quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Magrelinha

Magrelinha
Lêda Porto Valença
No começo ela achou muito bom, porque, finalmente, tinha saído daquele lugar , pois não gostava de lá.

É certo que ali tinha umas amigas bem parecidas com ela, parecidas não, quase iguais só havendo diferença mesmo na cor das roupas e nos tamanhos , porque eram umas maiores que as outras. Porém, nenhuma tinha o cabelo azul igual ao dela. Nenhuma!

Mas mesmo assim ela não se sentia feliz morando naquela casa.
Lá havia muitos papéis, caixas, bichinhos de pelúcia, lápis de cores, tintas, pincéis, cartões... e todos os dias muitas pessoas passavam por ali, mas eram todas estranhas. De vez em quando, alguém que chegava olhava para elas, que ficavam sempre juntas,pegava uma delas, punha na palma das mãos , revirava, balançava, tornava a olhar,depois pegava uma outra, mais outra,deixava pra lá e ia embora. Ela ficava com uma raiva daquilo! Por que tinham de pegá-las?

Quando ia ficando de noite ou nos dias de domingo, ia todo mundo para casa e aí era bem legal: elas ficavam à vontade e brincavam, corriam, cantavam,mexiam naquelas coisas todas. Ela só não mexia mais naquela coisona , parecida com uma televisão,porque, uma vez tocou,sem querer, num objeto feito um rato e, de repente,aquela coisona acendeu um monte de luzes bem pequenininhas, que ela não acertou a apagar de jeito nenhum. No outro dia ouviu o dono da casa perguntar várias vezes, bastante aborrecido: “Quem mexeu aqui?”, “Quem deixou isso ligado a noite toda?”aí ela ficava bem quietinha no seu canto, porque também não adiantava falar que ninguém as escutava.

Um dia apareceram por lá duas moças que olharam muito para ela, pegaram nela (argh!) levaram-na para casa e passaram a chamá-la se Magrelinha.

Como eu disse antes, no começo ela gostou da nova moradia: era bem arrumadinha,sossegada,não havia aquele entra e sai de gente o dia todo, de vez em quando ela passeava um pouco...Mas acontece que por ficar quase o tempo todo num só lugar, perto da porta de entrada, depois de alguns dias ela danou-se a reclamar:

“Tem jeito não, Portabranca, pra todo lugar que eu vou tem sempre uma coisa ruim. Aqui é essa história de eu ficar o tempo todo nesse corredorzinho, olhando as mesmas coisas: um jarro com flores, dois porta-retratos, uma bonequinha vestida de amarelo, um quadro bem pequenininho...”
“Ah, Magrelinha, a vida é assim mesmo;umas coisas são agradáveis, outras não. É assim com todo mundo. Eu também não fico aqui o tempo todo?”
"Sim, Portabranca, mas pelo menos vê as pessoas que chegam e saem. E eu, na hora em que você dá passagem a elas, tenho de ficar escondinha atrás de você, não fico nem sabendo quem entrou e quem saiu dessa casa.
“Pare de tanto reclamar, Magrelinha! Você só fala das coisas ruins mas eu sei que de vez em quando você sai para passear, não é?

“É. E quando isso acontece é bem divertido. As moças me levam num transporte onde sempre tem espelhinho, batom,escova de cabelo,perfume, essas coisas de que mulher gosta, respondeu Magrelinha.”

“Pior é para mim. Magrelinha, pois além de não poder sair daqui, às vezes ainda levo umas pancadas de pessoas apressadas que chegam. E eu nem sei porque batem tanto em mim!”

“Mas eu nem tenho com quem conversar que não seja você, Portabranca. Com a boneca que mora na estante, eu já tentei, mas ela é chique, orgulhosa e nem me dá ouvidos. Tem também um colega meu, perto do jarro,que só vive deitado. Acho que ele está doente ou com muita raiva porque lê é roxinho roxinho. Não dá pra puxar papo. Logo ele que deveria ser bem sortudo, pois tem o desenho de um trevo.”
“Magrelinha, será que você ainda não se deu conta de sua importância?! Apesar de eu ser grandona e forte é em você que reside a minha segurança. Já parou para pensar sobre isso?”


“Ah, Portabranca, mas você é muito mais feliz do que eu. Tem suas irmãs por perto, tem um olho que faz mágicas pra você se divertir e todo mundo se preocupa com você. Tento é que em todos os lugares onde moro, sempre ouço as pessoas dizendo:”cuidado com a porta.” “antes de ir se deitar, dê uma olhadinha na porta.”

“Ah, é? Mas se eu desaparecer ninguém fica desesperado procurando por mim. Já com você é diferente. Quase toda hora eu escuto uma das moças falando “cadê o chaveiro da Magrelinha? Ou meu Deus, onde eu deixei o chaveiro da Magrelinha?”

“Sabe de uma coisa, Portabranca? Você me convenceu. Cada um tem um papel a cumprir e o certo é que sempre estamos precisando da ajudas dos outros , não é? Isso até me faz lembrar uma canção que diz assim:” não há você sem mim, eu não existo sem você...(*)” “Então vamos cantar?

(*) Eu Não  Existo  Sem  Você - Tom Jobim e Vinícius de Moraes
 
Do Livro: Linhas, Botões e Retalhos - organizado por; Ana Carol Lemos e Kika Freyre, com os textos produzidos pelos alunos do  curso  de contação  de histórias, turma  de 2009.