sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

História bonita(3): João, o teimoso que só queria medicina.

João Couto Teles, um exemplo de tenacidade e superação

Até que ponto você iria atrás do seu sonho? Para o estudante cearense João Couto Teles, de 28 anos, o céu é o limite. Seu sonho era igual ao de centenas de feras do estado: ver o nome no listão de aprovados para o concorrido curso de medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mas a motivação do aluno, essa sim, estava acima da média. Ele lutou contra a família, contra a falta de dinheiro e contra si mesmo. A cada reprovação era preciso uma nova volta por cima. E olha que foram nove seguidas até que, neste ano, João finalmente pôde ver seu nome entre os aprovados, com a nota 7,53. Ao saber da notícia, de férias no Ceará, quase desmaiou nos braços da mãe.


Segundo cálculos feitos em cursinhos de pré-vestibular do Recife, um candidato de medicina pode levar até três anos para conquistar uma vaga. Tudo por causa da grande concorrência (foram 30 candidatos por vaga no último vestibular) e das altas notas de entrada do curso (a menor neste ano foi 7,4). O ´Doutor João Couto`, como está sendo chamado pelos amigos, não vê a hora de as aulas começarem. Ele passou na 2ª entrada e o ano letivo começará em agosto. ´Estou muito ansioso. Quero conhecer os laboratórios, os professores, os colegas. Não tenho palavras para dizer o quanto estou feliz`, comemora. No futuro, ele pretende seguir a carreira de neurologista.

João Couto Teles, aprovado no vestibular de medicina da UFPE após 9 tentativas seguidas. O vídeo mostra o momento em que seus colegas da Casa do Estudante do Nordeste raspam seu cabelo.

A história de persistência e final feliz tem um enredo digno de novela das 20h. João nasceu no município de Jardim, Sertão do Ceará, a 600 km do Recife. Filho de pais agricultores, aos 16 anos ele deixou sua cidade natal para estudar no Recife. Veio influenciado por um primo, que havia conseguido duas vagas na Casa do Estudante do Nordeste, instituição filantrópica sustentada pelos próprios jovens. O ano era 1999. A casa, no Derby, é o endereço do futuro médico até hoje.

Contrariando todos de sua família, João inscreveu-se para o curso de medicina. Era só o começo das ´chacotas` que ouviria pelos próximos 11 anos. ´Minha madrinha, que é médica, chegou a dizer que medicina era um curso que só os filhos dela podiam fazer, pois tinham recursos. Aquilo me magoou. Mas também serviu de motivação`, relembra, emocionado. Para se sustentar, recebia R$ 200 por mês dos pais.

Neste mesmo ano, 15 dias antes do vestibular, João sofre um acidente de trânsito e parte do rosto é atingida por estilhaços de vidro. Volta para se recuperar no Ceará. Adeus vestibular da UFPE. No ano seguinte, dois meses antes da prova, novos problemas de saúde: uma forte úlcera. Ele só voltaria a tentar uma vaga em medicina em 2002. Não passou. O ensino médio concluído no interior tinha suas falhas.


A ajuda
´Cheguei aqui sem saber de nada. Comecei a estudar do zero`, afirma. Sabendo disso, João bateu na porta dos principais cursinhos da cidade, pedindo bolsas de estudo. Foram muitos nãos. ´É muito humilhante. Você dizer que precisa estudar e ouvir que o conhecimento é para quem pode pagar`. Com força de vontade, conseguiu bolsa num dos cursinhos mais badalados da turma de saúde: Fernandinho e Cia, na Benfica. Em um ano, fazia isolada de biologia. Em outro, história.
Em seis anos de estudos e de vestibulares, concluiu que já tinha conhecimento suficiente para garantir a aprovação na UFPE. O problema é que, a partir daí, o nervosismo começou a atrapalhar João. Na hora da prova, dava o famoso ´branco`. Ele fez terapia durante um ano e se apegou à religião. Toda vez que passava pela imagem de Nossa Senhora de Fátima, no Quartel do Derby, pedia força para correr atrás do seu sonho. Durante todos esses anos, João fez o dever de casa. Sua rotina de estudos começava às 6h e só terminava às 23h. De domingo a domingo. Por causa disso, nunca trabalhou.


A dedicação é reconhecida pelos colegas da Casa do Estudante. ´Ele é exemplo de perseverança para todos nós`, disse Rafael Costa, estudante de serviço social da UFPE. Depois da aprovação no vestibular, João passou a ser um ´semi-deus`. Sua fama já alcançou diversas casas de estudante espalhadas no Recife. ´Provei que podia ser mais do que um agricultor `. O mérito de João não está apenas na aprovação heróica. Mas na capacidade de romper um ciclo social graças à educação.
 (Matéria de Mirella Marques para o Diário de Pernambuco 29/01/2011)