terça-feira, 15 de julho de 2008

Resgate: "Operação Vida"



Pokhara, Nepal, 15 de agosto de 1982.
     Há sete dias, um avião de pequeno porte era tido como desaparecido próximo à cordilheira do Himalaia. E como sempre, lá estavam Ricky e Dhúlia, jovens aventureiros, sem fronteiras e sem endereços, membros de uma corporação filantrópica obstinada a socorrer vítimas de acidentes aéreos. Apesar da pouca idade, já detinham no currículo vários resgates com sucesso. E este acabara sendo mais uma empreitada com um final feliz para as vítimas. Mas para Dhúlia, pairava ainda uma certa dúvida sobre o seu próprio final.
     No dia seguinte após o término da missão, ela andou vagando pelas ruelas da bucólica cidade de Pokhara, olhando para baixo e contendo sua aflição quando trombava com transeuntes. Carregava consigo a dúvida. Uma dúvida que a cada passo consternado sobre os paralelepípedos úmidos começava a tomar forma de certeza. Uma certeza que, talvez na cumplicidade do seu coração, já pulsava há algum tempo. Levantava os olhos fixos no chão apenas para olhar o céu, talvez mirar alguma luz, mas já apareciam os primeiros sinais do anoitecer.
     Em seu caminho, avistou um templo budista. Adentrou fingindo que procurava respostas. Olhou em sua volta e arfou o ar de sua cor predileta, contando os segundos que demorou a insuflar seus pulmões. Expirou e conseguiu sentir as batidas de seu coração, um pulsar firme e determinado. Ainda com os paralelepípedos impregnados em sua retina, fixou o olhar para uma imagem de Buda. E continuou repetindo seu ritual pulmão e coração mais algumas vezes. Estavam ambos sentados, ela e o ícone, permeados pelo silêncio. Quando, sem intenção, acabou encontrando uma sensação agradável de paz, que se fez perceber mais importante do que a incerteza mascarada.
     Saiu do templo sensivelmente diferente. Com os passos já conformados, mas sobretudo resolvidos e revestidos por uma paz imperial. Uma paz que a conduziu até a beira do lago que banhava a cidade. Nunca soube o nome daquela linda harmonia de águas azuis. Ouviu uma lenda de que o vale de Kathmandu, onde fica Pokhara, já tinha sido inteiramente coberto por aquele lago. Mas não importava o nome, pois era o seu Lago Azul. Ali, sentada na margem e cercada por colinas e montanhas ao fundo com neve perene nos picos, bem que poderia ter sido o lugar e também o momento em que ela treinasse o seu discurso. O lago de certo emprestaria seus ouvidos àquele timbre adocicado de voz feminina. Mas não. Ela optou por não lançar suas palavras em direção às águas. Ao invés, enamorou-se do silêncio enquanto sentia o regozijo de atirar e ouvir o barulho das pedrinhas mergulhando no lago, formando círculos excêntricos em direção aos seus pés. Nada de ensaios. Sentia-se pronta. O coração e a razão já tocavam a mesma melodia. Levantou-se, beijou a última pedrinha, como quem se despede, e arremessou-a forte, para bem longe.  Deu as costas ao lago e seguiu ao encontro de seu colega Ricky, que dali a pouco ouviria uma música interpretada com um arranjo singular: uma paz abençoada por águas azuis.
     A noite caiu. Dhúlia apressou o passo, agora mais firme, contra a escuridão que já reinava plena. Ficou até um pouco tensa por causa das penumbras deparadas em cada esquina, mas manteve-se serena quanto à conversa que teria com Ricky nos próximos instantes. Afinal, pensou ela, a única coisa que poderia fugir do seu controle seria uma reação extrema por parte dele. Esse era o único terreno que ainda poderia estar movediço. Que reação ele teria? Que expressão facial estamparia? O que demonstraria? Decepção? Euforia? Menoscabo? Agora já não importava mais. O verde mais hostil e denso da floresta já foi custosamente transposto. Só faltava o derradeiro passo. E torcer pra não ser tragada pelo desconhecido.
     Chegou à rústica mas agradável pensão onde estavam hospedados. Dhúlia entrou na recepção, deparou-se com a recepcionista e cinco segundos insólitos se passaram até solicitar a visita ao quarto de Ricky. Ouviu atenta o estalar da madeira a cada passo lento na escada. Percebeu a sutil diferença no arfar de seus pulmões, mas tudo estava sobre controle, por enquanto. De frente a porta desbotada, mas rígida, número 208, desferiu uma batida seca, apenas uma. Ricky abriu a porta como sempre, bem humorado, apontando a entrada com as mãos e dizendo: ¨Seja bem-vinda a minha humilde e atual morada¨. E Dhúlia acabou entrando como sempre, leve e tranqüila.
     Dez minutos de prosa sobre o último resgate e ela não podia mais adiar a palavra. ¨Ricky, tenho algo sério a te contar¨. Ele manteve-se em pé, mirou-a atentamente e perguntou o óbvio: ¨Alguma coisa grave?¨. Ela desviou o olhar para baixo discretamente e disse se tratar de algo muito grave. Ele preocupou-se, de pronto puxou a cadeira e sentou do outro lado da mesa, de frente a ela, os braços esticados e as mãos entrelaçadas.   Tenso, ficou calado, mas suplicava explicações com o olhar. E quebrando o ar carregado que pairava no ambiente, Dhúlia inclinou-se para frente e desferiu de maneira segura:  ¨Vou me desligar da nossa corporação, para sempre. Eu te amo Ricky, como nunca amei outro homem. Desconheço seus sentimentos, mas esta situação chegou a um ponto insustentável para mim. Eu quero uma nova vida, longe de acidentes aéreos, e longe de você¨. Nesse momento, Ricky mudou substancialmente de fisionomia, apoiou o cotovelo na mesa e mão no queixo, surgia um misto de surpresa e raciocínio lógico, resultando em uma expressão de senhor daquela situação. Dhúlia mantinha o semblante firme da oratória eloqüente, não percebia que ele respondia sem palavras. Ela continuava: ¨Ricky, eu quero tão pouco, apenas um endereço fixo e um amor verdadeiro, uma vida considerada normal.¨ Enquanto isso, ele levantou-se, abriu a janela de madeira e olhou o horizonte sentindo uma brisa gélida, enxergou até onde sua visão alcançava, pensou que as grandes decisões se tomam em um curto lapso de tempo e disse: ¨Eu te amo, Dhúlia!  Eu sempre te amei! Nossa dedicação incondicional à equipe nos cegou. Chegou a hora de termos de volta nossa capacidade de ver outro mundo, ou melhor, de sentir outros mundos. Vem comigo, monta em meu cavalo e vamos embora agora, neste exato momento, fazer a nossa realidade, salvar mais duas vidas em perigo, as nossas próprias vidas¨. Dhúlia ouviu petrificada, e lembrou que o cavalo selado só passa uma vez. Não cabiam mais palavras, sobravam atitudes. E rapidamente os dois se viram viajando montados em um belo e imponente animal. As luzes de Pokhara se tornavam então cada vez mais distantes e tênues, e só se ouvia o firme galope através do deslumbrante vale de Kathmandu. Em um certo momento, de onde já se viam os primeiros pontos luminosos da próxima cidade, Ricky lembrou que no afã de pulverizar os padrões e as normas, e na volúpia pela libertação da alma, não havia ainda sentido a textura macia dos lábios de Dhúlia. E no alto de uma colina, sob a lua cheia reluzente, parou o cavalo e virou-se para ela, desenhando um encaixe de corpos perfeito, glorificado com um beijo tenaz e apaixonado, sacramentando um grande amor que ali nascia, naquele belo vale tácito, entre parcas luzes e muitas estrelas... Nesse instante um avião riscou o céu do Nepal, rompeu o silêncio, urrou forte, e eles não ouviram.