marido, foda-se.
     Crispim, vem de lá, pára na porta. Ô Francisquinha, tem um espírito cá dentro, no meu juízo, me garantindo que o nome da peça é Zico, faz tanto tempo que eu não vejo ele, terá levado sumiço o nosso compadre? Francisquinha põe-se de pé. Na porta, uma mão espalmada numa portada e na outra portada a outra mão, Crsipim espera uma palavra. Aguarda um minuto. Mais.
     Tu me mata, mas tu não me arranca de mim o que tu quer descobrir, Francisquinha explode.
      Crispim girou nos pés, saiu. Zico,Zico, meu compadre Zico, sai repetindo o nme de Zico, e soqueando os braços, chutando as cadeiras, a perna da mesa, portão lá fora. Não tarda, chega lá à casa do amigo. Meu compadre, vim lhe dizer que eu não nasci pra corno. E que sou homem, meu compadre. O outro teve ímpeto de achar graça, reprimiu-se diante do vermelhidão dos olhos do visitante.
     Vamos entrar, homem, pondera Zico.
     Crispim se estica sobre os pés, agradece o convite. Meu compadre,diz, tu vai ter que tirar o teu corpo de junto de Francisquinha. A voz de Crspim é grave. O fôlego curto.
     Compadre Crispim, eu tenhi mulher, não sou casado, mas tenho, Zico disse. Crispim cubou o amigo, ali na porta. Sungou as calças, tentou amaciar a voz. Que diabo, meu compadre, e eu que tomei tu pra padrinho do meu filho, confiando na tua decência, vai aí tu põe areia na minha vida com a mãe do teu afilhado, me desconsiderando, me fazendo de corno. Me diz, meu compadre, tô certo? Fala de vez, homem, desembucha!
     Medo de Crispim, Zico não podia negar, tinha. Com uma olhadela descobre-lhe o revólver enfiado na calça. Que não deve estar descarregado a natureza lhe diz.
     Nós fizemos umas boas trapalhadas juntos,Zico, nós fizemos o diabo, tu não matiu, mas eu matei, tu me cobrindo. Se eu tivesse ido pro xadrez, tu também tinha ido, tu era meu cúmplice, cara.
     Tu era meu parceiro, minha sombra, meu compadre. Aí agora tô aqui eu, não é a polícia, sou eu pra te justiçar. Francisquinha, minha mulher, estava me traindo com tu, meu compadre, ela não me confessou, mas homem fareja, lê na alma dela, lá dentro. Tu não é casado, tu é amigado, porém tua rapariga, se ela te traísse, tu não precisava que ela abrisse a boca e te contasse pra tu saber, homem. Meu compadre,eu sou homem ferido e eu vim te lascar em banda, eu vim te foder a cartola, meu compadre, porém, eu queria antes que tu abrisse a boca e falasse, te destampasse e me confessasse a tua culpa. Fala, homem. Te abre, fiho-da-puta.
Zico tinha os olhos apontados pros olhos de Crispim. Assestados  contra eles. Te atreve, Crispim, diz pra dentro. Sente o sangue inchar-lhe o pescoço. Esse corno veio me matar, eu mato ele.
     Estuporado, Crispim saca o revólver. Vai puxar o gatilho, não tem tempo. Zico já o tinha acunhado na peixeira.

(Estórias gerais, Jaime Hipólito pág.33)