quarta-feira, 23 de abril de 2008

Gentilmente cedido pelo autor


Fábula urbana

José Rezende Jr. *

–Moço, me dá um livro?

–Estou sem moeda.

A resposta escapuliu num refluxo. Uma resposta-padrão, como se fosse aquele o pedido mais natural do mundo. “Livro????”, refletiu, um segundo depois, o homem de terno. Teria o menino pedido “livro”, em vez de “dinheiro”, “trocado”, “um real”??? Mesmo que houvesse o menino pronunciado um coerente “Moço, me dá um de-comer que eu tô com fome” ainda assim alguma coisa estaria fora de ordem e de lugar. A começar pelo diálogo em si. Como haveriam de contracenar neste mesmo cenário – um shopping center, perto das dez da noite – personagens tão opostos quanto este, o homem de terno, e aquele outro, o menino pobre que pedia livro, dinheiro, comida ou outra coisa qualquer? Era, pois, um diálogo inexistente, concluiu o homem de terno.

–Pode ser qualquer livro, moço.

A insistência do menino devolveu o homem à realidade absurda. O homem olhou em volta: nenhum segurança de paletó e gravata, nem o mais remoto zumbido de algum walk-talk. Não que o homem de terno temesse alguma violência por parte daquela triste figura em miniatura. Talvez até temesse, mas em outra situação: estivesse ele parado no sinal vermelho, vidro do carro estupidamente aberto, e o menino, caco de vidro em punho magro, grunhindo com a voz gosmenta de cola de sapateiro, “Aí, tio, me dá um livro aê, tá ligado?”; talvez até temesse, fosse o menino menos menino, não mais o embrião de um perigo futuro, mas o perigo em si, já maduro, aqui e agora. “Não, ainda é cedo para ter medo, pelo menos deste aí... talvez daqui a dois ou três anos”, calculou o homem de terno, avaliando com alívio a altura e o peso do menino.
Na seqüência, o alívio deu lugar à indignação; era uma questão de cidadania: o homem de terno pagava impostos e dízimos, estacionara o carro na garagem automatizada, guardara o ticket no bolso do paletó azul-marinho, tomara o elevador panorâmico, escolhera o andar em que reluziam as lojas desejadas, fizera tudo certo. Tinha, pois, o direito sagrado e constitucional de não ser assim afrontado por tanta realidade, ainda mais nessa fortaleza arquitetada para resistir a toda e qualquer ofensiva da vida real. Ora, a única realidade permitida ali deveria ser a dos reality shows exibidos nas tevês de 29 polegadas das lojas de eletrodomésticos.

–Moço, o livro não precisa nem ter figura. Pode ser do mais baratinho.

De tão pequeno, o menino coube, da cabeça aos pés, num único olhar do homem de terno. O figurino, é certo, não parecia adequado ao personagem “menino de rua clássico”, que exige: calção surrado, pés descalços, cobertor fedorento jogado nas costas nuas, lata de cola nas mãos. Não. Talvez graças a esse artifício, o de fugir ao figurino-padrão da miséria e do abandono, conseguira o menino pobre burlar a segurança do shopping.
“Negligente segurança” rosnou em pensamento o homem de terno, pois a pobreza do menino, ainda que camuflada sob certo grau de dignidade (era possível que tivesse mãe, o menino, “mas pai ausente ou alcoólatra, na certa”), não resistiria a um olhar mais atento: calça com a barra desfeita, camiseta de malha puída enorme, decerto herdada do irmão já morto pela polícia ou pela gangue rival (“Deus, como essa gente tem filhos!”), e tênis que até parecia de marca (“imitação ou roubado, com toda certeza”), mas imundo e com barbante encardido fazendo o papel de cadarço.
Caso persistisse alguma dúvida quanto ao lugar na pirâmide social ocupado pelo menino, bastaria ao homem de terno conferir a indelével marca registrada de pobreza infantil: o nariz a escorrer num resfriado eterno e sem remédio.
O menino secou provisoriamente o nariz com o dorso da mão e voltou à ofensiva, desta vez com o olhar silencioso que implorava, reivindicava, cobrava, acompanhado da interjeição incisiva e curta, que ao homem de terno soou quase agressiva:

–Ã?

O homem de terno olhou em volta, em busca do deserto vazio e seguro de todos os shoppings centers do mundo, esse deserto feito de multidão e sacolas, mas não havia ninguém. “Está ficando tarde”, pensou o homem, tenso. Os únicos vestígios de presença humana vazavam exatamente da livraria envidraçada, cuja fachada refletia dois seres de dimensões tão diferentes frente a frente num encontro improvável. O homem cedeu; entrou, seguido pelo menino. Caminharam quase juntos, mas distantes, até o fundo da livraria.
–Escolhe.
Mal pronunciou, o homem de terno, o imperativo desconhecido – “escolhe” – cujo significado o pequeno interlocutor apenas intuía, pôs-se o menino a percorrer as prateleiras entulhadas de livros de todas as cores e tamanhos. O homem observou, divertido, o olhar de assombro do menino, o queixo apontado para o topo da prateleira, a respiração suspensa, a indecisão em cada músculo do corpo.

–Moço, como é que escolhe?

O homem de terno olhou longamente o interlocutor, até que não restasse qualquer dúvida sobre a meninice daquele menino. E concluiu que não havia mesmo por que temê-lo, não ainda, não esta noite, não neste lugar. O homem percorreu, então, com olhos e dedos, as lombadas dos volumes expostos na prateleira. Puxou um, mais ou menos ao acaso, e estendeu ao menino. Virou-lhe as costas e deu alguns passos em direção ao caixa, já sacando o cartão de crédito, à espera do agradecimento comovido. Que não veio.

–Moço, lê pra mim?
Sem saber a razão, sem ao menos perguntar a razão, o homem estancou. Fez meia-volta. E leu. Ou melhor, esquivando-se do trabalho de apanhar os óculos de leitura no bolso interno do paletó, o homem folheou meio cego o livro em ordem errática, e valeu-se apenas da memória esquecida de quando era pequeno, e emendou uma história na outra, embaralhando enredos e personagens da infância remota que – só agora se dava conta – jamais compartilhara com os próprios filhos.
“Era uma vez um gato de botas perdido na floresta com sua irmã Maria que era bruxa e usava um chapeuzinho vermelho aí chegou o lobo mau perseguindo a Branca de Neve montado no tapete mágico quando encontrou a bela adormecida cercada por sete anões e três porquinhos.”
E lia o homem de um fôlego só, entonação a princípio displicente, incapaz de refletir a tensão de tantos personagens engolfados por destinos trágicos e fabulosos; mas tanta atenção prestava o menino, os olhos brilhando, a véspera do sorriso emoldurada pela secreção eterna a escorrer do nariz, que se viu o homem obrigado a administrar exageros, costurar com alguma coerência diálogos mal-ajambrados, e emprestar um arremedo improvisado de ordem ao caos que ele próprio criara, e modular a voz ao sabor das aventuras e desventuras, e conjurar sortilégios, e reconciliar amores impossíveis, e, no fim, já quase sem fôlego, punir os maus e recompensar os bons.
E melhor só não fez, o homem de terno que nunca havia contado história, porque era tarde, ou por não suportar o assombro familiar e o sorriso antigo que num dia remoto foram seus e agora pertenciam ao menino. E foi-se o homem até o caixa da livraria, da livraria ao elevador panorâmico, do elevador à garagem automatizada, da garagem à rua, tudo num único movimento, sem olhar para trás. E já guiava o homem de terno o automóvel veloz pelo trânsito lento, a boa ação recente aos poucos embotada pela culpa, a culpa que num instante era semente e no outro floresta centenária, a culpa não pela posse de tantos livros, ternos e automóveis, a culpa não pelo medo inicial e a intolerância de sempre, mas a culpa por ter esquecido de dizer ao menino, ainda que ele próprio não acreditasse no que esquecera de dizer, a culpa por ter esquecido de concluir dizendo ao menino “...E foram todos felizes para sempre”, porque é assim que terminam todas as histórias, ou era assim que deveriam terminar todas as histórias.
E foi ruminando o amargor da culpa que o homem de terno parou no sinal vermelho, e foi ainda ruminando o amargor da culpa que percebeu tarde demais o vidro do carro estupidamente aberto, no sinal vermelho, àquela hora da noite vazia. E foi então que o homem de terno, grudado ao volante, avistou o vulto saindo dalgum beco escuro, o vulto que parecia o mesmo menino, mas de alguma forma outro, menos menino, mais forte e ameaçador, o tórax inflado sob a camiseta puída, ou antes a arma oculta sob a camiseta puída, era o menino, era o menino, e o homem vomitou a culpa e engoliu o medo, e trêmulo, incapaz do gesto salvador de fechar a tempo o vidro elétrico, entregou-se o homem de terno ao destino, e viu o menino encher toda a janela do carro, e de sob a camiseta inflada e puída sacar o livro e disparar à queima-roupa:

–Moço, me ensina a ler?
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*José Rezende Jr. publicou o livro errante A Mulher-Gorila e outros demônios (editora 7 Letras) e acaba de concluir Eu Perguntei Pro Velho Se Ele Queria Morrer e outras histórias de amor.

3 comentários:

  1. "A mulher-gorila e outros demônios" está comigo, ficará aqui por alguns dias, antes de seguir viagem.
    Gostinho bom de coincidência ler o conto antes.
    Algo me diz que esse gostinho vai permanecer, ainda que se torne ácido e amargo e mais dolorido a cada página.
    Obrigada Errante. Vocês todos não tem noção do quanto lhes devo.
    Abraços,
    Márcia Regina

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  2. Márcia

    Os débitos são mútuos garanto.De minha parte não faz(talvez nem eu)idéia do quanto já aprendi e me diverti no L.E

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  3. Quando Chico Buarque compôs "Cálice" talvez ele pensasse que a realidade "menos morta" estivesse perto de chegar. O que vemos está além de qualquer sonho. O conto mostra o real e o inusitado de uma maneira bela, poética, apontando que a educação é um dos caminhos para tantos descalabros, injustiças, até mesmo para nossos medos da crianças que andam por aí, elas tão mais "aprendidas" em coisas que tememos.

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