domingo, 7 de novembro de 2010

Hoje é dia de Cecília: Espectros

Espectros foi o primeiro livro de poesias de Cecília Meireles, publicado em 1919, provavelmente às custas da própria autora e em diminuta tiragem. Trazia um prefácio de Alfredo Gomes.
Fazendo jus ao nome, a obra tornou-se fantasmagórica: nunca reeditada ou sequer localizada, sobre ela correu a lenda de que, afinal, nem teria existido. Contra essa suposição depõe um breve artigo de João Ribeiro, bastante simpático ao livro, e publicado em O Imparcial, de 18 de novembro de 1919, em que vaticina um belo futuro para a jovem estreante.
Com Espectros, foi revelada uma nova e insuspeitada face de Cecília Meireles, de acentuada fatura parnasiana. Há também ecos dos poetas simbolistas, fase esta que foi renegada pela autora. A obra é formada por um conjunto de 17 sonetos históricos rimados, em decassílabos ou alexandrinos, e que, em sua maioria, evocam celebridades da história universal e da religião católica. Vejam, a seguir, como a estreante Cecília elaborou sua versão da figura mítica de Joana d’Arc:


Firme na sela do ginete arfante,
Da coorte na vanguarda, ei-la às hostis
Trincheiras que galopa, delirante,
Fronte serena e coração feliz.


Sob os anéis metálicos do guante,
Os dedos adivinham-se viris,
Que sustêm o estandarte palpitante,
Onde esplende a dourada flor-de-lis.


Rica de sonhos, crença e mocidade,
A donzela de Orléans, no seu tresvário,
De mística, na indômita carreira


Sorri. Nenhum tremor a alma lhe invade!
E, entanto, o olhar audaz e visionário
Já tem clarões sinistros de fogueira!...