quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Quarta-feira é dia de conto: A moça tecelã

A Moça Tecelã
Marina Colassanti
     Acordava ainda no  escuro, como  se ouvisse o  sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao  tear.
    Linha clara, para começar o  dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o  horizonte.
    Depois lãs mais vivas, quentes iam  tecendo hora a hora, em  longo tapete que nunca acabava.
    Se era forte demais o  sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão meis felpudo. Em  breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um  fio  de prata, que em pontos longos rebordava sobre o  tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
    Mas se durante muitos dias o  vento e o  frio brigavam com  as folhas e espantavam os  pássaros, bastava a moça tecer com  seus belos fios dourados, para que o  sol voltasse a acalmar a natureza.
    Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do  tear para a frente e para trás, a moça passava seus dias.
    Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um  lindo peixe, com  cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se  sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o  tapete. E à noite, depois de lançar seu  fio de escuridão, dormia tranqüila.
    Tecer era tudo o  que fazia. Tecer era tudo o  que queria fazer.
    Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o  tempo em  que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado.
    Não  esperou o  dia seguinte. Com  capricho de quem  tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no  tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi  aparecendo, chapeu emplumado, rosto  barbado,corpo  aprumado, sapato  engraxado. Estava justamente acabando de entremear o  último fio da ponta dos sapatos, quando  bateram à porta.
    Nem precisou abrir. O moço meteu  a mão na maçaneta, tirou o  chpéu de pluma, e foi  entrando na sua vida.
    Aquela noite, deitada contra o ombro  dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
    E feliz foi, por algum  tempo. Mas se o homem tinha pensado  em  filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do  tear, em nada mais pensou a não  ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
    - Uma casa melhor é necessária - disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram  dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para batentes, e pressa para a casa acontecer.
    Mas pronta a casa, já não lhe pareceu  suficiente. - Por que ter casa, se podemos ter palácio? - perguntou. Sem  querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com  arremates de prata.
    Dias e dias semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não  tinha tempo para chamar o  sol. A noite chegava, e ela não  tinha tempo para arrematar o  dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o  ritmo da lançadeira.
    Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu  tear o mais alto quarto  da mais alta torre.
    -É para que ninguém saiba do  tapete - disse. E antes de trancar a porta a chave advertiu: - faltam  as estrebarias, e não se esqueça dos cavalos!
    Sem  descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o  que fazia. Tecer era tudo o  que queria fazer.
    E tecendo, ela própria trouxe o  tempo em  que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com  todos os seus tesouros. E pela  primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.
    Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido  dormia sonhando com novas exigências. E descalça para não  fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao  tear.
    Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou  a lançadeira ao  contrário, e , jogando- a  veloz de um lado  para o outro, começou a desfazer seu  tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens,as estribarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. e novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além  da janela.
    A noite acabava quando o marido, estranhando  a cama dura, acordou, e espantado olhou em  volta. Não  teve tempo de se levantar. Ela  já  desfazia o  desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo  corpo, tomou o peito  aprumado, o  emplumado  chapéu.
     Então, como se ouvisse a chegada do  sol, a moça escolheu uma linha clara.  E Foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço  luz, que a manhã repetiu na linha do  horizonte,

(Doze reis e a moça no labirinto do  vento.
Nordica 1985) - 
Optei por manter a grafia original.