segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ainda o Prêmio Jabuti 2010

Somos o elo mais fraco neste mercado hostil .

Ainda a respeito da controvertida premiação de Chico Buarque o jornalista e escritor Edney Silvestre, autor de Se Eu Fechar os Olhos Agora,  primeiro colocado categoria romance do Prêmio Jabuti 2010, faz a seguinte declaração ao  caderno Ilustríssima do Jornal Folha de São Paulo

"Sou essencialmente um jornalista enveredando pelos caminhos da literatura.
Escrevo porque gosto de contar histórias que, imagino, interessem às outras pessoas. A aceitação que busco, mesmo, é a dos leitores.
Não fiz --nem me caberia-- nenhum comentário público sobre a polêmica do Jabuti --que, registremos, deu a meu romance de estreia o primeiro lugar na categoria, para minha alegria.
Por isso mesmo, só posso lamentar que, numa discussão em nome de ética, respeito, delicadeza e cultura, seja gratuitamente atacado por um dono de uma poderosa editora "concorrente", que bem sabe que nós autores --ainda mais iniciantes-- somos o elo mais fraco neste mercado surpreendentemente tão hostil. "

Mais postagens sobre este assunto: clique aqui, para ver a entrevista do diretor da Editora Record que retirou-se da premiação e em Ganha o segundo colocado, para ver o que aconteceu.

Cem livros mais vendidos de 2010

Os 100 livros mais vendidos da biblioteca da Folha de São Paulo  são:



Pode ser comprado nas Americanas.R$9,40
 Série 1001
1001 Razões para Você Sorrir
Marion Kaplinsky
12 Meses para Enriquecer
Marcos Silvestre
1822
Laurentino Gomes
90 Livros Clássicos para Apressadinhos
Henrik Lange
15 Minutos
Alemão
Sylvia Goulding
Almanaque das Curiosidades Matemáticas
Ian Stewart
Aquela Canção
Milton Hatoum, Livia Garcia-Roza, Moacyr Scliar ...
A Arte de Escrever Bem
Dad Squarisi, Arlete Salvador
Atlas da Experiência Humana
Louise Van Swaaij, Jean Klare
Os Axiomas de Zurique
Max Gunther
A Bola de Neve
Alice Schroeder
Caminho Suave: Cartilha
Branca Alves de Lima
O Chefe
Ivo Patarra
Seu Guia passo a passo:Chicago
Gallimard
Como Educar Meu Filho?
Rosely Sayão
Como Não Criar um Filho Perfeito
Libby Purves
Deu no New York Times
Larry Rohter
Escrevendo pela Nova Ortografia
Instituto Antônio Houaiss
15 Minutos
Espanhol
Ana Bremón
Eu Vou Te Enriquecer
Paul McKenna
A Experiência Homossexual(esgotado)
Marina Castaneda
Famílias Animais
Dorling Kindersley
Guia de Conversação para Viagens
Francês
Dorling Kindersley
15 Minutos
Francês
Caroline Lemoine
Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Leandro Narloch
A História Secreta dos Papas
Brenda Ralph Lewis
Honoráveis Bandidos


Palmério Dória
Incríveis Passatempos Matemáticos
Ian Stewart
15 Minutos
Inglês
Jane Wightwick
Guia de Conversação para Viagens
Inglês(esgotado)
Dorling Kindersley
Guia Visual Folha de S.Paulo
Itália
Dorling Kindersley
15 Minutos
Italiano
Francesca Logi
Guia de Conversação para Viagens
Italiano
Dorling Kindersley
Jogue Fora 50 Coisas
Gail Blanke
O Livro da Arte
Phaidon
O Livro do Brigadeiro
Juliana Motter
Livros
Carlos Heitor Cony, Contardo Calligaris, Moacyr Scliar ...
Wallpaper City Guide
Londres
Wallpaper
Manual da Redação
Folha de S.Paulo
Marcelino por Claudia
Claudia Matarazzo(esgotado)
Não Tenha Medo de Ser Chefe
Bruce Tulgan
Novo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
Instituto Antônio Houaiss
Pequenos Prazeres
Cynthia MacGregor
Pizzas
Craig Priebe, Diane Jacob
Porco-espinho
Irmtraud Tarr Kruger
O Que Seu Cocô Está Dizendo a Você
Anish Sheth, Josh Richman
Rico sem Dinheiro
Alexander von Schönburg




Wallpaper City Guide
São Paulo
Wallpaper
100 Receitas de Saúde
Sucos e Vitaminas
Sarah Owen
Guia Visual Folha de S.Paulo
Walt Disney World Resort & Orlando
Dorling Kindersley
1808
Laurentino Gomes
Além de Darwin
Reinaldo José Lopes
Alice
Lewis Carroll
Breves Encontros:A Arte de Ser Feliz
Arthur Schopenhauer
A Arte de Ter Filhos
Véronique Vienne
Do Big Bang ao Universo Eterno
Mário Novello
Brasil: uma História
Eduardo Bueno
A Cabana
William P. Young
Folha Explica:Carlos Drummond de Andrade
Francisco Achcar
Coleção Folha Decoração & Design
Casas Contemporâneas (Vol. 1)
Alexandra Dresne
Como Identificar as Pessoas Pelos Gestos
Joseph Messinger
Coleção Folha Decoração & Design
Cores e Texturas (Vol. 2)
Alexandra Dresne
Criação Imperfeita
Marcelo Gleiser
Dieta Nota 10
Dr. Guilherme de Azevedo Ribeiro
Ilha Deserta:Discos
Eduardo Giannetti, Marcelo Coelho, Tom Zé ...
The Economist:Economia sem Mistério
Matthew Bishop
Efeito Sombra
Deepak Chopra, Marianne Williamson, Debbie Ford
Série 21:Eleições 2.0
Antonio Graeff
Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais
Antonio Lavareda
Guia de Conversação Para Viagens
Espanhol
Dorling Kindersley
Eu Sou o Último Judeu
Chil Rajchman
Guia Visual Folha de S.Paulo
Europa

Quatro Mulheres, quatro romances
Jorge Amado
Dorling Kindersley
Ilha Deserta:Filmes
Bernardo Carvalho, Amir Labaki, Agnaldo Farias ...
Vida Saudável:Fontes de Energia
Sarah Brewer
Série Roteiros Inesquecíveis
Guia As Melhores Viagens de Carro: Itália
Paul Duncan
Folha Explica:Guimarães Rosa
Valnice Nogueira Galvã
Guia Visual Folha de S.Paulo
Ilhas Gregas e Atenas
Dorling Kindersley
O Incrível Livro do Corpo Humano Segundo o Dr. Frankenstein
Richard Walker, Dorling Kindersley
Guia de Conversação Ilustrado
Inglês
Dorling Kindersley
Seu Guia Passo a Passo:Istambul
Gallimard
Justin Bieber
Tori Kosara
O Livro das Meditações
Gilda Telles
As Melhores Viagens do Mundo
Dorling Kindersley
Mentes Perigosas
Ana Beatriz Barbosa Silva
Folha Explica:O Narcotráfico
Mário Magalhães
The Economist
Negociação sem Mistério
Gavin Kennedy
Novo Kama Sutra Ilustrado
Alicia Gallotti
Pare de se Sabotar e Dê a Volta por Cima
Flip Flippen
Folha Explica:Políticas Públicas
Marta M. Assumpção Rodrigues
Guia Visual Folha de S.Paulo
Portugal, Madeira e Açores
Dorling Kindersley
Top 10:Provença e Côte d'Azur
Robin Gauldie, Anthony Peregrine
Quatro Mulheres, Quatro Romances(esgotado)Jorge Amado
Redação Linha a Linha
Thaís Nicoleti de Camargo
Folha Explica:São Paulo
Raquel Rolnik
O Símbolo Perdido
Dan Brown
Sushi
Sérgio Neville Holzmann
Top 10:Veneza
Gillian Price
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa - Brochura
Academia Brasileira de Letras
Dicionário Houaiss de Sinônimos e Antônimos
Instituto Antônio Houaiss
Guia Visual de Bolso:Paris
Dorling Kindersley


Segunda-feira poética: Carlos Pena Filho

As dádivas dos amantes

Deu-lhe a mais limpa manhã
Que o tempo ousara inventar.
Deu-lhe até a palavra lã,
E mais não podia dar.

Deu-lhe o azul que o céu possuía
Deu-lhe o verde da ramagem,
Deu-lhe o sol do meio dia
E uma colina selvagem.

Deu-lhe a lembrança passada
E a que ainda estava por vir,
Deu-lhe a bruma dissipada
Que conseguira reunir.

Deu-lhe o exato momento
Em que uma rosa floriu
Nascida do próprio vento;
Ela ainda mais exigiu.

Deu-lhe uns restos de luar
E um amanhecer violento
Que ardia dentro do mar.

Deu-lhe o frio esquecimento
E mais não podia dar.

sábado, 27 de novembro de 2010

Crônicas da M.P.B: Domingo no Parque, Gilberto Gil


Domingo no Parque
Gilberto Gil


O rei da brincadeira (ê, José)
O rei da confusão (ê, João)
Um trabalhava na feira (ê, José)
Outro na construção (ê, João)
A semana passada, no fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E não foi pra Ribeira jogar capoeira
Não foi pra lá, pra Ribeira, foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio

Foi no parque que ele avistou Juliana
Foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração

O sorvete e a rosa (ô, José)
A rosa e o sorvete (ô, José)
Foi dançando no peito (ô, José)
Do José brincalhão (ô, José)
O sorvete e a rosa (ô, José)
A rosa e o sorvete (ô, José)
Oi, girando na mente (ô, José)
Do José brincalhão (ô, José)

Juliana girando (oi, girando)
Oi, na roda gigante (oi, girando)
Oi, na roda gigante (oi, girando)
O amigo João (João)

O sorvete é morango (é vermelho)
Oi girando e a rosa (é vermelha)
Oi, girando, girando (é vermelha)
Oi, girando, girando...
Olha a faca! (olha a faca!)

Olha o sangue na mão (ê, José)
Juliana no chão (ê, José)
Outro corpo caído (ê, José)
Seu amigo João (ê, José)

Amanhã não tem feira (ê, José)
Não tem mais construção (ê, João)
Não tem mais brincadeira (ê, José)
Não tem mais confusão (ê, João)



Sugestão da internauta Fatinha, a quem agradeço.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O que estou lendo?

Sabres e Utopias. M.V Llosa
 Sabres e Utopias, visões da América Latina  
Mário Vargas Llosa
Ed. Objetiva - 2010
420 páginas
Num livro imperdível, Vargas Llosa fala como vê a America Latina como um todo e alguns paises isoladamente; aponta o que concorda e o que discorda em alguns dirigentes; frequentemente dá mais ênfase ao Peru, por ser seu pais. Era o esperado. Dá uma aula de sociologia quando fala da viagem que empreendeu ao interior da Bahia, quando ia escrever A Guerra do Fim do Mundo, romance cujo cenário é a Guerra de Canudos. Llosa é didático sem ser cansativo; corajoso e incisivo, jamais panfletário; argumenta com grande coerência as críticas que faz, à imprensa, Fidel Castro, Hugo Chávez, Lula, intelectuais de qualquer tendência ideológica, etc levando o leitor a pensar seriamente antes de refutá-lo.
Encantada, porém não surpresa, com  Sabres e Utopias passei a ver Mário Vargas Llosa como uma pessoa de grande caráter. Um intelectual com capacidade de rever conceitos, ideologias, posicionamentos políticos e além do mais coragem  suficiente de se posicionar abertamente e, se não bastasse, escrevendo extremamente bem. É um exagero! Pela raridade,mostrada nesse livro, Vargas Llosa tem meu aplauso. Recomendo a leitura.
Meu exemplar já tem fila, mas ofereço aos integrantes da comunidade L.E

O que você está lendo, amigo internauta?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Horóscopo poético -Sagitário:22 de novembro a 21 de dezembro

Sagitário

Vinícius de Moraes
As mulheres sagitarianas
São abnegadas e bacanas.
Mas não lhe venham com grossuras
Nem injustiças ou censuras
Porque ela custa mas se esquenta
E pode ser muito violenta.
Aí, o homem que se cuide...
– Também, quem gosta de censura!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Segunda-feira poética: Pablo Neruda

El Culpable
Pablo Neruda

Me declaro culpable de no hacer
hecho, con estas manos que me dieron,
una escoba
`
Por qué no hice uma escoba?

Por qué me dieron manos?

Para qué me sirvieron
si sólo vi el rumor del cereal,
si sólo tuve oídos para el viento
y no recogí el hilo

de la escoba,
verde aun en la tierra,
y no puse a secar los tallos tiernos
y no los pude unir
en un haz áureo
y no junté una caña de madera
a la falda amarilla
hasta dar uma escoba a los caminos?

Así fue:
no sé cómo
se me pasó la vida
sin aprender,sin ver,
sin recoger y unir
los elementos

En esta hora no niego
que tuve tiempo,
tiempo,
pero no tuve manos,
y así, cómo podia
aspirar com razón a la grandeza
si nunca fui capaz
de hacer
una escoba.
una sola,
una?

(Las Manos Del Día - 1968)

domingo, 21 de novembro de 2010

Domingo Cordel

Minhas musas do Olimpo,
Peço a vós, inspiração.
Iluminem a minha alma,
Pra narrar com precisão
Uma história muito triste
De uma seca que persiste
Na caatinga do sertão.


Ventos supremos bravios,
Varrendo Areia Dourada,
Na negra manhã de maio,
Com a rua poeirada
Essa cidade  Paulista,
Areia dourada lista
No mapa, bem na beirada.


O sol estava por vir,
Os galos eram vergados,
Sentindo a força dos ventos
Uns eram arrebentados.
ao som da verde folhagem,
Num ritmo muito selvagem,
Rangiam, sendo açoitados.

(O coronel avarento Josué Gonçalves, Ed. Luseiro)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Carlos Pena Filho em exposição comemorativa

Exposição Carlos Pena Filho
Onde: Santander Cultural (Av. Rio Branco, 23, Bairro do Recife)
Quando: do dia 18 de novembro até 16 de janeiro de 2011
Hora: a partir das 14h
Carlos Pena Filho é considerado um dos maiores poetas de Pernambuco.


Mesa posta próxima à entrada
da exposição -
Amigos, conheci e recomendo a exposição.
Bom trabalho de pesquisa, muito organizada, espaço agradável e uma forma de concepção (Museu da Língua Portuguesa em SP) de exposição/museu diferente da que estamos acostumados aqui no Recife.





quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Meus três velhinhos da Revista O Cruzeiro

Rachel de Queiroz para mim  é absolutamente familiar. Evoca meus pais que, leitores assíduos da Revista O Cruzeiro, me despertaram a curiosidade para aquela escritora cuja  foto  PeB era colocada semanalmente na última página da revista mais lida de tempos passados.  Meu pai teria hoje a mesma idade de Rachel e minha mãe estaria com 97 anos. Foram seus leitores de Rachel de Queiroz até fora da revista. Mamãe me apresentou  O Quinze e meu pai leu atentamente Memorial de Maria Moura que só comecei a ler agora, muitos anos depois dele.  Dediquei o dia do blog a Raquel de Queiroz e, por tabela, quase sem notar, a Alípio e Maria Emília que me deram carinho e a mania de ler.

A Revista O Cruzeiro foi publicada pela primeira vez em 1928 e acabou em 1975. Até hoje é a revista mais longeva do país. A Veja - que seria sua correspondente na atualidade - ainda precisa de mais tres anos de circulação.
Rachel de Queiroz, estreou na Revista O Cruzeiro em 1945 com a crônica que publiquei neste blog:
http://livroerrante.blogspot.com/2010/11/quarta-feira-e-dia-de-conto-rachel-de.html

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Hoje é dia de Rachel

Questionários
Rachel de Queiroz





Começou o ano de 1959, estava tardando: lá vem o amigo dos questionários (que se assina J. A. Côrrea, de São Paulo). Êle insiste porque sabe que o êxito é certo, os leitores ficam alvoroçados muita gente se interessa por responder também, ou discutir as respostas dadas. Acho que é coisa da natureza humana isso de gostar de ser interpelado e responder, explicar-se, nem que seja para sofrer. Não fôsse assim, como é que os entrevistados em certos programas de televisão se prestariam a expor-se num verdadeiro pelourinho, respondendo a indagações que, ou são indiscretas, ou são descorteses, ou são capciosas, ou são maldosas - e, invariàvelmente, mesmo quando formuladas por amigos, são perguntas de inimigo? Note-se que não censuro os produtores dos programas. Estão no seu papel de bons repórteres, tratando de tirar o máximo de informação e novidades dos seus entrevistados. O que me admira é a cooperação das “vítimas”. Porque se prestam ao interrogatório a trôco de nada - não é por obrigação, não é por dinheiro. Talvez porque o homem, na sua essência, é mesmo um bravo, um lutador, e gosta de sentir o desafio, descobrir adversários e meter-se com êles. Assim como os campeões da Idade Média que arriscavam a vida em torneios: o seu principal atrativo era mesmo sentir a presença do perigo. Eu, porém, que sou uma fraca mulher, confesso que jamais me entregaria àquelas feras. Nem por ouro, nem por prata, nem por sangue de Aragão. Vou-me ficando por estes inocentes questionários de leitores, que satisfazem de algum modo o nosso instinto de duelo — mas duelo ameno, daqueles que têm de acabar antes do primeiro sangue...



Mas eis as perguntas de J. A. Côrrea:

1) - Vocês (refiro-me a certo grupo brasileiro de opinião, ao qual você pertence) têm-se mostrado ùltimamente muito pessimistas. Que querem que se faça? Que desista de tudo inclusive de lutar, de casar e ter filhos e de acreditar no futuro do Brasil?


Resposta: Deus me livre! Aliás nego que nós andemos pessimistas. As coisas é que andam ruins. E a prova de nosso otimismo é que, apesar de tudo, o conselho que lhe dou é que continue a lutar, a ter filhos, e a acreditar no futuro do Brasil. Embora eu não saiba bem o que é que você chama o "nosso" Brasil. Será êle o nosso mesmo, ou o "dêles"?

2) - E, falando em pessimismo, se nada vale a pena, por que é que vocês ainda escrevem?


R: Já neguei o pessimismo. Quanto ao motivo para continuar escrevendo, só posso responder por mim: escrevo porque é êsse o meu ofício, o meu ganha-pão. Ah, se eu mandasse na minha sorte, seria outra coisa muito diferente. Dona de restaurante, atriz, ou - sonho dos sonhos - uma matriarca fazendeira, igual à minha avó Rachel, cheia de filhos e netos, no sertão do Ceará...

3) - Você se interessa por luniks, explorers, UFO etc?


R: Muito. Mas tenho um mêdo danado dessas liberdades com o espaço sideral. Se o pessoal lá de cima se aborrece...

4) - Diga a coisa que mais a comoveu, ùltimamente?


R: Uma conversa que tive com a mãe do Tenente Fernando, desaparecido na floresta amazônica.



5) - Que tal o ano literário de 1958?
R: Excelente. Basta citar o novo volume de memórias do grande, não - do imenso Gilberto Amado; o monumental “Fundadores do Império” de Octávio Tarquínio de Souza. E quero dar um lugar especialíssimo às “Florestas” de A. Frederico Schmidt: confissão, depoimento, memória, poesia? - não sei, será isso tudo e mais ainda, sendo igualmente um dos mais altos momentos do poeta.

6) - Fale sôbre política. Nacional?
R: Não falo absolutamente. Não quero me aborrecer nem aborrecer aos outros.



7) - Qual seu candidato à Presidência da República?
R: Ainda estou assuntando. Mas parece que o Jânio é a pedra que rola da montanha. Cada dia aumenta mais.

8) - E política internacional? Nesse terreno, que fato lhe pareceu mais importante, no ano passado e comêço dêste ano?
R: As insurreições coloniais. As lutas raciais na África e no resto do mundo. A crescente derrubada do homem branco e do seu poderio.


9) - Qual será, na sua opinião, o vencedor da guerra fria: Rússia ou Estados Unidos?
R: Você quer respostas ou profecias? Em todo o caso, posso dizer que, na minha opinião, não haverá vencidos nem vencedores. Mesmo que rebente uma guerra de verdade. Ou quem sabe só haverá vencidos?


10) - Se lhe dessem o govêrno do Brasil, que é que você faria?
R: E você acha que alguém iria cometer uma loucura dessas?


Acabou. No mais, desculpem as faltas.

(www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro ) ano 1959
Sublinhado e itálico feitos por mim. O blog manteve a grafia original.

Hoje é dia de Rachel de Queiroz:

Louvada
Manuel Bandeira  para Rachel de Queiroz

Louvo o Padre, louvo o Filho,

O Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga,
Nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela,
Pois que, com ser do Ceará,
Tem de todos os Estados,
do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil: quero dizer
Brasil de toda maneira
- Brasília, brasiliense,
- Brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada
Uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência,
E louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente,
Meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos,
Louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista,
Louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, duas vezes
Louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze
E os outros três; louvo As Três
Marias especialmente,
Mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião
E a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação,
Porque. Por mais que a louvemos,
Nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e
Do Espírito Santo, ámen.


Manuel Bandeira(Recife, Brasil, 19/4/1886 – Rio de Janeiro, 13/10/1968)

Hoje é dia de Rachel: Réquiem Para Rachel de Queiroz

Réquiem para Rachel de Queiroz
Murilo Melo Filho *


Cearense de Fortaleza, Rachel de Queiroz nasceu no dia 17 de novembro de 1910. E morreu no dia 4 de novembro, portanto às vésperas de completar 93 anos. Ao longo destes anos, tão bem vividos, ela foi sempre uma admirável escritora, que ainda há pouco tempo lançou o livro Tantos anos, escrito a quatro mãos com a irmã Maria Luíza. “Sem ela, não haveria livro, que me arrancou à força. Trabalhamos juntas durante quatro anos, ela me perguntando e eu respondendo”, contava a autora de livros consagrados e referenciais, como O Quinze - escrito quando tinha apenas 20 anos, uma obra pronta e acabada, que a consagrou no universo literário do país. Escreveu também Lampião, A beata Maria do Egito, João Miguel, Caminho de pedras, O galo de ouro, Memorial de Maria Moura, Dôra Doralina e As três Marias, seus dois melhores romances.


Transparente, coerente e sincera, com a sensibilidade nordestina à flor da pele, Rachel ofereceu-nos sempre uma permanente lição de fidelidade à sua vida de contadora de histórias. Poucos autores conseguiram, melhor do que ela, escrever com tanta desenvoltura e simplicidade. Sua prosa é sóbria, coloquial e escorreita; trafega, límpida, fagueira e impávida, pelos olhos do leitor, sem transbordamentos, sem excessos e sem retumbâncias, dentro de uma narrativa não raro dramática, com enfoque especial contra os estamentos preconceituosos da aristocrática sociedade de então.


Foi a pioneira da temática social no romanceiro nordestino: dos paraibanos José Américo, José Lins do Rêgo e Ariano Suassuna; do pernambucano Gilberto Freyre; do alagoano Graciliano Ramos; do sergipano Amando Fontes e do baiano Jorge Amado.


Foi pioneira também na Academia Brasileira de Letras, a primeira mulher a eleger-se em nossos quadros de Membros Efetivos, para a Cadeira n.º 5, na sucessão de Cândido Mota Filho. O presidente Jânio Quadros quis nomeá-la ministra da Educação, mas ela não aceitou o convite, por entender que uma professora do Ceará não devia ocupar um Ministério. E se perguntava: “Como continuar sendo escritora e ministra ao mesmo tempo?”


Revelava que aos 20 anos já estava no Partido Comunista: “Logo cedo, porém, vi que era impossível a convivência de pessoas inteligentes com comunistas militantes. Dois anos depois, rompi com o partido, quando ele censurou uma peça minha e quis me obrigar a fazer uma auto-censura. Fui então expulsa solenemente. Chamaram-me até de policial-fascista, embora ainda hoje me tenho como socialista e, por isto mesmo, estou a milhares de quilômetros da Rússia”.


Seu tataravô era tio e padrinho do romancista José de Alencar, do qual se considera assim uma descendente. Por parte dos Alencares, era prima do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco.

Morou durante 12 anos na ilha do Governador; residiu durante 14 anos na Rua Cândido Mendes, na Glória; e há vários anos, morava em seu refúgio da Rua Rita Ludolf, no Leblon.

Sua única filha morreu com 1 ano e meio de idade. Coube-lhe criar a irmã Maria Luíza, além dos netos Flávio e Daniel, que considerava filhos. Dizia: “Os avós não têm obrigação de educar os netos. Só de amá-los. Educação é tarefa dos pais”.


E quanto aos seus livros? “Não costumo relê-los. De certo modo, sinto até um pouco de vergonha deles, embora alguns me persigam até hoje. De nenhum fiz propriamente um lançamento, com noite de autógrafos. Eles sempre chegavam discretamente às livrarias e aí ficavam à disposição”.


Rachel se considerava uma senhora avó, que já havia pago todas as prestações da vida. E, ao contrário do sertanejo, que, quando recebe um convite para tomar chá, responde: “Obrigado, mas não estou doente”, Rachel gostava de chá e, por isto, não estranhou o da Academia Brasileira de Letras, nas nossas quintas-feiras.


Vascaína e adepta do casamento, ela escrevia por obrigação, nunca teve fé, era uma atéia mística, com nostalgia de religião, de Deus e de uma alma imortal, que não sabia se tinha, mas que gostaria de ter.


* Murilo Melo Filho,

Hoje é dia de Rachel: Telha de Vidro (Poesia)

                                                        Telha de Vidro
Rachel de Queiroz


Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
                                                        de sua treva e de sua única portinha...


A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...


Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz do dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.




Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão bem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Hoje é dia de: Rachel - Correspondência

Correspondência
Rachel de Queiroz



    Chega-se de viagem e o amontoado de correspondência nos espera – parece que está crescendo, ou será ilusão de vista, filha do sentimento de culpa? Êsse problema de cartas, para o pobre escritor brasileiro, é dos mais sérios. Respondê-las tôdas seria impossível. E, por outro lado, não há por cá o hábito de encarregar secretários da nossa correspondência particular; a tendência do correspondente seria ressentir-se, ao receber uma folha de papel formal e datilografada por terceiro, em resposta à sua cartinha espontânea e pessoalíssima. Aliás – começa que nem temos secretários. Pelo que sei, só artistas de rádio se podem, entre nós, dar êsse luxo...
    Depois – a maioria esmagadora das cartas que recebemos tratam de assunto que secretário nenhum pode resolver: pois, sem exagêro, 90% dos que nos procuram, o seu fim principal é êste: mandar uma amostra do que escrevem e pedir ao jornalista a quem se dirigem uma palavra de incentivo ou de crítica, ou uma promessa de publicação. Peço agora a Deus que me inspire para poder explicar a êsses confiantes amigos e leitores a impossibilidade em que nos vemos para lhes satisfazer os desejos. Dizer-lhes de saída que a crítica literária é atividade muito difícil, muito complexa, que exige não só vocação específica, como conhecimentos muitíssimos especializados. Não pode ser exercida assim de repente, por simples capricho; ou para satisfazer um amigo. O fato de um de nós escrever crônicas que agradem a um ou a outro, ou compor versos, ou inventar histórias, não nos confere automàticamente capacidade e muito menos autoridade para julgar trabalhos literários. Eu, de mim, confesso que a simples página que me manda um candidato a escritor (a menos que seja tão ruim que a evidência salte do papel) deixa-me na maior perplexidade. Tenho mêdo de me enganar, de cometer um dêsses erros-julgamento que talvez possam a vir estragar uma vocação. Duvido do meu juízo, pois, se comigo própria tantas vêzes me engano, e mando para publicação muita coisa que jamais deveria ser posta em papel! Sim, tenho horror a servir de juiz.
    Além disso, tivesse eu disposição e capacidade para o ofício, ainda me faltaria outra condição indispensável: tempo. Pois teria que dedicar dias e dias seguidos – dias de que não disponho - para a leitura dos originais e a sua crítica, e mais outros dias para a correspondência com os autores... – e, em que tempo daria eu conta da acumulação variada e enfadonha das tarefas que já é o meu quinhão obrigatório neste vale de lágrimas? Creio que todo mundo sabe que nós, profissionais da pena, trabalhamos para ganhar a nossa vida. Escrever, para nós, é ofício, e ofício penoso. Diàriamente, como uma fera, a dentuça da máquina de escrever está aí para nos devorar o surrado miolo – é o artigo para entrega, é o livro, a peça, a tradução, –- sei lá! Raro, raríssimo o dia em que um compromisso de entrega urgente não nos amarra ao pé do malfadado instrumento – e enquanto os outros tomam banho de mar, ou vão ao cinema, ou batem papo nas livrarias, nós ficamos blá-blá-blá, no teclado, espremendo o juízo, inventando assunto, suando sangue. E assim, por maior boa-vontade que a gente tenha para com os que começam, primeiro temos que enfrentar os nossos dois grandes problemas: tempo e dinheiro. Precisamos de um para ganhar o outro...
    Dirão os que querem começar: e a quem nos dirigimos para conselhos, crítica, incentivo? Bem, falando franco, a maioria dos que começam a escrever, precisam mesmo é de um professor. E há muito curso bom de literatura e linguagem espalhados pelo Brasil todo. Críticos, para aquêles que estão em fase mais adiantada, que já estão seguros do que fazem e já se consideram em condições de enfrentar o público, também os temos, dos mais capazes e sabedores. Cada grande jornal ou revista tem o seu crítico oficial, assinando um rodapé ou seção fixa, e revista há, como a nossa irmã “A Cigarra”, que dispõe não apenas de um único crítico, mas de tôda uma equipe, escolhida entre os maiores nomes da especialidade, no País.
    Quanto às possibilidades de publicação, em jornal, revista ou livro, isso então é que não depende de nós escribas, de jeito nenhum. Um colaborador, como esta vossa criada, por exemplo, não tem nada, mas nada de nada, com a orientação, direção e publicação da sua revista. Escrevemos em casa, e o portador do jornal nos vem buscar a crônica no dia certo, tôda semana. Só uma vez por mês, no agradável dia de receber senão o vil metal, pelo menos o vil papel-moeda, é que chego até à Rua do Livramento, aproveitando a viagem para visitar e conversar um pouco com os queridos amigos, a bem dizer todos que lá trabalham, benza-os Deus. À direção, ao secretário, às seções especializadas de literatura, é que se devem dirigir os pretendentes, pois só dêles (e seria até intromissão indevida nossa o invadirmos o trabalho de colegas), só dêles depende a aceitação ou recusa de novos colaboradores.
    Com os editores de livros, dá-se o mesmo que com jornais e revistas. Cada editor tem o seu corpo de leitores que estuda os originais e escolhe os que merecem publicação. A edição de um livro, hoje em dia, representa grande emprêgo de capital e a gente não pode exigir de um editor amigo que arrisque cem ou duzentos contos num livro, só pelos nossos bonitos olhos, porque nós estamos pedindo. Êles lá dentro, depois de consultada a sua equipe de seleção e suas conveniências, é que podem decidir se tal original interessa ou não.
* * *
    Compreendo bem que tudo isso demonstra que cada dia se torna mais difícil aos jovens furar a barreira do desconhecimento. Mas a culpada disso não sou eu, e acho que falar a verdade não aumenta as dificuldades – talvez até facilite. Pode ser duro o que estou dizendo, mas é a realidade. Os moços que não se zanguem conosco, velhos profissionais, por essa recusa que talvez lhes pareça egoísta e desumana – mas o fato é que não está nas nossas mãos resolver o problema dêles. Nós somos uns pobres diabos como tôda gente, estamos muito longe de ser meros e felizes diletantes, que, interrompendo um ócio de comedores de lótus, vez por outra tomamos da pena e displicentemente produzimos a nossa obrinha-prima, regressando depois às delícias da nossa tôrre de marfim. Somos simples artesãos, temos uma vida dura e trabalhosa, pois quase sempre acumulamos o ofício de escrever, já de si ingrato, com as outras lutas mais ou menos duras da vida cotidiana.
    E os louros – êsses nossos louros em que vocês falam, quando querem nos lisonjear, posso lhes dizer que não se entrançam em coroa para nos ornar a fronte. Os daqui de casa, pelo menos, mal chegam para temperar o feijão...

Note–se bem: Pedidos de remessa de artigos, livros, etc., por favor encaminhem à gerência da revista ou da minha editôra. Os que estão em meu poder, tenho-os encaminhado – mas teriam resultado mais pronto e satisfatório fazendo assim, como estou aconselhando.

Dirijo-me, entre outros, ao amigo e leitor português que me mandou uma nota de vinte escudos, inclusa numa carta.

(memoriaviva.com.br/ocruzeiro  -17/10/1959)o blog manteve a grafia original

Hoje é dia de: Rachel - Inferno

Inferno
Rachel de Queiroz


    NÃO me lembro que nenhuma cidade do Mundo seja assim. Cada cidade tem os seus ruídos, mas são ruídos toleráveis, a que a gente pode acostumar-se, dentro dos quais é possível a vida. Mas no Rio é diferente. No Rio parece que há uma deliberada campanha contra a sanidade das criaturas, um desafio de loucos para ver quem é que faz mais barulho.
    Pràticamente, ao lado de cada casa há um prédio em construção; e por trás dos tapumes, metòdicamente, se organiza um inferno completo de ruídos intoleráveis - a começar pelo diabólico estrondar do mexedor de concreto, espécie de liquidificador gigante, onde em vez de pedaços de frutas se agitam pedras. E o ruído ao mesmo tempo cavo e estridente do batedor de estacas - mas, quando se diz cavo ou estridente, pense-se numa estridência multiplicada por mil - porque todo adjetivo é fraco para qualificar tal clamor: primeiro é a pancada surda - búuummm! num ronco fundo de terremoto, martelada cega nas entranhas da terra - e depois a repercussão vibrante do choque através da estrutura metálica do mecanismo, como um sino imenso mas rachado - dlôoommm! E tôda a vizinhança treme quando o pêso bruto tomba - Búumm! e depois há aquela pausa sinistra - e vem o Dllôoomm! que fica retinindo no ar, feito uma maldição trepidante. E há a mais todos os ruídos subsidiários da construção - as cavadeiras, as marteladas no ferro, as serras cortando metal, as misturadeiras de massa, as corredeiras de cascalho, com as pedrinhas em cachoeira se atropelando torrencialmente, interminàvelmente.
    E há, completando a orquestra, os incessantes ruídos da rua - o resfolegar dos carros que engatam primeira para a subida, os caminhões de escapamento aberto, as buzinas estrídulas, o apavorante ganido dos freios. E à noite, quando os operários descansam no que deveria ser o silêncio, a bendita calma da noite - começa o páreo diabólico das lambretas, e os carros que continuam acima e abaixo, ainda mais desinibidos do que durante o dia; sem falar nos aviões que cortam os céus sem parar, quer de dia quer de noite, talvez de minuto a minuto, em vôo baixo, rasante, sempre a levantar ou a aterrissar no Santos Dumont, aqui vizinho.
    E pensar que nós escolhemos casa nesta rua porque, sem trilhos de bondes, na subida de Santa Teresa, com seus oitis frondosos, parecia uma promessa de silêncio e pouco tráfego!
    O rádio do vizinho que toca aos urros, berrando um sambolero, ou gargalhando sinistro numa novela - some-se no turbilhão de ruídos, é apenas um acompanhamento musical ao fragor de ruídos mecânicos que não nos desperta pela manhã, ao agravar-se, porque já não nos deixou dormir a noite tôda. E não nos deixa trabalhar de dia, antes com seus martelos e seus mexedores de pedra, nos levanta a tampa da cabeça e se instala bem no meio dos nossos miolos nauseados.
    Escrevi na primeira linha o nome de inferno, e vou falando em diabos e demônios a cada linha seguinte - em verdade é porque se me perguntassem qual é minha concepção de inferno, eu diria que não é o fogo nem é o enxôfre, nem é o gêlo - mas o barulho. Inferno para mim é ruído - ruído irmão dêste estrondo mecânico que nos desgraça a vida aqui na cidade. Ai, se de vez em quando não me fôsse dado um período de repouso no silêncio abençoado do sertão, acho que eu já teria morrido, ou corrido doida, entoxicada de barulho. Dizem que no avião a jacto o principal alívio que se sente é a ausência de trepidação de motor - e realmente há de ser uma delícia - porque de tôdas as torturas da nossa civilização feita de rodas que se atritam e motores de explosão - a trepidação é a tortura maior de tôdas.
--------------------------------------------------------------------------------
    Amanhecer naquela tranqüilidade - sabendo que em léguas ao redor não lateja um engenho mecânico - nem um! - e onde um cantar longínquo de galo até parece um clarim. Ouvir pela noite um tinir de grilo - sim, meu Deus, escapar do pesadelo onde neste instante me afogo, sem um refúgio possível - a vitrola em frente a gritar alucinadamente “me dá um dinheiro aí”, o mexedor de concreto a chacoalhar como as tripas de ferro do demônio, um caminhão a óleo, de escapamento sôlto, a escalar a ladeira, uma buzina de jipe a ganir histèricamente, chamando um retardatário, o rangir rascante do freio de um carro que quase mata um cachorrinho na curva da Hermenegildo de Barros, tudo coberto pelo Superconstellation que nos sobrevoa, a preparar-se para o pouso - e pensar que existe no Mundo um lugar onde é possível escutar um grilo. Grilos! Já nem falo em passarinhos - na família de canários que fêz ninho no pé de jucá ao lado do alpendre; nem nos galos-de-campina que mariscam no terreiro -, bastava-me um grilo. E pensando em grilo faço sonhos impossíveis - chuva a pingar do beiral, um longínquo trovão a resmungar na serra azul...
    Impossível? Falei em impossível? Impossível era até ontem, quando só se falava em sêca. Mas aqui está o telegrama, Deus abençoe quem o assina - choveu no Ceará todo, no mês que vem já me vou!




(www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro 26/03/1960. O blog manteve a grafia original)