segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Espinheiro de casca branca - cordel de Josué Araujo

Uma vez, as árvores decidiram eleger um rei para si. Disseram à oliveira: ‘Vem reinar sobre nós’. Mas a oliveira lhes disse: ’Deveria eu renunciar a minha gordura com que se glorifica a Deus e aos homens para reinar sobre as outras árvores? ’
Então as árvores foram à figueira: ‘Vem reinar sobre nós. ’ Mas a figueira, disse-lhes: ‘Deveria eu renunciar à minha doçura e ao meu bom produto e ir reinar sobre as outras árvores?
A seguir, as árvores disseram à videira: ‘Vem reinar sobre nós. ’ A videira, por sua vez, disse-lhes: ‘Deveria eu renunciar ao meu vinho novo que alegra a Deus e aos homens e ir reinar sobre as outras árvores?’
Por fim, todas as outras árvores disseram ao espinheiro-de-casca-branca: ‘Vem, reina sobre nós. ’ Em vista disso, o espinheiro-de-casca-branca disse às árvores: ‘Se verdadeiramente me elegem como rei sobre vós, venham e fiquem embaixo da minha sombra. Mas, do contrário, sairá fogo de mim e queimará os cedros do Líbano. ’ “Juízes 9:8-15"

Sua excelência, o “Espinheiro-de-casca-branca”.

Josué Araujo -  (autor cedeu e autorizou publicação no blog)
No reino dos vegetais,
Conta o velho testamento
Que, à margem dos animais,
Na floresta houve um momento
Que as árvores maiorais
Promoveram grande evento.

Eleger um novo rei,
As árvores proclamaram,
E o projeto virou lei.
As plantas se prepararam,
Os detalhes eu não sei,
E as campanhas começaram.

Convidaram a Oliveira:
- Sobre nós venha reinar!
- Ora, deixe de besteira -
Respondeu sem vacilar:
- Ouça bem, minha parceira,
Pois vou ter que recusar.

Para Deus glorificar,
Minha essência é consumida.
Como posso renunciar
À função da minha vida,
Pra vocês ir comandar,
Se pra Deus sou bem servida?

Intimaram a Figueira:
- Vem governar sobre nós?
Mas ela, sem brincadeira,
Engrossando bem a voz:
- Estou fora, companheira,
Dessa casca de arriós.

Eu não vou renunciar
Minha essência, que é doçura,
Mesmo sendo pra reinar
Com coragem, com bravura.
Só me resta rejeitar,
E esquivar dessa loucura.

Mas as árvores teimaram
Na eleição da realeza.

Nas florestas divulgaram,
Sem cansaço e sem moleza.
Toda planta convidaram:
Se não Rei, então, princesa.


Mas um sopro de esperança
Na Videira floresceu:
- Vem reinar com temperança,
Que o poder será só seu! -
E a Videira, sem lambança,
Descartou o caduceu.

O governo que merece,
Cada povo tem o seu.
Se o certo não se oferece,
Aparece um fariseu,
E o povão é quem padece
Nas garras de um pelebreu

Pois aconteceu no céu
Que a terça parte dos anjos
Arrastou o cetro ao léu,
E o comando dos arcanjos
Sofreu imenso labéu,
Pondo a Deus em desarranjos.


A ambição é corrosiva,
Natureza do Diabo,
Que na guerra impulsiva,
Só com a ponta do rabo,
Uma parte relativa
Dos anjos ele deu cabo.


As árvores sem alteza,
Sem comando e direção,
dispensando a realeza,
Dos votos abrindo mão,
Se entregando na incerteza
Aos cuidados de um mandão.

O espinheiro-casca-branca
- O terror de todas ervas,
Por temerem sua carranca –
Recebeu-as sem reservas:
- Aceito e não boto banca,
Mas serão as minhas servas.

Se de fato serei rei,
Fiquem sobre o meu abrigo,
Do contrário queimarei
Quem se indispuser comigo.
Dessa forma reinarei,
Sem dar folga ao inimigo.

Meu comando não tem fim,
Complacência ou afago.
Do fogo que sai de mim,
Todas as plantas, eu esmago
Queimarão como capim,
Os cedros e até o tartago.


Meus amigos companheiros,
Lá no congresso é igual,

Temos muitos espinheiros,
Vejam tudo no jornal:
É só bandos de embusteiros
Que se passa por legal.

Na eleição não fui votar,
Não exerci o meu direito,
Como posso reclamar,
Se votaram num sujeito
Que só sabe arrebanhar,
E deixei que fosse eleito?


E os vegetais não afeitos,
Prisioneiros e oprimidos,
Sofrem muito insatisfeitos,
Por não serem destemidos,
Exercendo os seus direitos,
Não votando nos bandidos.


Companheiros ouçam bem,
O que agora vou dizer:
Que a eleição logo vem,
E a sua voz tem que valer.
A avestruz é como alguém,
Que se abaixa pra esconder.


Todo aquele incompetente,
Que só sabe lamentar,
Sobre o muro esta presente,
Como um gato a espreitar,
Nunca faz nada contente,
A não ser sacos puxar.


A história do espinheiro
Serve a todos de espelho.
Companheiro brasileiro,
Ouça bem o meu conselho:
Nunca eleja um embusteiro
Pra roubar o seu celeiro.
Como amigo, eu aconselho.

(O autor cedeu e autorizou publicação no blog)