terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sem comida e pede livros -



Phapichue, o haitiano da foto acima, tem 18 anos, um par de óculos e nada para fazer. Ele mora em Cité Soleil, o favelão de Porto Príncipe, num barraco erguido sobre os escombros do terremoto. Como a maioria das pessoas por lá, acostumou-se à sede e à fome.

No entanto, quando conheci Phapichue, ao entardecer da última sexta- feira, ele não me pediu água, comida ou dinheiro. Pediu-me livros. “Eu estudava português”, ele me disse, ao descobrir que falava com um brasileiro. Estudava, no passado mesmo. A escola dele desabou.

Tentamos conversar em português. Phapichue sabia poucas palavras: “sim”, “não”, “obrigado”. Compreendia bem, mas se enrolava na hora de falar. Ele insistiu - queria livros. “É a primeira vez que vejo um estrangeiro aqui, que não seja militar. Cité Soleil é longe. A ajuda não chega”, argumentou.

Reparei que ele portava um tocador de MP3. Estranhei: “Se você tem dinheiro para comprar um desses, deve ter para comprar um livro”. Phapichue riu-se todo e disse, apontando para a engenhoca: “Achei esse aqui no lixo”. A risada sublinhava o óbvio: não se acha livros no lixo haitiano.


Expliquei que trouxera apenas dois livros para a viagem - e que, naturalmente, ele teria imensa dificuldade para conseguir lê-los. Phapichue assentiu. “Mas quando você voltar aqui, poderia trazer livros, não?”, ele arriscou. “Não sei se voltarei para cá”, eu disse.


Percebi que ele diminuía ao som das minhas palavras. Perguntei se poderia fazer algo. Phapichue parou, pensou por alguns instantes e respondeu: “Você não é jornalista? Conte o que está acontecendo aqui. Faça a ajuda chegar”.

(Do blog  de Diego Ecosheguy - foto de: Gilberto Tadday; Revista Veja 26/01/2010)