sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz você no novo ano!!



Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.


( A blogueira só volta no  dia 4/01/2011.)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Breve nas livrarias: Estórias Mínimas


Estórias mínimas
José Rezende Júnior
Ed.Letras.

Aguardem o lançamento do  livro.

Para quem ainda não conhece José Rezende: o autor escreve contos com no máximo 140 caracteres. Sensuais, irônicos, eróticos,bem humorados mas sempre curtíssimos como Vício Maldito, postado abaixo:



 VÍCIO MALDITO!

O marido, que não fumava, saiu no meio da noite pra comprar cigarro. Voltou dez anos depois, com câncer nos dois pulmões.




Capa e micro estória enviadas para mim pelo autor que também autorizou a postagem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Quarta-feira é dia de conto:Rubem Braga

O Motorista do 8-100
Rubem Braga



    Tem o Correio da Manhã um repórter que faz, todo domingo, uma página inteira de tristezas. Vive montado em um velho carro, a que chama de "Gerico"; a palavra, hoje, parece que se escreve com "J"; de qualquer jeito (que sempre achei mais jeitoso quando se escrevia com "g") é um carro paciente e rústico, duro e invencível como um velho jumento. E tinha de sê-lo; pois sua missão é ir ver ruas esburacadas e outras misérias assim.
    Pois esse colega foi convidado, outro dia, a ver uma coisa bela. Que estivesse pela manhã bem cedo junto ao edifício Brasília (o último da Avenida Rio Branco, perto do Obelisco) para assistir à coleta de lixo. Foi. Viu chegar o caminhão 8-100 da Limpeza Urbana, e saltarem os ajudantes, que se puseram a carregar e despejar as latas de lixo. Enquanto isso, que fazia o motorista? O mesmo de toda manhã. Pegava um espanador e um pedaço de flanela, e fazia o seu carro ficar rebrilhando de limpeza. Esse motorista é "um senhor já, estatura mediana, cheio de corpo, claudicando da perna direita; não ficamos sabendo seu nome".
    Não poupa o bom repórter elogios a esse humilde servidor municipal. E sua nota feita com certa emoção e muita justeza mostra que ele não apenas sabe reportar as coisas da rua como também as coisas da alma.
Cada um de nós tem, na memória da vida que vai sobrando, seu caminhão de lixo que só um dia despejaremos na escuridão da morte. .Grande parte do que vamos coletando pelas ruas tão desiguais da existência é apenas lixo; dentro dele é que levamos a jóia de uma palavra preciosa, o diamante de um gesto puro.
    É boa a lição que nos dá o velho motorista manco; e há, nessa lição, um alto e silencioso protesto. Não conheço este homem, nem sei que infância teve, que sonhos lhe encheram a cabeça de rapaz. Talvez na adolescência ele sucumbisse a uma tristeza sem remédio se uma cigana cruel lhe mostrasse um retrato de sua velhice: gordo, manco, a parar de porta em porta um caminhão de lixo. Talvez ele estremecesse da mais alegre esperança se uma cigana generosa e imprecisa lhe contasse: "Vejo-o guiando um grande carro na Avenida Rio Branco; pára diante de um edifício de luxo; o carro é novo, muito polido, reluzente...".
    É costume dizer que a esperança é a última que morre. Nisto está uma das crueldades da vida: a esperança sobrevive à custa de mutilações. Vai minguando e secando devagar, se despedindo dos pedaços de si mesma, se apequenando e empobrecendo, e no fim é tão mesquinha e despojada que se reduz ao mais elementar instinto de sobrevivência. O homem se revolta jogando sua esperança para além da barreira escura da morte, no reino luminoso que uma crença lhe promete, ou enfrenta, calado e só, a ruína de si mesmo, até o minuto em que deixa de esperar mais um instante de vida e espera como o bem supremo o sossego da morte. Depois de certas agonias a feição do morto parece dizer: "enfim veio; enfim, desta vez não me enganaram".
    Esse motorista, que limpa seu caminhão, não é um conformado, é o herói silencioso que lança um protesto superior. A vida o obrigou a catar lixo e imundície; ele aceita a sua missão, mas a supera com esse protesto de beleza e de dignidade. Muitos recebem com a mão suja os bens mais excitantes e tentadores da vida; e as flores que vão colhendo no jardim de uma existência fácil logo têm, presas em seus dedos frios, uma sutil tristeza e corrupção, que as desmerece e avilta. O motorista do caminhão 8-100 parece dizer aos homens da cidade: "O lixo é vosso: meus são estes metais que brilham, meus são estes vidros que esplendem, minha é esta consciência limpa." (1949)


(Rubem Braga. O homem rouco. Rio: Ed. do Autor, 1963. p. 143-146)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Li, gostei e recomendo: Interioranos

Ano terminando decidi ler apenas os 8 livros que solicitei ao  grupo que formamos há 3 dezembros consecutivos. Leves e de poucas páginas terminaria todos eles antes de terminado janeiro. Acontece que recentemente Clávio Valença lançou um livro de contos lá no Museu do Estado - Recife. Por que eu leria Interioranos se já estou à espera de vários?  Porque conheço o autor. E lá fui eu.
Exímio contador e criador de histórias, com ou sem H, Clávio Valença criou personagens formidáveis. Desses que podem morar no bairro ao lado ou na casa da frente em qualquer cidade do interior, em  qualquer dos Rio Grande, do Norte ao  do Sul.
 Interioranos traz  13 contos bem humorados, ponteados de ternura e ironia sutil. Leitura rápida e muito divertida. O livro segura o leitor desde as primeiras páginas além do que é muito bem  acabado. Bonito mesmo.

Interioranos-Clávio Valença
Ed.Comunigraf,2010

Interioranos - Clávio Valença
R$30,00
Onde comprar:
Livraria da Jaqueira
R.Antenor Navarro 138 -
81 3265 9455
Potylivros
Av.Cde. da Boa Vista 1413
ou pelo telefone:3203 2626
Livraria Cultura ( a partir do dia 30/12)
Paço Alfândega - ou pelo  telefone: 81 2102 4033

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Segunda-feira poética: Fernando Pessoa

Andei Léguas de Sombra

Fernando Pessoa


Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as lâmpadas
Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.
Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.


Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical. A alcova
Desce não se por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.


E o deserto está agora
Virado para baixo.


A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.


Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.


Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal Chique- Vitorino Nemésio

Natal Chique   


Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.
______________________________________________
Vitorino Nemésio:Açores 1901 - Lisboa 1978
Algumas obras do autor:
Poesia:
O Verbo e a Morte
Canto de Véspera
Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas
Romance:
Paço de Milhafre

Varanda de Pilatos
Mau Tempo no Canal

Esse poema foi uma sugestão do colega blogueiro Leonardo B, a quem agradeço com um  beijo.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Horóscopo poético: Capricórnio 22 de dezembro a 21 de janeiro

Capricórnio - Vinicius de Moraes

A capricorniana é capricornial
Como a cabra de João Cabral.
Eu amo a mulher de capricórnio
Por que ela nunca lhe põe os próprios.
A caprina é tão ciumenta
Que até o ciúmes ela inventa.
Mulher fiel está aí: é cabra
Só que com muito abracadabra.
Suas flores: a papoula e o cânhamo
De onde vem o ópio e a maconha
Ela é uma curtição medonha
Por isso nos capricorniamos

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quarta-feira é dia de conto: Marcos Rodrigues

    O desembargador Gabriel Ferreira de Araújo, aos domingos, recebia todos os filhos, netos e agregados para almoçar. Mesmo viúvo, mantinha o costume. Gostava da reunião, mas não participava muito da conversa. Era muito rápida, não entendia tudo. Preferia acompanhar à distância. Foi assim também naquele domingo.

    Estavam todos preocupados com o Natal, percebia. Mais por sua viuvez recente. Ninguém sabia direito como ia ser. Nem os filhos, nem os agregados. Ninguém falava nada, mas havia algo no ar.
    De repente o tema veio à mesa, trazido pela mais velha. Cuidadosa, tocou no assunto como se nada houvesse. Ceia mais cedo ou ceia mais tarde? Assim tão cedo? E os agregados? E as famílias dos agregados? E os namorados? Quem traz o quê? Naquela conversa toda havia apenas a certeza da presença da Almerinda, que continuava cuidando da casa e, sobretudo, dele mesmo. Excelente pessoa, a Almerinda.
    Ele ouviu tudo com muita calma e pensou em suas vontades. Matutou, ponderou e decidiu. Esperou a hora certa e bateu com a faca na taça de vinho pedindo silêncio. Era sempre atendido, mesmo pelas crianças, que nunca prestavam atenção.
    Contou a história do Bispo de Myra, nascido em 280 na Turquia, que mais tarde se tornou São Nicolau. Mais tarde ainda, depois de muitas distorções, resultou nesse Papai Noel presente. Com cara, barba, barriga, bota, vestimenta e cores definidas pela Coca-Cola em 1931. Era um absurdo, um despautério. Não fazia sentido todo mundo atrás de presentes desnecessários por conta de um boneco comercial. Correr para cá e para lá numa noite de Natal era desatino. Atender expectativas de felicidade dos anúncios de margarina era insânia. Era preciso sublevar-se contra as forças do mercado. Era preciso ousar. Não deveriam fazer nada na noite do vinte e quatro. Ou melhor, cada um deveria fazer o que quisesse e eu quero ir para a cama, disse rindo e trazendo um pouco de confiança a todos.
    Houve um que bobagem papai, vem todo mundo aqui, vai ser ótimo. Mas ele foi firme, disse que pessoalmente preferia tomar uma sopa às sete da noite, meia taça de vinho e dormir. Na paz do Senhor, frisou, olhando para cima.
    Mais queixumes, nem todos legítimos, e ele insistiu que preferia isso mesmo. Notou que a mais velha, a esta altura, morria de culpa de ele ter pensado nisso, mas repetiu que preferia tomar uma sopa às sete da noite, meia taça de vinho e dormir. Na paz do Senhor, insistiu sem olhar para cima. Seria um exagero.
    Com essa insistência e o bom humor, a culpa foi se dissipando. O famoso peru da Almerinda não precisaria ser devorado justo na noite do vinte e quatro. Melhor seria num domingo qualquer, no almoço. Os ovos nevados também. A simplificação trouxe paz a todos. Curiosamente um juvenil sentimento de transgressão também permeou o ambiente. E, não obstante alguns pulsos de incerteza, ficou decidido que não fariam nada na noite do vinte e quatro.
    Mas houve a tarde do vinte e quatro, em que ele recebeu algumas visitas. A Almerinda serviu chá e bolo de laranja. Lá pelas cinco todos se foram. Ele tirou uma soneca, acordou bem disposto, tomou um banho e se arrumou.
    Às sete a Almerinda preparou um levíssimo suflê de chuchu e serviu duas taças de vinho. Ele a convidou para sentar-se com ele e jantaram. Juntos, como faziam desde junho. Ela então lavou a louça, fechou a casa e subiram para o quarto. Juntos, como faziam desde outubro.
    Antes de dormir ele pensou que algum dia teria de explicar essas coisas para a mais velha. Mas não chegou a se preocupar. Logo dormiu. Com um anjo.



*Marcos Rodrigues é engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP, PhD pela University of Cambridge, Inglaterra. Desde 1990 é Professor Titular da Poli - USP, na área de Informações Espaciais. Dedica-se também à literatura

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Segunda-feira poética:Mário Quintana

Recordo ainda
Mário Quintana

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...


Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...


Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:


Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Pernambuco em campanha contra o bullying

Cartilha distribuida nas escolas públicas do Estado Pernambuco

Bullying Escolar:
A peleja da covardia com a senhora educação
I
Esse cordel tão modesto
Mas feito com consciência
Pretende sintetizar
Com clareza e eficiência
O significado de bullying
Como assédio ou violência

II
O bullying pode ocorrer
No ambiente de emprego
No parque ou no futebol
Causando desassossego
Espalhando a discórdia
A violência e o medo
III
Tem também o cyberbullying
Que ocorre no Orkut
Nos sites da internet
No twitter ou facebook
Qualquer um pode ser vítima
Seja pobre, rico ou Cult
IV
Até mesmo na escola
Lugar de cidadania
Do respeito às diferenças
Palco da democracia
Há o bullying escolar
Uma tremenda covardia
V
Isso mesmo meu amigo
Se atualize sem demora
Preste muita atenção
Ao que vou dizer agora
O Bullying também ocorre
No chão das nossas escolas!
VI
E é sobre esse último caso
Que agora vou falar
A terrível violência
Que vive a nos rodear
Principalmente a que ocorre
No ambiente escolar
VII
A discriminação é a base
Do assédio praticado
Com o intuito de humilhar
O sujeito atacado
Constranger ou meter medo
Pra deixá lo acuado
VIII
Também há o preconceito
Como chave desse mal
Seja ele de estética
Ou de classe social
De racismo deslavado
Ou de escolha sexual
IX
Apelidos humilhantes
Xingamentos raciais
Palavrões e ameaças
Atitudes imorais
Esses são alguns exemplos
Mas existe muito mais...
X
O importante é entender
Que bullying é covardia
É o ato do valentão
Praticado dia a dia
Contra aquele que é mais fraco
Ou que está em minoria
XI
A violência se apresenta
De maneira variada
Pode ser psicológica
Quase sempre com piadas
Ou então pode ser física
Na base da cassetada
XII
O resultado é a dor
E o sofrimento da criança
O afastamento social
E a perda da esperança
Pra dar basta a essa moléstia
É preciso haver mudança
XIII
Pensando nisso educadores
Preocupados com a questão
Reunidos em debate
Da Confraria da Educação
Propuseram uma lei
Pra regulamentar a questão
XIV
A Assembleia Legislativa
Do Estado de Pernambuco
Recebeu esse projeto
E depois de muito estudo
Aprovou a nova lei
Pra acabar com esse absurdo
XV
Com a Lei 13.995 de 2009
Qualquer um pode fazer
Uma denúncia contra o bullying
Na polícia ou na OAB
A um promotor de justiça
Também dito MP
XVI
Mas é bom não esquecer
Que é uma lei estadual
E é preciso unir forças
Pra torná-la federal
Aprovando o seu texto
no congresso nacional
XVII
O bullying é uma vergonha
É pura contradição
É a derrota da escola
Da universidade e da nação
Diante da prepotência
Do covarde valentão
XVIII
Por isso é preciso haver
Grande mobilização
Pra não se fazer vista grossa
A essa situação
Enfraquecendo o valor
Da real educação
XIX
O professor é responsável
O coordenador também
Os pais e os alunos
Todo mundo e mais alguém
No combate contra o bullying
Não se isenta seu ninguém
XX
A OAB de Pernambuco
E a Confraria da Educação
De mãos dadas com a sociedade
Ao bullying dizem não
Em respeito à cidadania
E aos direitos do cidadão.


Autores: Isaac Luna E Inácio Feitosa


Ilustração: Ivan Andrade

sábado, 18 de dezembro de 2010

História bonita(1) Ignácio de Loyola Brandão

Fiquei encantada com essa história e trouxe para dividir com vocês.

Ignácio de Loyola Brandão
 Meu presente de Natal chegou adiantado. Semana passada o e-mail de uma senhora de 78 anos entrou em meu computador. No mesmo instante, 40 anos se evaporaram e me vi na redação da revista Claudia, então na Marginal, Freguesia do Ó. Anos 70. Uma tarde, Thomaz Souto Correa, diretor, passou pela minha mesa: "Estamos recebendo um número enorme de cartas com leitoras enviando contos. Precisamos responder. Fique com essa incumbência. Responda todas!" Havia essa preocupação, a interação com as leitoras. Não havia e-mails, fax, computadores, era máquina de escrever, papel timbrado, selo, cola, correio. Não achei uma tarefa desagradável, sou curioso, lia besteiras aterrorizantes, mas lia coisas razoáveis, curiosas, boas.


Via a imaginação das leitoras desfilando pela minha mesa, sonhos, fantasias, queixas, projetos. Um dia, apanhei um conto bom, apenas mal estruturado. A mulher do interior (qual cidade?) sabia o que queria dizer, elaborava personagens, tinha noção da condição feminina. Respondi, elogiei, fiz sugestões. A resposta demorou, o conto voltou reescrito. A demora, ah, a demora. Vocês nem imaginam por que demorava.


Minha resposta tinha ido para a casa de uma amiga da leitora que a entregava em momento propício, quando o marido da contista não estava em casa. Ele, como homem, dono da casa e talvez pensando que mandasse na mulher e nos sonhos dela, a tinha proibido de escrever. Encontrara uns escritos, rasgara, indagara: qual é? O que ela pensava?


No entanto, a leitora continuou a escrever. Refez o conto, mandou, fiz novas anotações, ela estava a um passo do muito bom. Nova demora, meses passaram. Outra carta. Então, fiquei sabendo as condições em que ela escrevia. Era à noite. Quando a casa se aquietava, ela esperava o marido ir para a cama, ia junto, dava um tempo. Quando percebia que ele dormia pesado, saía, trancava a porta do quarto, ia para a cozinha, fechava a porta, cuidava para que ruídos não vazassem. Cobria a mesa com um cobertor grosso (medo do barulho), levava o abajur para baixo da mesa, ajeitava-se e escrevia. Já vi na minha vida todo tipo de refúgios para escrever, mas este bateu tudo, ganhou. Porque era a escritura sob repressão. Mas ela desafiava o totalitarismo, a rudeza, e escrevia até a madrugada. Com fita-crepe escondia tudo embaixo da mesa.


Ela deixou aquele conto de lado, mas tentei novos contatos, queríamos que ela nos deixasse contar a história dela na revista, num número especial dedicado à condição feminina. Teria junto o comentário de Carmen da Silva, uma das jornalistas que desbravaram o mundo feminino, carregando bandeiras que a tornaram querida pelas mulheres, odiada pela ditadura, mal vista, visada. Carmen foi uma brava - morreu de câncer, nova ainda - e doce figura! Mas a leitora disse não, complicaria demais a vida dela, que não era fácil. Uma de minhas últimas cartas foi: "Pelo amor de Deus, não pare de escrever! Nunca." Depois, o silêncio.


Passaram-se 40 anos. Deixei Claudia, fui para Planeta, Ciência & Vida, Vogue, escrevi meus livros. Nós, escritores, sempre nos perguntamos: quem é atingido por aquilo que escrevemos? A quem chegam nossas palavras, escritos? Em quem repercute o que dizemos em palestras, conversas, bate-papos? É um dos mistérios deste ofício. De maneira que, quando temos uma resposta, é preciso se alegrar. É o que faço agora com o e-mail de Maria Olimpia, chegado semana passada. A melhor coisa deste ano, dos últimos anos. Ela escreveu:


"É provável que você não se lembre de mim, pois tivemos um contato há cerca de 40 anos atrás, quando você trabalhava na revista Claudia. Esta revista oferecia uma oportunidade a escritores novos e mandei um conto para ela. Junto foram algumas informações sobre mim e expliquei que escrevia na "calada da noite" escondida do meu marido. Ele não me "permitia" ser uma escritora. E, para minha surpresa e alegria, recebi de você, a sugestão de contar na Claudia a minha história. Isto não aconteceu, mas, dentro de mim, você, colocou a semente da coragem para continuar tentando.


Hoje, dia 10/12, ganhei de presente o livro Ruth Cardoso, Fragmentos de Uma Vida, escrito por você. Fiquei emocionada. Estou com 78 anos e, hoje, viúva, morando em Visconde de Mauá, sou uma escritora e me dedico à literatura. Já vendi 600 exemplares de meu livro A Cozinheira e o Visconde. Sou "Chef de cozinha", mas, jurei a mim mesma que, ao fazer 80 anos, deixarei a cozinha e trocarei, definitivamente, a colher de pau pela caneta(ainda uso, digito muito mal no computador). Fico feliz, em poder agradecer a você, o bem que me fez com seu apoio e estímulo, embora esteja fazendo isto 40 anos depois. Carinhosamente, Maria Olimpia."


Publicado no Estadão dia 17/12/2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

30 melhores livros infantis de 2010

Os melhores livros infantis ( 2 a 7 anos) de 2010 escolhidos pela Revista Crescer.


Girafas Não Sabem Dançar - De: Giles Andrade
Ilustração:Guy Parker-Rees
Ed.Cia das Letrinhas  - R$45,00
A partir de 2 anos
Geraldo é uma girafa muito desengonçada. Se tenta correr, troca as pernas e se estatela no chão. Mas coragem é o que não lhe falta. Tanto que resolveu ir ao baile anual da selva. Na festa, os bichos dançam todo tipo de música - rock, tango e até chachachá. E todo mundo na África está cansado de saber que girafas não sabem dançar. Todo mundo, inclusive o Geraldo. Pois não é que, mesmo assim, ele respirou fundo e, aos tropeções, dirigiu-se para a pista de dança? Com dobraduras e figuras que se movimentam por puxadores, este livro vai contar o que aconteceu com o Gê naquela noite. E o leitor vai ver como o grilo cricrilou um conselho precioso para nosso amigo - graças a ele, Geraldo foi capaz de uma proeza que deixou a selva inteira de boca aberta.

Da Pequena Toupeira Que Queria Saber Quem tinha Feito Cocô na Cabeça Dela
De:Werner Holzuwarth e Wolf Erlbruch
Ed.Cia das Letrinhas - R$45,50
A partir de 2 anos
Numa manhã, quando ia saindo de sua toca, a toupeirinha percebe que alguém fez coco em sua cabeça. Mas quem teria feito tal coisa? Para esclarecer o enigma, ela interroga todos os animais que vai encontrando pelo campo - o cavalo, a pomba, a vaca, o porco... Para se inocentar, eles exibem os respectivos cocos à toupeira - há de todos os tamanhos, formatos e consistência... Até que, finalmente, graças à ajuda de duas moscas - grandes especialistas no assunto -, a toupeira encontra o culpado e dá um jeito de se vingar. Nesta edição, além de se divertir com as dobraduras, as crianças poderão interagir com as cenas manipulando os puxadores.



Filhotes de Bolso Saem de Férias- De: Margaret Wild
Ilustração:Stephen Michael King
Ed. Brinque book - R$30,00
A partir de 3 anos
Nessa aventura, os cachorrinhos Bife e Bufe, que adoram ser os filhotes de bolso do seu Toto, vão para a praia com ele. Depois de muita diversão, levam um susto - o querido e enorme casaco do seu Totó desaparece e, com ele, os bolsos onde 'moram' os dois filhotes. Bife e Bufe decidem, então, procurar o casaco por toda a praia até, finalmente, encontrá-lo e, assim, voltarem a ser os filhotes de bolso do seu Totó.





A Visita dos Dez Monstrinhos - De:Ângela Lago
Ed.Cia das Letrinhas - R$32,00
A partir de 3 anos
Foi pensando nas crianças que estão aprendendo os números - e nos seus pais e professores - que a escritora criou um livro em rima. Nele, dez monstrinhos vão chegando, um a um. Quando eles são mandados embora, o senhor zero resolve brincar de ser fantasma. Colorido e em letra de fôrma, é uma ferramenta para as crianças em fase de alfabetização.



Bichos - De: Ronaldo Simões Coelho
Ilustração:Ângela Lago
Ed. Aletria - R$42,00
A partir de 3 anos
Por sugestão do neto, o autor escreve sobre os bichos que existem no sítio da família.






Elefantes Nunca Esquecem - De:Anuska Ravishankar
Ilustração: Christiane Pieper
Ed. Manati - R$39,00
A partir de 3 anos
É senso comum que os livros para crianças devem contar histórias repletas de valores construtivos. É também senso comum que, se um elefantinho perdido, criado por búfalos, um dia encontra uma manada de elefantes, ele.... O senso comum é importante na vida da gente. Por isso mesmo é bom que alguém saiba como desconstruí-lo quando uma mentalidade destrutiva ameaça a sobrevivência do planeta e da humanidade.

Quando Nasce um Monstro 
De:Sean Taylor e Ilustração: Nick Sharrat

Ed.Salamandra - R$27,00
A partir de 4 anos
Para quem lê este livro de monstro, existem duas possibilidades - ou a pessoa o lê à noite, e ri até cair da cama, ou lê de dia, e ri até cair no chão. Um livro cheio de possibilidades e de piadas.





Fuja do Garajuba - De: Shel Silverstein
Ed.Cosac Naify - R$45,00
A partir de 5 anos
O primeiro livro de Shel Silverstein, de 1964, é o seu único em cores. Nele, o autor adentra o imaginário infantil e convida as crianças a rirem dos próprios medos. Fuja do Garabuja é uma coletânea de 44 poemas sobre monstros e criaturas imaginárias bem incomuns, como o Gruto, um bicho bom de disfarce; o Gradiardo, com seus dentes em fila dupla e garras afiadas; o Grício, gordinho de olhos vermelhos, e outros tantos que somente alguém tão criativo como Silverstein poderia criar, com um humor sutil que cativa crianças e adultos. A simplicidade poética e o minimalismo característicos do autor ganham nesta obra o colorido das ilustrações em aquarelas.


Maurício, Leão de Menino - De:Flávia Maria
Ilustração: Millôr Fernandes
Ed.Casac Naify - R$35,00
A partir de 6 anos
Conta a história de um leão diferente, que mora dentro do guarda-roupa de um garoto. Um dia, o menino se enche de coragem e conhece Maurício, que logo dá uma lambida na bochecha dele, mostrando amizade.




O Lobo - De:Graziela Teixeira
Ed.Manati - R$34,00
A partir de 6 anos
Dentro desta história há um outro livro de histórias. Um livro onde mora um lobo cinzento, que ganha vida e voz pelo afeto do pai de Lília. Todas as noites, o pai embala a menina com histórias até que ela se veja envolvida em um silêncio acolhedor. Mas uma noite, o pai não volta para casa e a dor, o medo e a raiva invadem o coração e a casa de Lília.



Peter Pan

De: Monteiro Lobato
Ilustração:Fabiana Salomão
Ed.Globo
R$22,00
A partir de 6 anos





Marcelino Pedregulho - De: Sempé
Ed.Cosac Naify -R$45,00
A partir de 6 anos
Em 'Marcelino Pedregulho', o autor apresenta um menino que enrubesce sem nenhum motivo. Todos o acham muito diferente, mas Marcelino não entende o porquê. Então, ele se isola das outras crianças para poder brincar em paz. Até que conhece um vizinho muito estranho - Renê Rocha, o garoto violinista que espirra todo o tempo, mesmo sem estar resfriado. Uma grande e sincera amizade nasce a partir das diferenças

A Árvore Vermelha
De: Shaun Tan
Ed. SM
R$29,00
A partir de 7 anos

Carvoeirinhos - De: Roger Mello
Ed.Cia. das Letrinhas - R$47,50
A partir de 7 anos
Os meninos carvoeiros não conhecem outra vida, a não ser o trabalho duro nas carvoarias. É a história de um deles que Roger Mello conta neste livro. Uma história narrada de forma poética e original — e não sem esperança — e que traz ainda as expressivas ilustrações do autor, que captam com sensibilidade e força a vida cinzenta dos pequenos carvoeiros.


Alice No País da Poesia - De: Elias José - Ilustração: Taisa Borges
Ed. Peirópolis - R$34,00
A partir de 7 anos
São 33 poemas repletos de lirismo e encantamento, em imagens que remetem a grandes textos da literatura universal. O leitor segue em companhia de Sherazade, Peter Pan e Dom Quixote, além de um séqüito de fadas e feiticeiras, duendes e sereias, reis e rainhas, príncipes e princesas, pássaros e cavalos mágicos.

Todos os Patinhos - De:Christian Duda e Ilustração: Júlia Fiese
Ed.Casac Naify - R$38,00
A partir de 4 anos
A história de como Conrado, a raposa, e Lourenço, o patinho, formaram uma família improvável. Na floresta, enquanto Lourenço ainda era um ovo sem nome, Conrado apareceu faminto. A mamãe-pata conseguiu escapar, e a raposa ficou com o prêmio. Conrado pensou em preparar ovos mexidos, mas preferiu esperar que o filhote crescesse para devorá-lo. No entanto, sua essência de caçador, seu instinto de devorador, foi substituído por um carinho paternal.

Na Garupa do Meu Tio -De:David Merveille
Ed.Casac Naify - R$42,00
A partir de 4 anos
O livro traz uma sequência de cenas que convida o leitor a apreciar uma aventura do senhor Hulot pela cidade de Paris. Como num livro cinematográfico, cada dupla tem um folder que abre e revela uma surpresa. Elementos retirados dos filmes de Tati estão espalhados pelas ilustrações de Merveille - a casa de Hulot e a fonte em forma de peixe de 'Meu tio', ou a rotatória em 'Play time'. Nesta edição, o ilustrador húngaro Istvan Banyai assina um poema na quarta capa, revelando alguns dos segredos deste livro.


Onde Vivem Os Monstros - De:Maurice Sendak
Ed.Casac Naify - R$49,00
A partir de 4 anos
O garoto Max, vestido com sua fantasia de lobo, faz tamanha malcriação que é mandado para o quarto sem jantar. Lá, ele se transporta para uma floresta, embarca em um miniveleiro, navega pelo oceano e chega em uma ilha onde vivem os monstros. Com o seu olhar firme, consegue dominá-los e é coroado rei. Max, então, fica livre para mandar e desmandar, longe de regras ou restrições, mas quando a saudade de casa e daqueles que realmente o amam começa a apertar o peito, Max fica em dúvida sobre suas escolhas.




O Dariz - De: Olivier Douzou
Ed.Casac Naify - R$35,00
A partir de 4 anos
A história de um nariz com problemas só poderia ser contada de uma maneira: "endupido". Esta é a grande sacada de Olivier Douzou em O dariz. E, quando se está entupido, não há outra coisa a fazer a não ser assoar. Assim começa a jornada do nariz protagonista à procura do grande lenço branco. Inspirado no famoso conto do escritor russo Nikolai Gógol.



De: Isabel Minhós Martins e Ilustração: Bernardo Carvalho
Ed. Casac Naify - R$35,00
A partir de 4 anos
'Pê de pai' apresenta as diferentes formas que o pai pode assumir para agradar o filho - o pai avião, o pai motor, o pai esconderijo, o pai colchão, o pai cofre, e muitos outros. As ilustrações combinam poucas e vivas cores para personificar as metáforas do texto.


Flicts - De:Ziraldo
Ed. Melhoramentos - R$31,50
A partir de 4 anos
O mundo é feito de cores, mas nenhuma é Flicts. Uma cor rara, frágil, triste, que procurou em vão por um amigo.



O Conto de Fadas da Lili - De: Emma Thompson
Ed.Caramelo - R$39,90
A partir de 4 anos
Lili é uma boneca de pano que, após encontrar um livro de contos de fada, só pensa em ser uma princesa. Com a ajuda do amigo Pepino, um panda de pelúcia, eles começam a brincar de Bela Adormecida, A princesa e a ervilha, Cinderela. Pepino, porém, não está sendo um príncipe à altura do que Lili esperava. Afinal, ele só apronta confusões. Mas Lili muda de ideia assim que ele a salva de um grande perigo.
 
Cadê o Juizo do Menino? - De:Tino Freitas e Ilustração:Mariana Massan
Ed. Manati - R$28,00
A partir de 4 anos
"O juízo é um parafuso que a gente deixa apertado pra máquina do pensamento não fazer nada errado". O músico, jornalista e mediador de leitura Tino Freitas teve de ter muito juízo para desparafusar as ideias de um menino travesso e soltar a imaginação do leitor.


A História Mais Longa do Mundo - De: Rosane Pamplona
Ilustração: Tatiana Paiva -
Ed.Brinque Book R$28,70
A partir de 4 anos
Era uma vez um rei que adorava ouvir histórias, porém achava as histórias curtas demais. Até que um dia, furioso, mandou o pobre contador para a prisão e lançou um desafio: daria quinhentas moedas de ouro a quem lhe contasse uma história tão comprida, tão comprida que o fizesse cansar. Será que algum súdito conseguirá vencer o desafio?
Peppa - De:Silvana Rando
Ed.Brinque Books - R$27,80
A partir de 4 anos
Peppa nasceu assim - linda e cabeluda. Bem no alto da cabeça, lá estava ele, um chumaço de cabelo preto e volumoso, mas não era qualquer cabelo não! Tratava-se do cabelo mais forte do universo, resistentes como fio de aço.


Ilustração: Ionit Zilbeman
Ed: Brinque books
R$28,70
A partir de 4 anos






Vovô Virou Árvore
De: Regina Chamlian - Ilustração: Helena Alexandrino
Ed.SM - R$21,50
A partir de 5 anos
A obra traz à tona a perda de um ente querido por meio de uma fábula, na qual os protagonistas pertencem a uma família de tartarugas.União, respeito e admiração são características presentes nesta história, em que o vovô saudosista mostra o que aprendeu na vida, compartilhando suas histórias com os netos, que as escutam atentamente. Albertina é a caçula da família. Ela demonstra um apego muito grande pela tartaruga anciã, sempre pedindo para o avô repetir o relato de suas proezas, principalmente aquela em que ele vence a corrida contra um coelho e a que mostra como conseguiu escapar dos caçadores. O coração de Albertina sempre batia forte quando vovô contava essa história. Mas o avô sofre um acidente e morre. Albertina busca então consolo ao pensar que ele agora se transformará em nuvem, chuva e árvore. O vovô será devolvido à natureza, dizia sua avó. A superação acontece quando a pequena tartaruga assume o lugar do ancião, passando a contar história para as tartarugas menores embaixo de uma árvore, uma árvore que era a cara do vovô. Indicada para o leitor iniciante, a partir dos 6 anos. Possui elementos de uma fábula ao mesmo tempo em que explora a relação das crianças com os mais velhos, o processo de amadurecimento, a transmissão de conhecimento e a perda de entes queridos.


O Pato, a Morte e a Tulipa - De:Wolf Erlbruch
Ed.Casac Naify - R$35,00
A partir de 5 anos
Em 'O pato a morte e a tulipa' o autor questiona 'para onde vamos' por meio de uma amizade incomum. Se dizem que a morte nunca atrasa, o autor nos mostra que, ao conhecer e se encantar com um pato, ela perde a noção do tempo e até desfruta um pouquinho da vida. O pato a ensina a mergulhar no lago, subir em árvores e tirar uma soneca. E onde a tulipa entra nesta história? A resposta cabe ao leitor.

Este blog seguiu indicação etária da Revista Crescer

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