sábado, 13 de novembro de 2010

Rita - crônica de Rubem Braga

Rita

Rubem Braga

     No meio  da  noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.
    Seus cabelos castanhos - a fita azul - o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...
    Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
    Rita ouvindo música; vendo campos,mares,montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas,mas pegando dele seu jeito de amar - sério, quieto, devagar.
    Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhantes de prazer, eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
    Minha filha Rita em meu sonho me sorria - com pena deste seu pai, que nunca teve.

(200 crônicas Escolhidas - Ed.Record)