sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Clarice Lispector em documentário (1)

José Carlos de Oliveira, vamos fazer uma entrevista ótima, no sentido de sincera? Hoje não é meu melhor dia, porque estou muito gripada e triste.” É dessa forma pouco comum que Clarice Lispector começa a conversa com o cronista Carlinhos de Oliveira. O papo segue caminhos inusitados. O entrevistado manda a entrevistadora “deixar de frescura”; Clarice implora por um fecho de ouro para salvar seu trabalho (“minha tentativa de sobrevivência financeira”); confessa que gosta muito de seu entrevistado e, no meio de tudo isso, solta uma questão metafísica: “Carlinhos, o que vem depois da morte?”. A grande romancista, autora de A paixão segundo G.H., um dos momentos mais altos da literatura brasileira do século 20, fez jornalismo para viver e criar os filhos. Mas, como tudo que tocava se tornava Clarice, acabou por criar um jeito pessoal de entrevistar que revelava aspectos profundos de seu interlocutor, ao mesmo tempo em que denunciava o que ia em seu coração. Parte desse material foi publicado em 2007 no livro Entrevistas (Editora Rocco) e está agora disponível no curioso documentário ficcional De corpo inteiro – Entrevistas, dirigido pela sobrinha-neta da escritora, Nicole Algranti.




Feito diretamente para a televisão e para o mercado de DVDs, o trabalho reúne 15 entrevistas realizadas por Clarice Lispector com personalidades da cultura brasileira para a revista Manchete, entre 1968 e 1969. A seção se chamava “Diálogos possíveis”. A ideia da diretora foi convidar atrizes para interpretar a escritora e atores para dar vida aos entrevistados. Os que estão vivos (Ferreira Gullar, Tônica Carrero, Maria Bonomi, Nélida Piñon, Oscar Niemeyer e Elke Maravilha) foram convidados a responder às mesmas questões de Clarice, mas com liberdade para mudar as respostas anteriores. O resultado é um painel de época que é também um mergulho em algumas das possíveis Clarices que moravam dentro de Clarice Lispector. A costurar os vários quadros, passagens que trazem uma mulher solitária, interpretada por Aracy Balabanian.


“O filme teria sido um documentário, se todos estivessem vivos, mas passou a ser uma ficção com pitadas de documentário”, explica Nicole. A primeira entrevista traz Beth Goulart na pela da escritora, em conversa com Nelson Rodrigues, interpretado por seu filho, Jofre Rodrigues. Elegante, com semelhança física impressionante, a atriz carrega nos erres, uma marca da pronúncia de Clarice, e faz perguntas ao mesmo tempo profundas e aparentemente ingênuas: “Você é de esquerda ou de direita?”; “Você se sente um homem só?”; “O que é o amor, Nelson?”. Profundamente distintos em termos de estética e visão de mundo, os dois parecem se encontrar exatamente na fuga dos temas mais conjunturais para se aprofundar no mistério da existência e da solidão.


Outro momento forte do filme é o diálogo com Fernando Sabino. Louise Cardoso dá vida a uma Clarice mais solta e solar, talvez pelo fato de se encontrar com um grande amigo, com quem sempre se aconselhava e com quem trocou cartas reveladoras (mais tarde editadas no volume Cartas perto do coração). Curiosamente, o ator Fernando Eiras mostra um Sabino tímido, quase introspectivo, distante da imagem pública do escritor falante e seguro. A caracterização é forte e dá uma dimensão profunda aos questionamentos de Fernando Sabino sobre a morte e religião. Letícia Spiller interpreta Clarice em duas entrevistas, com Carybé (vivido por Paulo Vespúcio) e Jorge Amado (interpretado por Jayme Cunha). Criada no Nordeste, a bela imagem de Clarice andando pelas ruas de Salvador revela uma sensualidade que encanta quando comparada com a ideia de uma escritora cerebral e filosófica. Há um impulso para a alegria captado com sensibilidade.


A escritora é interpretada ainda pelas atrizes Silvia Buarque (em entrevista com Hélio Pellegrino/Chico Diaz), Dora Pellegrino (que conversa com Djanira/Giovanna De Toni e Carlinhos Oliveira/Paulo Tiefenthaler) e Rita Elmor (em diálogo com João Saldanha/Karan Machado). Nesses casos, tanto o texto da atriz como o dos entrevistados seguem linha a linha o encontro original. As entrevistas realizadas com Niemeyer, Gullar, Tônia, Nélida, Bonomi e Elke têm as perguntas mantidas, dando liberdade aos entrevistados de responder com espontaneidade. Comparadas com o texto publicado no livro, percebe-se que há poucas mudanças. Com exceção da entrevista com Tônia Carrero, que transborda emoção. Para realizar essa parte do DVD, mais documental, o papel da Clarice entrevistadora foi entregue aos jornalistas Arnaldo Bloch, Deolinda Vilhena e Tânia Bernucci.


A trilha sonora do DVD traz tema composto por Frejat, mas o destaque fica para a música inspirada em texto de Clarice Lispector retirado de Água viva, livro que Cazuza afirmava ter lido mais de 100 vezes. O poeta musicou as palavras da escritora, em canção interpretada no filme por Adriana Calcanhotto, com violão de Jards Macalé.


(Do Jornal UAI, caderno  Divirta-se - Belo Horizonte, MG)