quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Os Ramos Ocultos de Graciliano


OS RAMOS OCULTOS DE GRACILIANO
Antonio Falcão *

Antes de conhecer Dona Heloísa, viúva de Graciliano Ramos, eu tinha algum entendimento sobre o autor de Vidas Secas. O encontro se deu em novembro de 77, na Chácara Santo Antonio, bairro de Santo Amaro, São Paulo. Ali eu já sabia que ninguém pode escrever a vida de um homem senão ele mesmo, como confessou Rousseau. Graciliano Ramos, o mais perfeito e significativo dos romancistas brasileiros pós-modernistas, não fugiu dessa assertiva.
Efetivamente, Mestre (ou Major) Graça – assim o chamavam seus contemporâneos – escreveu pedaços de si, da vida que viveu, da ambiência ao seu redor. Seus personagens, encontradiços nos campos e ruas deste país, ou refletidos nos caminhos em desalinho de sua imaginação, têm faces alencarianas e machadianas. São substantivos e não adjetivos. São, sobretudo, humanizados, mesmo quando situados em condições precárias de uma cidadezinha, como João Valério, em Caetés, ou moralmente indignos, como Paulo Honório, em São Bernardo, ou, até, psicologicamente difíceis, tal qual Luís da Silva, em Angústia, sua obra-prima. Mas seu instinto de humanização hipertrofiou-se em Baleia, a cadela de Vidas Secas, seu romance (ou novela, na classificação de Álvaro Lins) mais popular e mais traduzido.
Graciliano, o escritor, um estilista, um clássico; o homem, um pessimista em relação aos políticos e à vida literária. Autor econômico, de sentenças secas e duras, o Mestre, nada poético, escreveu friamente coisas ardentes, como recomendou Baudelaire. Clássico pela universalidade que individualizou na sua obra, por isso há de perdurar na nossa história literária.
Seu pessimismo transmitido à literatura era justificável. Decorria das circunstâncias em que viveu e da realidade social do Brasil. Graciliano testemunhou uma verdade gravada desde a infância. Valendo-me da frase de Mário da Silva Brito, diria que foi um otimista de luto. Enlutado pela miséria que veste a grande massa brasileira; luto que não transferiu ao povo, merecedor de sua extraordinária confiança.
Mas Dona Heloísa, sessentona, morena, de traços belos e culta, me ensinou muito mais. Afável, falou-me do marido com empolgação e frescor, coisas de adolescente enamorada. Disse que o Mestre – pra ela, Graci - era despreendido em relação a tudo e consigo próprio. Certa vez, notou que há dias ele andava capengando de uma perna e não sabia explicar o porquê. Quando Graciliano descansava, ela pôs a mão dentro do sapato dele e descobriu uma ponta de prego que fazia escavações no dedão do Major. E riu meiga, como se Graciliano estivesse presente e ali fosse a pensão carioca do Catete, onde moravam.
Depois, eu quis saber como se comportava Mestre Graça no plano doméstico, seu trato pessoal com ela, os filhos. Extremamente doce, carinhoso e polido, respondeu. Às vezes, romântico, como numa manhã em que foi à casa de um amigo e de lá telefonou pra ela, insistindo que fosse ao seu encontro, olhar um pé de jasmim recendendo no quintal. Sentimentos desse tipo ele não botou nos livros.
Perguntei por Graciliano político. Como ele conseguiu acomodar suas veleidades anarquistas à rigidez do Partido Comunista, ao qual aderiu em 45. Respeitosa com o Partidão, ela me contou que o marido, disciplinado militante, nunca fez de sua literatura um panfleto, tornando seu texto um palanque. Homem do seu tempo e escritor engajado, Graciliano jamais rendeu subserviência ao stalinismo, então reinante, ou ao sovietismo embasbacado. Um marxista instruído. Entendeu que tudo que fala do homem é, por si, político.
Procurei saber mais. Ponderei que Graciliano, primogênito de uma família de 16 filhos, educado com rigor pelos pais tabaréus, conheceu o internato de um colégio, foi balconista, dono de loja de tecidos, prefeito. Considerei ainda que dirigiu a Imprensa Oficial, uma escola que fundou numa sacristia e a instrução pública de Alagoas. Tudo isso, além de enfrentar a peste bubônica dizimando seus parentes, enviuvar ainda moço, criar quatro filhos menores do primeiro casamento e ter sido preso político em conseqüência da quartelada de 1935, da qual não participou. Como conseguiu tempo e condições para escrever tanto e tão bem? Ela foi clara e precisa, como o marido: - Exatamente por tudo isso.
Sobre os críticos literários, foi primorosa. Ficaram ocultos para eles alguns ramos viçosos do Mestre Graça. Tomou Vidas Secas como exemplo. Nos contos do livro – romance desmontável para Rubem Braga -, Graciliano construiu o vaqueiro Fabiano, ruivo, de olhos azuis e obtuso. Um bicho autoproclamado. Sinhá Vitória, sua mulher, mulata e inteligente. Sabia contar. Quis o Mestre afrontar o racismo e o machismo da nossa cultura. Nenhum ensaísta literário ou político, nenhum militante étnico ou feminista, descobriu esses propósitos do Autor. Tampouco, ninguém indicou as razões de Sinhá Vitória ter como objetivo uma cama de lastro de couro, como a de seu Tomás da bolandeira. O grande Graça insinuou o adultério de sua heroína. Ninguém foi lá.
Ocultas, aos olhos dos críticos, as circunstâncias em que Graciliano elaborou Vidas Secas. Em 1937, o Autor morava com a mulher e os dois filhos numa pensão. Os filhos inspiraram os personagens meninos mais novo e mais velho. Os quatro eram a família.
Com a lição de Dona Heloísa, tomo para Graciliano o que Anatole France disse de Zola – um momento de consciência humana.
Obrigado, Dona Heloísa. Tenho pra mim que a senhora enriqueceu este país endividado com tudo, inclusive com seu marido.

Texto extraído de "Romeiros do Absurdo" - páginas 69/72, Ed. Comunicarte, Recife/1991.
* Antônio Falcão é escritor, também, dos seguintes livros: O Tango da Meretrizes - Ed. Bagaço, Recife/1997 ; Mil, Novecentos e Nós - Ed. Comunicarte, Recife/1995: Um sonho em Carne e Osso, os fora de série do futebol brasileiro -Ed. Bagaço, Recife/2002; e Os Artistas do Futebol Brasileiro- Ed. Nossa Livraria, Recife/2006.